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As coisas que eu gosto! E as outras...

Este é o meu espaço, nele partilho as minhas fotos amadoras, as coisas que aprendi e vou aprendendo.

As coisas que eu gosto! E as outras...

Este é o meu espaço, nele partilho as minhas fotos amadoras, as coisas que aprendi e vou aprendendo.

04.04.20

O Sapo - Afonso Lopes Vieira - in 'Animais Nossos Amigos'

Miluem

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O Sapo

 

Não há jardineiro assim,
Não há hortelão melhor
Para uma horta ou jardim,
Para os tratar com amor.

 

É o guarda das flores belas,
da horta mais do pomar;
e enquanto brilham estrelas,
lá anda ele a rondar...

 

Que faz ele? Anda a caçar
os bichos destruidores
que adoecem o pomar
e fazem tristes as flores.

 

Por isso, ficam zangadas
as flores, se se faz mal
a quem as traz tão guardadas
com o seu cuidado leal.

 

E ele guarda as flores belas,
a horta mais o pomar;
brilham no céu as estrelas,
e ele ronda, a trabalhar...

 

E ao pobre sapo, que é cheio
de amor pela terra amiga,
dizem-lhe que é feio
e há quem o mate e persiga 

 

Mas as flores ficam zangadas,
choram, e dizem por fim:
- «Então ele traz-nos guardadas,
e depois pagam-lhe assim?»

 

E vendo, à noite, passar
o sapo cheio de medo,
as flores, para o consolar,
chamam-lhe lindo, em segredo...

 

Afonso Lopes Vieira,

in 'Animais Nossos Amigos' 

 

04.04.20

Saudades não as Quero - Afonso Lopes Vieira

Miluem

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Saudades não as Quero

 

Bateram fui abrir era a saudade
vinha para falar-me a teu respeito
entrou com um sorriso de maldade
depois sentou-se à beira do meu leito
e quis que eu lhe contasse só a metade
das dores que trago dentro do meu peito 

 

Não mandes mais esta saudade
ouve os meus ais por caridade
ou eu então deixo esfriar esta paixão
amor podes mandar se for sincero
saudades isso não pois não as quero 

 

Bateram novamente era o ciúme
e eu mal me apercebi de que batera
trazia o mesmo ódio do costume
e todas as intrigas que lhe deram
e vinha sem um pranto ou um queixume
saber o que as saudades me fizeram 

 

Não mandes mais esta saudade,
ouve os meus ais por caridade,
ou eu então deixo esfriar esta paixão,
amor podes mandar se for sincero,
saudades isso não pois não as quero. 

 

 

Afonso Lopes Vieira

in 'Antologia Poética' 

 

04.04.20

Ponta Delgada @ Lendas de Portugal - Lenda do Sábado de Nossa Senhora

Miluem

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Imagem: Pintrest

 

Lenda do Sábado de Nossa Senhora

 

Nossa Senhora era muito pobrezinha, mas muito asseada e gostava de levar o Menino Jesus sempre limpo ao templo. Jesus, como todos os meninos pobres da sua terra, só tinha uma muda de roupa que usava durante a semana e que também servia para as cerimónias do culto.


Quando chegava ao sábado, a roupa do Menino estava muito suja pois ele brincava na terra, corria pelos campos, trepava paredes com vizinhos e amigos da sua idade. Nossa Senhora, no sábado de manhã, pegava na roupa, ia lavá-la para junto do poço, estendia-a ao sol, para que se enxugasse e pudessem ir ao templo.


Pedia então a Nosso Senhor bom tempo, pois, se não fizesse sol, não podia enxugar as roupinhas. Deus ficava com pena de Nossa Senhora, fazia com que houvesse sol todos os sábados. Mesmo quando o tempo era mais invernoso sempre mandava olharadas de sol.


E assim que na Terceira se acredita que “Não há sábado sem sol, nem domingo sem missa, nem segunda sem preguiça”.


Ainda há cerca de cinquenta anos, também penúria como a de Nossa Senhora era sentida por muitas mães da Terceira que, querendo levar os filhos asseados à missa no domingo, lavavam as roupas no sábado, esperando o sol do sábado de Nossa Senhora, que sempre vinha.

 

Source: FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.152
Place of collection: Angra (Sé), ANGRA DO HEROÍSMO, ILHA TERCEIRA (AÇORES)
Narrative / When: 20 Century, 90s / Belief: Unsure / Uncommitted

Fonte: CEAO - Centro de Estudos Ataíde Oliveira

 

03.04.20

Gerês @ Lendas de Portugal - A lenda da Ponte da Mizarela

Miluem

A lenda da Ponte da Mizarela

 

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Reza sobre ela, a seguinte lenda:


"Diz-se que um padre, querendo fazer uma pirraça ao Diabo, se disfarçou em salteador perseguido pelas justiças de Montalegre, e foi certo dia, à meia-noite, àquele lugar para passar o rio.

 

Como o não pudesse passar, por meio de esconjuros, invocou o auxílio do Inimigo.

 

Ouve-se um rumor subterrâneo e eis que aparece, afável e chamejante, o anjo rebelde:

 

- "Que queres de mim?" - perguntou ele.

- "Passa-me para o outro lado e dar-te-ei a minha alma."

 

Santanás, que antegozava já a perdição do sacerdote, estendeu-lhe um pedaço de pergaminho garatujado e uma pena molhada em saliva negra, dizendo:

 

- "Assina!".

 

O padre assinou.

 

O Demo fez um gesto cabalístico e uma ponte saiu do seio horrendo das trevas.

 

O clérigo passa e, enquanto o diabo esfrega um olho, saca da caldeirinha da água benta, que escondera debaixo da capa de burel, e asparge com ela a infernal alvenaria, fazendo o sinal da cruz e pronunciando bem vincadas as palavras do exorcismo.

 

Santanás, logrado, deu um berro bestial e desapareceu num boqueirão aberto na rocha, por onde sairam línguas de fogo, estrondos vulcânicos e fumos pestilenciais.

 

O vulgo das redondezas, na sua ignorância e ingenuidade, e não sabemos a origem, aproveita-se da ponte para ali exercer um rito singular.

 

Quando uma mulher, decorridos que sejam dezoito meses após o seu enlace matrimonial, não houver concebido, ou, quando pejada, se prevê um parto difícil ou perigoso, não tem mais que ir à Mizarela, à noite, para obter um feliz sucesso. Ali, com o marido e outros familiares, espera que passe o primeiro viandante.

 

Este é então convidado para proceder à cerimónia, a qual consiste no baptismo in ventris do novo ou futuro ser.

 

Para isso, o caminhante colhe, por meio de uma comprida corda com um vaso adaptado a uma das extremidades, um pouco de água do rio e com a mão em concha deita-a no ventre da paciente por um pequeno rasgão aberto no vestuário para este efeito, acompanhando a oração com a seguinte ladaínha:

 

Eu te baptizo
criatura de Deus,
Pelo poder de Deus,
e da Virgem Maria.
Se for rapaz, será ‘Gervás’;
se for rapariga, será Senhorinha.
Pelo poder de Deus e da Virgem Maria,
um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.

 

O barulhar iracundo da cachoeira no abismo imprime a estas cenas um cunho de tétrica magia.

 

Segue-se depois uma lauta ceia, assistindo, geralmente, o improvisado padrinho. E o êxito é completo: um neófito virá alegrar a família. Claro que se na primeira noite não passar o viandante desejado, a viagem à Mizarela repetir-se-á até o cerimonial se realizar nas condições devidas.

 

De um dos lados ergue-se um enorme rochedo que o povo denominou "Púlpito do Diabo", por crer que o Demo vai ali pregar à meia-noite, quando as bruxas das redondezas se reunem em magno concílio…


- Mário Moutinho e A. Sousa e Silva, O mutilado de Ruivães

 

http://www.serradogeres.com/index.php/locais-paisagisticos/ponte-do-diabo

 

 

https://dicasfemininas-su.blogspot.com/2014/07/paraisos-em-portugal-ponte-da-mizarela.html

 

 

Ponte do Diabo

 

A Ponte da Mizarela (ponte do diabo) localiza-se sobre o rio Rabagão, a cerca de um quilómetro da sua foz no rio Cávado, na freguesia de Ruivães, concelho de Vieira do Minho, distrito de Braga, em Portugal.

 

Liga as freguesias de Ruivães à de Ferral, no concelho de Montalegre.

 

Está implantada no fundo de um desfiladeiro escarpado, assente sobre os penedos e com alguma altitude em relação ao leito do rio, sendo sustentada por um único arco com cerca de 13 metros de vão.

 

Foi erguida na Idade Média e reconstruída no início do século XIX.

 

Encontra-se classificada como Imóvel de Interesse Público desde de 30 de novembro de 1993.

 

 

02.04.20

Sendim @ Lendas de Portugal - O castigo do sapateiro

Miluem

Foto: http://donadecasapoupada.blogspot.com/2018/02/sapateiro.html

 

 

 

O castigo do sapateiro

 

Ao lado do Cabeço das Três Covinhas, há um outro a que o povo chama o Cabeço do Sapateiro.

 

Diziam-nos os antigos que lá dentro estava um sapateiro sempre a bater a sola, dia e noite, de castigo, porque, enquanto era vivo, não ia à missa ao Domingo, preferindo ficar a trabalhar.

 

 Então nós íamos lá encostar o ouvido ao cabeço para o ouvirmos bater na sola dos sapatos.

 

Mas quando dávamos conta, havia também alguém que nos dava com a cabeça na fraga. Ainda hoje quando ali passo, recordo as marradas que me deram.

 

Mas actualmente já só lá existe metade do cabeço, pois o proprietário precisou da pedra e cortou-o.

 

Uma pena. Já as crianças de hoje não podem ter aquela ilusão do sapateiro lá dentro a bater sola.

 

 

Source:  PARAFITA, Alexandre Património Imaterial do Douro - Narrações Orais (contos, lendas, mitos) Vol. 1 Peso da Régua, Fundação Museu do Douro, 2007 , p.178

Year:  2007, Place of collection: Sendim, TABUAÇO, VISEU

Collector: Alexandre Parafita (M),  Informant: Maria Lisete Coelho Ferreira (F), 57 y.o.,

Narrative, When: 21 Century, Belief: Unsure / Uncommitted

 


Fonte: CEAO - Centro de Estudos Ataíde Oliveira