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As coisas de que eu gosto! e as outras...

Bem-vind' ao meu espaço! Sou uma colectora de momentos e saberes.

As coisas de que eu gosto! e as outras...

17.05.22

Poetas portugueses | Ninguém de Judith Teixeira

Miluem

Ninguém

 

Embriaguei-me

num doido desejo

E adoeci de saudade.

Caí no vago ... no indeciso

Não me encontro, não me vejo -

Perscruto a imensidade

 

E fico a tactear na escuridão

Ninguém. Ninguém

Nem eu, tão pouco!

 

Encontro apenas

o tumultuar dum coração

aprisionado dentro do meu peito

aos saltos como um louco.

 

Judith Teixeira

Hora Sombria 1923, in " Castelo de Sombras" (1923)

 

Créditos:

Fonte: https://sites.google.com/site/poesiadalusofonia/judith-teixeira/ninguem?authuser=1

Foto: https://mag.sapo.pt/showbiz/artigos/camara-de-viseu-cria-premio-de-poesia-judith-teixeira

02.04.22

Pintores portugueses = José de Almada Negreiros

Pintura, Desenho, Tapeçaria e Poesia

Miluem

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Auto-Retrato - José de Almada Negreiros

 

José de Almada Negreiros

artista multimédia

 

José de Almada Negreiros nasceu em São Tomé e Príncipe em 1893, morrendo em Lisboa em 1970. Dele saíram quase todas as formas por que se pode expressar a arte, ou terá sido, como já lhe chamaram, artista multimédia antes do seu tempo.

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The nap, José de Almada Negreiros, 1939 (A sesta)

Ao lado de nomes como o de Mário de Sá-Carneiro e de Fernando Pessoa, Almada marca indelevelmente a evolução da cultura contemporânea portuguesa ao nível plástico e literário. Centremo-nos apenas na produção literária, assumindo que para Almada tudo o que redunde em espetáculo, interessa.

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The fisherman, tapestry José de Almada Negreiros •  ?  (Pescador, Tapeçaria)

Em 1914 publica o primeiro poema, mas é em 1915, com a publicação do texto “Frizos” no número 1 da revista literária “Orpheu”, que a base da postura iconoclasta é lançada, vindo a cristalizar-se num dos principais representantes da vertente vanguardista do movimento modernista. Escreve, em 1915, “A Cena do Ódio”. Mais tarde, o “Manifesto Anti-Dantas”- exemplar na investida contra uma intelectualidade passadista, convencional e burguesa – e “Litoral”, ambos de 1916, “A Engomadeira” e “K4 O Quadrado Azul”, publicados em 1917. Este é também o ano da 1.ª Conferência Futurista e de “Portugal Futurista”, que organiza com Santa-Rita Pintor, e altura da assunção plena do rótulo de futurista, numa provocação ao passadismo e como representação da modernidade. Em “Portugal Futurista”, revista de número único e associada à Conferência, publica os textos “Mima Fataxa” e “Saltimbancos”.

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Figurines for Cunha Taylors,  José de Almada Negreiros, 1913

Em Paris (1919 e 1920), desenvolve a poética da ingenuidade e publica, já de volta a Lisboa e no âmbito da sua terceira exposição individual no Teatro de S. Carlos, “A Invenção do Dia Claro” (1921). Nesta década de 20 publica “Arlequim” e “Pierrot” (1924) e começa a escrever “Nome de Guerra” (1925); mantém colaborações com as revistas “Contemporânea”, “Athena” e “Presença”, no “Sempre Fixe” e no “Diário de Lisboa”; a produção de outros tipos de manifestação artística, entre eles a pintura, soma-se à literária, mas acaba por constatar que “é viver o que é impossível em Portugal” (1926).

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Family José de Almada Negreiros •  1940 (Família)

Parte para Madrid em 1927 e aí fica até 1932, em contacto direto e produtivo com a cena artística madrilena. Regressado a Portugal, encara esperançoso a relação entre poderes públicos e a individualidade artística. O casamento com a pintora Sarah Affonso traz-lhe estabilidade emocional e também financeira, assegurando-lhe a rota para a consagração através de vários prémios e distinções enquanto pintor. Como autor, publica “Nome de Guerra” (1938). Enquanto ensaísta, teórico de arte, publica “Ver “(1943), “Mito-Alegoria-Símbolo” (1948) e “A Chave Diz: Faltam Duas Tábuas e Meia no Todo da Obra de Nuno Gonçalves” (1950).

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Portrait of Fernando Pessoa, José de Almada Negreiros •  1954 (Retrato de Fernando Pessoa)

Almada morre no Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, no mesmo quarto onde lhe morrera o amigo Fernando Pessoa, o único que havia tido o privilégio de ir ao seu casamento.

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Acrobats José de Almada Negreiros •  1947

Créditos:

Fonte: https://ensina.rtp.pt/artigo/jose-de-almada-negreiros/

Fotos:  https://www.wikiart.org/pt/jose-de-almada-negreiros   /   Family José de Almada Negreiros •  1940    /   The fisherman, tapestry José de Almada Negreiros •  ?    /   Portrait of Fernando Pessoa José de Almada Negreiros •  1954    /   The nap José de Almada Negreiros •  1939    /   Figurines for Cunha Taylors José de Almada Negreiros •  1913   /   Acrobats José de Almada Negreiros •  1947

 

Poesia de Almada Negreiros

 

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Almada Negreiros e Sarah Affonso

 

Momento de Poesia

 

Se me ponho a trabalhar

e escrevo ou desenho,

logo me sinto tão atrasado

no que devo à eternidade,

que começo a empurrar pra diante o tempo

e empurro-o, empurro-o à bruta

como empurra um atrasado,

até que cansado me julgo satisfeito;

e o efeito da fadiga

é muito igual à ilusão da satisfação!

Em troca, se vou passear por aí

sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,

compreendo tão bem o que não me diz respeito,

sinto-me tão chefe do que é fora de mim,

dou conselhos tão bíblicos aos aflitos

de uma aflição que não é minha,

dou-me tão perfeitamente conta do que

se passa fora das minhas muralhas

como sou cego ao ler-me ao espelho,

que, sinceramente não sei qual

seja melhor,

se estar sozinho em casa a dar à manivela do mundo,

se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.

 

Almada Negreiros, Escrito em 14 de Dezembro de 1941.

 

 

Luís, o Poeta, Salva a Nado o Poema

 

Era uma vez

um português

de Portugal.

O nome Luís

há-de bastar

toda a nação

ouviu falar.

Estala a guerra

e Portugal

chama Luís

para embarcar.

Na guerra andou

a guerrear

e perde um olho

por Portugal.

Livre da morte

pôs-se a contar

o que sabia

de Portugal.

Dias e dias

grande pensar

juntou Luís

a recordar.

Ficou um livro

ao terminar.

muito importante

para estudar:

Ia num barco

ia no mar

e a tormenta

vá d’estalar.

Mais do que a vida

há-de guardar

o barco a pique

Luís a nadar.

Fora da água

um braço no ar

na mão o livro

há-de salvar.

Nada que nada

sempre a nadar

livro perdido

no alto mar.

– Mar ignorante

que queres roubar?

a minha vida

ou este cantar?

A vida é minha

ta posso dar

mas este livro

há-de ficar.

Estas palavras

hão-de durar

por minha vida

quero jurar.

Tira-me as forças

podes matar

a minha alma

sabe voar.

Sou português

de Portugal

depois de morto

não vou mudar.

Sou português

de Portugal

acaba a vida

e sigo igual.

Meu corpo é Terra

de Portugal

e morto é ilha

no alto mar.

Há portugueses

a navegar

por sobre as ondas

me hão-de achar.

A vida morta

aqui a boiar

mas não o livro

se há-de molhar.

Estas palavras

vão alegrar

a minha gente

de um só pensar.

À nossa terra

irão parar

lá toda a gente

há-de gostar.

Só uma coisa

vão olvidar

o seu autor

aqui a nadar.

É fado nosso

é nacional

não há portugueses

há Portugal.

Saudades tenho

mil e sem par

saudade é vida

sem se lograr.

A minha vida

vai acabar

mas estes versos

hão-de gravar.

O livro é este

é este o canto

assim se pensa

em Portugal.

Depois de pronto

faltava dar

a minha vida

para o salvar.

 

Escrito em Madrid (Dezembro de 1931)

Publicado no Diário de Lisboa em 1931

Disponível em Project Gutenberg *

Créditos: 

Fonte: https://textosdepoesia.wordpress.com/category/almada-negreiros/

Fotos: https://www.publico.pt/2021/07/15/culturaipsilon/noticia/espolio-almada-negreiros-sarah-affonso-vai-ficar-guarda-universidade-nova-lisboa-1970539    /   https://mag.sapo.pt/showbiz/artigos/retrospetiva-da-gulbenkian-dedicada-a-almada-negreiros-atravessa-lisboa

 

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Projecto Gutenberg *

Livros de Almada Negreiros gratuitos para ler on-line ou fazer download.

https://www.gutenberg.org/ebooks/search/?query=almada+negreiros&submit_search=Go%21

 

* O Projeto Gutenberg (AO 1945: Projecto Gutenberg) (PG) é um esforço voluntário para digitalizar, arquivar e distribuir obras culturais através da digitalização de livros. Fundado em 1971, é a mais antiga biblioteca digital. A maioria dos itens no seu acervo são textos completos de livros em domínio público. O projeto tenta torná-los tão livres quanto possível, em formatos duradouros e abertos, que possam ser usados em praticamente quaisquer computadores.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Projeto_Gutenberg

01.01.22

Ano Novo | poema de Cecília Meireles

Miluem

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Renova-te.

Renasce em ti mesmo.

Multiplica os teus olhos, para verem mais.

Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.

Destrói os olhos que tiverem visto.

Cria outros, para as visões novas.

Destrói os braços que tiverem semeado,

Para se esquecerem de colher.

Sê sempre o mesmo.

Sempre outro. Mas sempre alto.

Sempre longe.

E dentro de tudo.

 

Cecília Meireles.

 

Créditos:

Fonte: http://www.blogclubedeleitores.com/2012/12/poemas-de-ano-novo-com-cecilia-meireles.html?m=1

Foto: https://pgl.gal/cecilia-meireles-importante-tagoreana-brasil/

31.12.21

Ano Novo | Ano Novo de Mário Quintana

Desejo um Ano Novo cheio de coisas boas

Miluem

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Lá bem no alto do décimo segundo andar do ano

Vive uma louca chamada Esperança

E ela pensa que quando todas buzinas

Todos os tambores

Todos os reco-recos tocarem:

– Ó delicioso vôo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada – outra vez criança

E em torno dela indagará o povo:

– Como é o teu nome, meninazinha dos olhos verdes?

E ela lhes dirá

( É preciso dizer-lhes tudo de novo )

Ela lhes dirá bem alto, para que não se esqueçam:

– O meu nome é ES – PE – RAN – ÇA …

 

Mário Quintana

 

Créditos:

Fonte: https://factivel.wordpress.com/poesia/mario-quintana-ano-novo/

Foto: 

https://homoliteratus.com/5-extraordinarios-poemas-de-mario-quintana/

30.12.21

Ano Novo | Ano Novo de Ferreira Gular

Miluem

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Meia-noite. Fim

de um ano, início

de outro. Olho o céu:

nenhum indício.

Olho o céu:

o abismo vence o

olhar. O mesmo

espantoso silêncio

da Via-Láctea feito

um ectoplasma

sobre a minha cabeça

nada ali indica

que um ano novo começa.

E não começa

nem no céu nem no chão

do planeta:

começa no coração.

Começa como a esperança

de vida melhor

que entre os astros

não se escuta

nem se vê

nem pode haver:

que isso é coisa de homem

esse bicho

estelar

que sonha

(e luta).

 

Ferreira Gullar

 

Créditos:

Fonte: http://artecult.com/tres-poemas-sobre-o-ano-novo/

Foto: https://www.revistabula.com/12068-os-10-melhores-poemas-de-ferreira-gullar/

24.12.21

Poemas de Natal * Natal… Natais… de Cabral do Nascimento

Boas Festas. Desejo um Natal com Saúde, Alegria e Paz.

Miluem

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Natal… Natais…

Tu, grande Ser,

Voltas pequeno ao mundo.

Não deixas nunca de nascer!

Com braços, pernas, mãos, olhos, semblante,

Voz de menino.

Humano o corpo e o coração divino.

 

Natal… Natais…

Tantos vieram e se foram!

Quantos ainda verei mais?

 

Em cada estrela sempre pomos a esperança

De que ela seja a mensageira,

E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.

Em cada vela acesa, em cada casa, pressentimos

Como um anúncio de alvorada;

E ein cada árvore da estrada

Um ramo de oliveira;

E em cada gruta o abrigo da criança omnipotente;

 

E no fragor do vento falas de anjos, e no vácuo

De silêncio da noite

Estriada de súbitos clarões,

A presença de Alguém cuja forma é precária

E a sua essência, eterna.

Natal… Natais…

Tantos vieram e se foram!

Quantos ainda verei mais?

 

Cabral do Nascimento, em ‘Cancioneiro’.

 

Créditos:

Fonte: https://www.revistaprosaversoearte.com/12-poemas-de-natal-escolha-o-seu/?amp=1

Foto: 

https://queridasbibliotecas.blogspot.com/2015/11/joao-cabral-do-nascimento-1897-1978.html?m=1

20.11.21

Campo Maior @ Histórias e Contos - O velho sobreiro

Miluem

O velho sobreiro

 

Passava um dia perto do Rossio

Entre a igreja de São Domingos e a Ginjinha

Quando em meu corpo senti um arrepio

Que mesmo das entranhas da minha alma vinha

 

Foi uma graça de Deus a emoção que senti

Quando de repente o meu olhar pousava

No velho sobreiro ali, mesmo ali

Nesse momento senti que no Alentejo estava

 

Mas ai que para meu espanto Lisboa passa

De canastra à cabeça e chinela no pé

Bandeando a anca que enchia de graça

Benzendo seu rosto num gesto de fé

 

No velho sobreiro pousavam pardais

Trinando cantigas ao som do pregão

A varina corria em direcção ao cais

E o sino da igreja fazia dlão, dlão

 

Dlão, dlão…

 

E eu, camponesa, olhava com espanto

Toda esta visão, todo este bulício

Minha alma poeta se enchia de encanto

E as pessoas passavam sem darem por isso

 

Com vida apressada, perdeu-se o encanto

A vida é vivida em função do dinheiro

As pequenas coisas já não causam espanto

E Lisboa já chora abraçada ao sobreiro

 

Mas Deus, Deus que é amor deu o dom ao poeta

Para ver a vida com outra visão

Com outro sentir, que o faz estar alerta

Para as pequenas coisas que tão belas são.

 

 

Créditos:

nome: Rosa Dias

ano nascimento: 1947

concelho: Campo Maior, distrito: Portalegre

data de recolha: Julho 2012

https://www.memoriamedia.net/index.php/campo-maior/72-expressoes-orais/campo-maior/rosa-dias/2511-o-velho-sobreiro