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As coisas que eu gosto! E as outras...

Este é o meu espaço, nele partilho as minhas fotos amadoras, as coisas que aprendi e vou aprendendo.

As coisas que eu gosto! E as outras...

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17
Nov19

Maceira, Leiria @ Lendas de Portugal - Lenda de Nossa Senhora da Maceira

Miluem

maceira

 

Lenda de Nossa Senhora da Maceira

 

De tempos recuados terá nascido a ‘Lenda de Nossa Senhora da Maceira’, romance em quadras simples e belas, impregnado de mística religiosa e de maravilhoso popular, muito comuns no Cancioneiro Popular Português.

 

Note-se a temática muito ao gosto do Povo, com personagens que encontramos repetidamente na história religiosa popular:

 

Nossa Senhora, crianças pastoras e elementos da Natureza.

 

Ao subir daquele ribeiro
que descai na Fonte Fria
uma pastora mocinha
com seu pai, além, vivia.


O rebanho ia pastar
mal o dia se rompia;
e à hora do sol-posto
o seu gado recolhia.


Ao voltar ela para casa
à tardinha desse dia,
no regaço do avental
maçãs frescas escondia.


Nem maçãs, nem outra fruta
nesse tempo ali havia:
era tudo mata agreste
ao redor donde vivia.


- «Que maçãs são essas, filha,
que ninguém ora as teria?»
-«A Senhora é que m’ as deu,
e outras mais, se eu as queria…


Ela vem todas as tardes
mesmo ao pé da Fonte Fria:
fala e reza ali comigo,
é a minha companhia».


- «Minha filha, um tal milagre
Nem por sombra acontecia!
Não será obra do demo
que a tua alma turbaria?»


Estava o pai embaraçado
com aquilo qu’ ele ouvia;
e ali mesmo fez sentido
de ir lá ver o que seria.


Foi-se pôr, zeloso que era,
à sucapa, de vigia;
e, daquilo que observou,
viu que a filha não mentia.


Viu a imagem da Senhora,
que de branco se vestia,
a estender a mão p’rà filha
com maçãs que l’ oferecia.


Via o pai a santa imagem,
mas ouvi-la, nã n’ ouvia;
ora a filha, inocentinha,
a Senhora em carne via.


- «Venham ver este milagre,
venham todos à porfia;
apareceu além na Fonte
a Senhora Santa Maria!


‘Stendeu a mão à ‘nha filha,
maçãs traz, maçãs confia:
é a Senhora da Maceira
que nos pede primazia!»


Ajuntou-se então o povo
e no alto um nicho erguia;
foi buscar a santa imagem
e, lá dentro, a metia.


Mas a Senhora, saudosa,
para a Fonte se fugia,
a falar à pastorinha
e a fazer-le companhia.


Já tornavam a buscá-la,
assubindo a rampa esguia,
já tornava Ela para a Fonte
e lá estava ao outro dia.


Torna o Povo a juntar-se,
tendo à frente a fidalguia;
e alevanta-l’ uma ermida
onde o nicho então havia.


Em luzida procissão
lá vão pôr a imagem pia:
a Senhora, ao ver tal fé,
quis a nova moradia.


Como prova do milagre
lá ficou a Fonte Fria;
e a Senhora da Maceira
deu o nome à freguesia!

 

Fonte: http://freguesiademaceira.pt

 

17
Nov19

Por acaso conhece a Leirosa e a sua praia e gentes?

Miluem

 

Quando se fala em Leirosa muitos associam o nome ao cheiro pouco agradável, que chega à EN109.

 

 

A Leirosa fica antes da Praia da Costa de Lavos e da Gala em direcção à Figueira da Foz.

 

 

O cheiro é provocado pelo fumo que sai permanentemente das chaminés de uma fábrica de papel.

 

 

A fábrica trouxe trabalho para as gentes da Leirosa e arredores, mas mudou para sempre uma terra de pescadores, onde se continua a pescar da forma tradicional, a Arte Xávega.

 

 

De Verão é uma praia muito frequentada, tem um areal a perder de vista, mas eu gosto mais de fazer visitas quando há pouca gente.

 

 

A Leirosa (à semelhança da Praia da Vieira de Leiria, do Pedrogão, da Figueira da Foz e de outras pela Costa fora) foram a zona de entrada do Furacão Leslie a 13 de Outubro de 2018, as zonas do Pinhal do Rei e de pinhal quase até à Leirosa já tinham sido devastadas em outubro de 2017 por um incêndio monstruoso.

 

Vê-se que a destruição foi imensa, ainda há casas para reconstruir na frente de praia.

 

 

No dia em que lá fui, um grupo de jovens voluntários tinha andado a plantar novas árvores dentro da localidade.

 

 

Falei com uma senhora que me disse: (Texto de memória)

 

- A minha Terra era linda e alegre. A fábrica não era nem metade do que está agora. (da praia perto da Igreja vê-se a fabrica ao longe)


Quando veio o furacão pensei que morríamos todos, nunca vi nada assim na minha vida, nem as pessoas antigas tinham visto, todos pensámos ser o fim do mundo.

 

Se o mar não estivesse mais calmo do que está hoje, tínhamos morrido todos.

 

Ficou tudo destruído, o parque de merendas, tudo...

 

 

16
Nov19

Lenda do Cavaleiro de Negro @ Lendas de Portugal

Miluem

Retrato do Rei D. Sebastião - Pintor: Cristóvão de Morais - Museu Nacional de Arte Antiga

Fonte: Wikipédia

 

Lenda do Cavaleiro de Negro

 


D. Sebastião, rei de Portugal, desejoso por combater em África, procurou apoio junto do seu tio, D. Filipe II de Espanha. Nesse sentido, escolheu D. Pedro de Alcáçova como seu embaixador para tal missão.

 

Sentindo-se honrado com a preferência, D. Pedro aproveitou a ocasião para falar ao rei sobre um facto insólito: havia já alguns dias que um jovem cavaleiro, vestido de negro e com uma expressão sofredora, rondava o palácio, pedindo uma audiência com o rei. Sem quaisquer credenciais, o jovem cavaleiro de negro tinha como único traço identificador uma miniatura do escudo do próprio rei.

 

Curioso, D. Sebastião ordenou que o trouxessem à sua presença, perguntou-lhe a idade e a razão da sua vinda.

 

O cavaleiro de negro dizia ter 18 anos, ser órfão e ter sido criado por uma serva que o levou para Fez, de onde tinha saído há cinco anos para ir viver nas Beiras. Mas a razão que o levava à presença do rei era que, tendo aprendido com a serva, em terras árabes, a ler o futuro, tinha previsto maus presságios para D. Sebastião, se este teimasse em prosseguir os seus desejos de combater no Norte de África: desapareceria como fumo e o seu povo chorá-lo-ia por muitos anos.

 

O cavaleiro, que tinha como único desejo salvar o rei, resolveu então revelar-lhe a sua verdadeira identidade: o seu traje masculino escondia um corpo de mulher. Irritado, D. Sebastião mandou-a embora dizendo-lhe que nunca mais a queria ver. A jovem respondeu-lhe que o rei ainda a iria ver muitas vezes e que aquelas visões não eram mensagens de amor, mas presságios de morte. Adiantou-lhe ainda que, em breve, cairiam sobre a cidade de Lisboa três agouros de morte.

 

Algum tempo depois, um violento incêndio deflagrou na Rua do Príncipe fazendo inúmeras vítimas, em seguida fortes chuvas inundaram o centro da cidade, e, por fim, a peste abateu-se sobre os lisboetas. Mas nem mesmo esses acontecimentos demoveram D. Sebastião, que avançou para Alcácer Quibir.

 

Estava o rei no acampamento militar, juntamente com os seus fidalgos, quando avistou um cavaleiro negro montado num cavalo branco cujas patas se tinham embaraçado nas cordas que sustentavam a tenda do rei, mas que, logo que se libertou, desapareceu no horizonte. D. Sebastião nem quis ouvir os fidalgos, que o avisavam de que se tratava de mais um presságio, nem aceitou modificar os planos de batalha e avançou para o seu destino fatal.

 

Em plena batalha, estavam os Portugueses a sofrer muitas baixas, prevendo-se uma pesada derrota, quando apareceu o cavaleiro de negro no meio dos soldados. Conta a lenda que D. Sebastião, alucinado, seguiu o cavaleiro, desaparecendo para sempre.

 

Conhecido pelo cognome o Desejado, D. Sebastião, simbolicamente, é ainda hoje esperado pelo povo português, que crê que este regressará numa manhã de nevoeiro.

 

Como referenciar: Lenda do Cavaleiro de Negro in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-11-06 11:18:07]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$lenda-do-cavaleiro-de-negro

 

14
Nov19

Valongo @ Lendas de Portugal - Lenda de Valongo e Susão

Miluem

Foto: https://radioregional.pt

 

 

Lenda de Valongo e Susão

 


Os nomes de Valongo e Susão têm origem nesta lenda que remonta à época em que alguns cristãos perseguidos no Oriente se refugiaram em Cale, foz do rio Douro.

 

Entre eles estava o rico negociante judeu Samuel, recém-convertido ao Cristianismo, e a sua filha Susana. Pensavam os fugitivos estarem já livres de perseguições quando foram obrigados a defender-se dos árabes que dominavam a região.

 

Com astúcia, prepararam uma armadilha e capturaram o jovem Domus de cujo resgate esperavam obter a paz. Enquanto decorriam as negociações, Domus e Susana apaixonaram-se e o mouro pediu para ser batizado e casar com a jovem.

 

No entanto, o acordo com os muçulmanos foi impossível e decidiram fugir todos, deixando Portucale (Porto) em direção ao Oriente. Chegados ao topo da Serra de Santa Justa, depararam com uma paisagem lindíssima de um extenso vale.

 

Desceram e decidiram ficar lá para sempre, edificando as primeiras casas de uma povoação que se veio a chamar Susão, em memória da bela Susana.

 

O vale longo que Susana tinha achado belo ficou conhecido como Valongo.

 

 

Como referenciar: Lenda de Valongo e Susão in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-11-06 11:21:38]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$lenda-de-valongo-e-susao

 

13
Nov19

Lenda das Obras de Santa Engrácia @ Lendas de Portugal

Miluem

Imagem: https://observador.pt

 

 

Lenda das Obras de Santa Engrácia

 

 

 

Diz a lenda que Simão Pires, um cristão-novo, cavalgava todos os dias até ao convento de Santa Clara para se encontrar às escondidas com Violante.


A jovem tinha sido feita noviça à força, porque o seu pai não estava de acordo com o amor de ambos.

 

Um dia, Simão pediu à sua amada para fugir com ele.

 

Na data combinada, no entanto, foi acordado pelos homens do rei, que o vinham prender acusando-o do roubo das relíquias da igreja de Santa Engrácia, situada muito perto do convento.


Para não comprometer Violante, Simão não quis revelar a razão porque havia sido visto no local.

 

Apesar de invocar repetidamente a sua inocência, Simão foi preso e condenado à morte na fogueira.

 

A cerimónia da execução teve lugar junto da nova igreja de Santa Engrácia, cujas obras já haviam começado.

 

Quando as labaredas envolveram o corpo de Simão, este gritou que era tão certo morrer inocente como aquelas obras nunca mais acabarem.

 

Certo é que as obras da igreja iniciadas à época da execução de Simão pareciam nunca mais terminar.

 

De tal forma, que o povo se habituou a comparar tudo aquilo que parece não ter fim às obras de Santa Engrácia.

 

 

Como referenciar: Lenda das Obras de Santa Engrácia in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-11-04 21:36:55]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$lenda-das-obras-de-santa-engracia

 

12
Nov19

Alenquer @ Lendas de Portugal - Alão quer - conquista de Alenquer aos mouros

Miluem

 

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Lendas Segundo Guilherme João Carlos Henriques


Alão quer - conquista de Alenquer aos mouros

    

Conta a tradição que na manhã do dia em que teve logar o combate final, indo o rei christão com seu sequito banhar-se no rio e fazer suas correrias, notaram que um cão grande e pardo que vigiava as muralhas e que se chamava «Alão», calou-se e lhes fez muitas festas.

 

El rei tomando isso por bom presagio mandou começar o ataque dizendo «Alão quer», palavras que serviram de futuro appellido á villa.

 

A batalha foi sanguinolenta e renhida e os cavalleiros christãos fizeram prodigios de valor.

 

Especialmente no postigo proximo aonde estava a egreja de S. Thiago a lucta foi renhidissima, mas os portuguezes inspirados pela fé que S. Thiago em pessoa pelejava na sua frente, venceram todos os obstaculos e tomaram a praça.


    
Há uma segunda tradição que diz que o cão «Alão» era encarregado de levar as chaves na boca todas as noites pela muralha fora até à casa do governador e os christãos aproveitando os instinctos do animal prenderam uma cadella debaixo de uma oliveira à vista do cão que subjugado por sentimentos amorosos galgou os muros, entregando assim as chaves aos portuguezes.

 

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Se estas tradições tem fundamento não sabemos, mas são muito antigas e é certo que as armas da villa são um cão pardo preso a uma oliveira o que parece confirmar a tradição.

 

http://www.cm-alenquer.pt/CustomPages/ShowPage.aspx?pageid=c9aa5396-4e0f-4401-b5f4-f4648c57298c

Nota:

Os brasões de Alenquer que encontrei são de um cão à frente de um castelo com a parte central do brasão guarnecida de rosas.

11
Nov19

Lenda de S. Martinho

Miluem

Imagem: https://paroquiadesaojudastadeu.org.br

 

 

Lenda de S. Martinho

 


Segundo reza a lenda, num dia frio e tempestuoso de outono, um soldado romano, de nome Martinho, percorria o seu caminho montado a cavalo, quando deparou com um mendigo cheio de fome e frio.

 

O soldado, conhecido pela sua generosidade, tirou a capa que envergava e com a espada cortou-a ao meio, cobrindo o mendigo com uma das partes. Mais adiante, encontrou outro pobre homem cheio de frio e ofereceu-lhe a outra metade.

 

Sem capa, Martinho continuou a sua viagem ao frio e ao vento quando, de repente e como por milagre, o céu se abriu, afastando a tempestade. Os raios de sol começaram a aquecer a terra e o bom tempo prolongou-se por cerca de três dias.

 

Desde essa altura, todos os anos, por volta do dia 11 de novembro, surgem esses dias de calor, a que se passou a chamar "verão de S. Martinho".

 

Como referenciar: Lenda de S. Martinho in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-11-06 11:31:01]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$lenda-de-s.-martinho

 

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São Martinho nasceu na Panónia, na actual Hungria, no ano 316.

 

O pai orientou-o para a carreira militar.

 

Ainda catecúmeno, deu prova de coerência e de amor cristão para com os pobres. Recebido o baptismo, orientado por Santo Hilário de Poitiers, deixou as armas e consagrou-se a Deus na vida monástica.

 

Começou por viver como eremita. Depois, sempre aconselhado por Santo Hilário, fundou em Ligugè o primeiro mosteiro cristão do Ocidente.

 

Em 373 foi escolhido para bispo de Tours.

 

Até à morte, ocorrida em 397, dedicou-se com incansável solicitude à formação do clero, à pacificação entre os povos e à evangelização.

 

Foi um dos primeiros santos, não mártires, a ser honrado pela liturgia da Igreja.

 

Fonte: http://caminhoscarmelitas.com

 

10
Nov19

Ditos e Ditados Populares @ CXXVII

Miluem

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500 provérbios portugueses antigos - Educação moral, mentalidade e linguagem - de Jean Lauand

Estudo e recolha com base no Livro de provérbios de Antonio Delicado

Na Biblioteca Municipal Mário de Andrade (São Paulo-Brasil), encontra-se uma raridade: um exemplar original do livro do lecenciado prior Antonio Delicado, Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs, Lisboa, Officina de Domingos Lopes Rosa, 1651.

 

10
Nov19

Parei para ver Sua Magestade mas ...

Miluem

Parei para ver Sua Magestade, mas encantei-me com os olhos doces do Guarda.

 

 

Ao passar por uma aldeia, num cercado à beira da estrada estava uma cabra com ar magestoso a apreciar o seu reinado do alto do seu trono (uma betoneira).

 

Parámos, ela mirou-nos e com desdém olhou para o outro lado, não éramos dignos da atenção de tamanha realeza.

 

 

Prontamente apresentou-se ao serviço o seu guarda, que ladrou a impor respeito.

 

Perguntei-lhe se era um "nino" lindo, se tomava bem conta das meninas. (e continuei com as minhas conversas parvas do costume)

 

Os olhos dele transformaram-se e a cauda começou a abanar.

 

Ele estava a "falar" comigo, mas com atenção a tudo à sua volta.


Sempre que passava um carro, ia a correr ladrar para defender o espaço.

 

Depois vinha para junto de mim a abanar a cauda, mas sempre numa posição de barrar o acesso ao rebanho.

 

 

09
Nov19

Portimão @ Lendas de Portugal - Lenda da Praia da Rocha

Miluem

 

Foto: Wikipédia

 

 

Lenda da Praia da Rocha

 

 

Uma Sereia chegou um dia ao Algarve, não se sabe bem de onde. Instalou-se à beira-mar, descansando de uma jornada que deve ter sido longa e fatigante.

 

Um Pescador que por ali andava na sua faina viu-a, e admirado com aquela intrusão nos seus domínios, aproximou-se e disse:

 

- Não sei donde vieste, mas devo informar-te de que tudo isto que vês é meu. Foi o Mar que criou este sítio e eu sou filho do Mar!

 

     Sorriu a Sereia de tal maneira que prendeu o Pescador, respondendo-lhe:

 

    - Venho de longe, Pescador, de muito longe. Aportei aqui depois de muito procurar, e tanto sossego achei que quero ficar.

 

   - Como te chamas? Quem és? - quis saber o filho do Mar.

 

   - Não tenho nome, Pescador. Sou apenas o que sou, Sereia.

 

   - Bem-vinda sejas então, Sereia, a este local que já é teu!

 

    Foi então que, de longe, se fez ouvir uma voz agreste e rude:

 

   - Não dês o que não é teu, Pescador! Esta terra é minha, foi a montanha que a criou! Eu sou o filho da Serra e tudo o que vês me pertence!

 

  - Assim sendo, Serrano - sussurrou a sereia - talvez sejas tu o fim da minha jornada.

 

 - Deixa-o falar, Sereia! Que pode ele e a sua Serra contra o poder de meu pai, contra as ondas sem dono!...

 

 - Ah, ah, ah! - riu o serrano - Tenta tu subir à Serra! Que poderão as tuas ondas contra a robustez que herdei da minha mãe. Mais poderoso sou eu, que quando quiser, posso criar montanhas dentro do Mar!

 

 Parecia iminente a luta entre os dois gigantes; procurava o Mar acalmar as suas ondas, que cresciam e engrossavam; toldava-se a Serra, agitando as urzes e os pinheiros. Deleitava-se a Sereia com a violência do amor que neles via crescer, mas disse-lhes:

 

  - Não se zanguem! Eu vou esperar aqui que me tragam provas das vossas forças. Mas agora ide, estou cansada e quero repousar!

 

 

Foto: https://www.dicaseuropa.com.br

 

Lentamente afastaram-se areal fora os dois rivais. Um entrou pelo Mar dentro, o outro subiu à Serra. Iam pensativos, procurando a melhor maneira de convencer a Sereia.

 

Ela, por seu lado, instalou-se como se em casa estivesse e esperou.

 

  Chegou primeiro o Pescador.Trouxe-lhe o Mar e estendeu-o a seus pés, pintando-o verde suave à bordinha, e azul profundo lá ao longe, dizendo:

 

- Tudo isto é o meu Mar, e é teu, Sereia!

 

E a Sereia ficou a olhar o mar, deleitando-se com o seu ondular. Subitamente, ouviu o Serrano:

 

    - Sereia, aqui estou: dar-te-ei um trono de pedra lá no alto do mundo. Já pedi ao vento que te embalasse o sono, ao sol que te aquecesse os dias, e às fontes que te refrescassem as horas. Vem comigo e serás a rainha da Serra.

 

   - Chegaste tarde, Serrano! Já me sinto a rainha do Mar - respondeu a Sereia.

 

   Enfurecida por ser rejeitada, a Serra fez rolar enormes rochedos até ao Mar, rodeando a Sereia: se esta não subia à Serra, descia a Serra ao Mar.

 

  O Mar zangou-se, e durante noites e dias, dias e noites, atirou-se contra as rochas, mas não conseguiu desfazê-las.

 

 E assim continuaram até que a Sereia, não sendo capaz de se decidir, transformou-se numa areia tão fina como não há outra igual, recebendo o tributo eterno dos dois eternos gigantes enamorados, umas vezes rivais, outras inimigos, outras ainda grandes amigos. O lugar tem hoje o nome de Praia da Rocha.

 

http://blogdeportimao.blogspot.com

 

07
Nov19

Marinha Grande @ Lendas de Portugal - Lenda das Camarinhas

Miluem

http://pinhaldorei.net/fauna-flora-do-pinhal-do-rei/vegetacao-autoctone/

 

 

Lenda das Camarinhas

 


Se D. Dinis foi grande poeta e amante da cultura, também possuía um espírito folgazão a que se lhe juntava e amalgamava um sentido apaixonado pela beleza, fosse ela da Natureza: as paisagens, o mar, o céu e as nuvens, ou… uma beleza feminina, fosse loira ou trigueira, mas sempre sem eflúvio que o embebedasse. E assim o Rei se perdia. E assim deixava passar as doces tardes nos ardorosos favores duma linda burguesa ou duma simples mas graciosa camponesa.


Sabedora das virtudes e dos pecados do marido, a Rainha Santa, que apesar de Rainha e Santa não deixava de ser mulher e ciosa das suas crenças, sentia a par dum normal ciúme, um particular estímulo de defesa. Quando o rei não chegava à hora acostumada, por mais esforço que fizesse para se não notar, ficava inquieta, pensativa e nervosa. El-Rei não mudava. Por mais que lhe prometesse, voltava sempre ao mesmo. Ela, a Rainha Santa, bem entendia aqueles olhares indiscretos e de pena que as aias deixavam subentender. El-Rei, novamente perdido por alguma camponesa mais fresca e ladina.


Ficara para trás o idílio com a camponesa da pequenina aldeia a que, devido ao desvaria de El-Rei, o povo apodara de Amor. Aos primeiros indícios notados, a Rainha tentou não ligar, mas a distância com que presenciava o ciciar das aias fê-la entender que o caso era mais sério. Então recordava Amor: quando sabedora de que o idílio perdurava, resolveu, com o seu pequeno séquito, ir em demanda da alcova do amor. Saindo ao começo da noite, ordenou que se prendessem pelo caminho archotes de resina e pez a arder, para que o Rei encontrasse a luz, ou seja, o remoque dum caminho iluminado a quem, num estado de cegueira, não via o desvario que o tomava.

 

https://dias-com-arvores.blogspot.com/2014/09/camarinha-de-outras-praias.html

 

El-Rei, na sua alcova alertado, pôs-se a caminho do Paço, vindo a encontrar a Rainha, no sítio onde o povo ficou a chamar de Cegodim, porque D.Dinis, ao encontrar a Rainha com todo aquele aparato de luminosidade, lhe disse: - Senhora minha! Vindes com tamanha luz!… E eu que tão cego vim!


De “Cego Vim”, a voz do povo, pelo tempo fora, transmudou em Segodim, sendo com este nome que o lugar hoje se denomina.


No dia seguinte, a Rainha, que pressentia novos e sérios pecados de El-Rei, partia em busca do local de novo idílio, tentando surpreender El-Rei consumando o pecado. A meio da tarde Isabel chegara ao local que as aias lhe indicaram. Mandou parar o pequeno séquito e, sozinha, com o coração destroçado, encaminhou-se para junto do rochedo, entre Pinhal e mar, até dar com D.Dinis em flagrante delito amoroso. Ao vê-la, D. Dinis abriu os olhos espantados… Enquanto, dos belos olhos da Rainha Santa, as lágrimas abriam, cristalinas, pelo rosto abaixo, perdendo-se sobre o mato em verdadeiro aljôfar, branco, tão branco, que logo todo aquele mato, à orla do Pinhal se alindou.

 

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Foto: Por Júlio Reis (User: Tintazul) - Wikipédia


E assim se fez a lenda das camarinhas. Desde esse dia que esses pequenos arbustos, as camarinheiras, florescem em homenagem às lágrimas santas da Rainha, por essa época do ano, em Setembro, cobrindo-se de pequenos frutos brancos, agridoces, pelo imenso Pinhal do Rei, mais intensamente à orla da beira-mar.

 

www.cm-mgrande.pt

Percurso interpretativo de Lendas da Marinha Grande

Nesta página apresentamos a versão completa de algumas das lendas mais conhecidas da história da Marinha Grande e das suas praias, integrantes do Percurso Interpretativo das Lendas, inaugurado no dia 27 de setembro de 2019, ao longo do percurso da ciclovia de São Pedro de Moel. Acompanhe-nos enquanto lhe mostramos os excertos completos dos livros de José Martins Saraiva, onde as lendas são descritas pormenorizadamente.

 

06
Nov19

Leiria @ Lendas de Portugal - Amor e Segodim

Miluem

Foto: www.cm-leiria.pt

 

 

Amor e Segodim

 

Era uma vez… fazia o Senhor Rei D. Dinis e sua Santa Mulher, a Rainha Isabel, uma mais demorada pousada em Leiria, talvez para descansar dos muitos que é ligado fazeres do seu alto cargo.

    

Um dia o Rei passeando no seu fogoso corcel, galopou, galopou, campos em fora, e, lá longe, num pequeno lugar vê uma camponesa formosa como nenhuma outra se vira ainda em muitas léguas ao derredor.

 

Apaixonou-se o Rei pela camponesa e ali, naquele lugar, no meio do campo florido de papoilas e malmequeres, nasceu naquele dia um grande amor.

 

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Foto: www.jf-amor.pt

 

As visitas do Rei ao seu novo amor continuaram e tomaram-se conhecidas nas redondezas, e, àquele lugar começaram a chamar Amor.

Também a Rainha soube dos novos amores de seu marido e Rei, e, para lhe mostrar a sua reprovação sem o melindrar, mandou uma noite alumiar o caminho por onde o Rei, seu esposo, deveria regressar a Leiria.

 

D. Dinis, ao dar com as veredas, por onde voltava, com grande alumiação de muitos fogachos, viu estar ali uma muda intenção crítica da Rainha, sua legítima mulher, e exclamou:

 

“Até aqui cego vim”.

 

E ao sítio onde começavam as luminárias passou a chamar-se Cegovim, que, por uma natural corruptela popular se chama hoje Segodim.

 

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http://ufmonterealcarvide.pt   = União de Freguesias de Monte Real e Carvide

 

 

Fonte Biblio CABRAL, João Anais do Município de Leiria, Vol. III Leiria, Câmara Municipal de Leiria, 1993 , p.229-230

Place of collection -, LEIRIA, LEIRIA

 

Nota: Há quem diga  Segodim também teve o nome de Cegovindes.

 

05
Nov19

A lenda da Prímula ou Primavera

Miluem

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Foto: Pixibay

 

 

A lenda da Prímula ou Primavera

 

 

A Primavera é anunciadora de renascer e com ela assistimos, com efeito, a um recomeço do ciclo natural das estações. A Natureza acorda da letargia a que a submeteu o Inverno, maravilhando-nos com uma profusão de cores – as das flores.

 

De entre essas flores, distingue-se a prímula. O nome botâninco desta flor vem da palavra latina primula, que significa "a primeira" e indica que esta planta é uma das primeiras a florir na Primavera em certas regiões mais frias. Mas também se lhe chama "primavera", nome que vem do Latim primo vera e que significa "no princípio da Primavera".

 

Existem várias lendas associadas a esta flor, mas a que vos vou contar refere-se sobretudo a uma variedade espontânea, de cor amarela, cuja forma como as flores se apresentam dispostas na planta faz lembrar um molho de chaves.

 

Segundo a lenda, São Pedro – o guardião da porta do céu – estava um dia muito sossegado a fazer a sua sesta, quando ouviu um barulho vindo da porta das traseiras. Alguém estava a tentar entrar no céu por essa porta, em vez de usar a porta da frente, da qual ele tinha as chaves.

 

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Ainda um pouco estremunhado, São Pedro levantou-se e foi ver o que se passava. Mas estava de tal modo ensonado, que o molho de chaves lhe caíu das mãos e foi parar à terra. Então – ó milagre – o molho de chaves criou raíz e daí surgiu uma linda planta com flores amarelas.

 

Como se estava na Primavera e essas foram as primeiras flores a aparecer, ficaram a chamar-se primaveras ou prímulas. Como se diz que nasceram do molho de chaves de São Pedro, em alguns países existem variantes do nome: na Alemanha chamam-se também “pequenas chaves do céu"; na Inglaterra são conhecidas por "flor das chaves" e também por "planta de Pedro"; na mitologia nórdica, a flor era dedicada à deusa Freya, a Virgem das Chaves, mas quando esses países do norte da Europa se tornaram cristãos, o culto foi transferido para Nossa Senhora e a planta passou a chamar-se "Chaves de Nossa Senhora" e também "Chaves do Céu".

 

As flores e as folhas da primavera são comestíveis, tanto frescas como cozidas, e antigamente as folhas utilizavam-se sobretudo para fazer chá e vinho. Todas as partes desta planta têm propriedades sedativas.

 

© Dulce Rodrigues

Texto: http://www.dulcerodrigues.info/lendas/pt/lendas_primavera_pt.html

05
Nov19

Lenda do Gerânio ou Sardinheira

Miluem

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Lenda do Gerânio ou Sardinheira

 

Conta-se que, um dia, Maomé foi para a montanha rezar e que, no regresso ao acampamento, poisou a camisa molhada de suor em cima de um gerânio que crescia ao lada da sua tenda. Então – ó milagre – a flor elevou os ramos para o céu e conservou-os assim até que a camisa estivesse completamente seca.

 

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Segundo reza ainda a lenda, na época em que isto se passou a flor do gerânio era um pouco diferente da que conhecemos hoje, pois foi Maomé que a cobriu de belas flores escarlates e aveludadas que enchem o ar com a sua doce fragância. O profeta ficou de tal modo contente com o serviço que a planta lhe prestou ao segurar a sua camisa para a fazer secar, que quis acordar-lhe esta benção.

 

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O nome desta planta, gerânio, vem da palavra grega "geranos" – que mais tarde deu "geranium" em latim – e que significa grou, por causa da forma dos seus frutos que fazem lembrar um bico de grou. Os Europeus só começaram a cultivar esta planta no século XV quando os navios dos navegadores portugueses a trouxeram da sua terra natal, a África do Sul.

 

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O gerânio é uma planta bastante útil no jardim, especialmente durante o tempo quente, pois afasta os indesejáveis mosquitos e moscas, verdadeiras pragas dos belos dias de Verão. Dizem também que os gerânios brancos mantêm as cobras a distância. Em países com clima ameno como Portugal, os gerânios são vivazes; mas em países com climas mais frios, estas flores morrem no Inverno.

 

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Existe todo um simbolismo variado relativamente ao gerânio : amizade verdadeira, estupidez, loucura, encontro...

 

© Dulce Rodrigues


Texto:
http://www.dulcerodrigues.info/lendas/pt/lendas_sardinheira_pt.html

 

 

04
Nov19

Aveiro @ Lendas de Portugal - A Lenda do Barco Moliceiro da Ria de Aveiro

Miluem

Foto: Pintrest.br

 

 

A Lenda do Barco Moliceiro da Ria de Aveiro

 

 

 

"...Há muitos, muitos anos - nem a velhinha que me contou, quando eu era menina, sabia quantos, - um pescador da Ria de Aveiro ouviu uma mulher a cantar e logo se apaixonou por ela só pela beleza da sua voz.

 

Chamava-se Ramiro e era órfão de pai e mãe, tendo sido criado pela madrinha, uma solteirona bastante feia, baixa e gorda, de forte buço, que nunca encontrara quem gostasse dela para casar, embora tivesse um coração de pomba, terno e doce.

 

Ramiro vogava pelas águas espelhadas da Ria e foi guiando o barco para o sítio de onde vinha aquele doce cantar, deparando com uma jovem que se banhava, como se estivesse de pé, pois só se lhe via o corpo da cintura para cima, sem qualquer peça de roupa. Ela não fugiu nem parou de cantar, enquanto o pescador se aproximava. Ao vê-lo junto a si, sorriu-lhe e estendeu-lhe a mão, que Ramiro agarrou entre as suas, ao mesmo tempo que o coração acelerava os seus batimentos.

 

Era bela como uma princesa, com longa cabeleira de algas caindo-lhe pelas costas e torneando-lhe os peitos fartos e erectos. A sedosa pele era da alvura da areia da praia e os olhos tinham a cor verde do mar sem fundo. Os braços, compridos e esguios, terminavam em mãos de dedos finos, que iam movendo a água em seu redor, em gestos serenos e calmos, como se a afagasse.

 

Conversaram longamente e então ele disse-lhe:

 

- Amo-te e quero casar-me contigo!

 

A jovem sorriu e respondeu:

 

- Seria para mim uma grande felicidade casar-me contigo, pois nunca vi um homem mais belo e mais forte do que tu, mas, infelizmente, não pode ser. Eu não sou uma mulher, mas uma sereia.

 

Soltou a mão que o pescador tinha agarrada e deitando-se de costas na água, mostrou-lhe como a parte inferior do seu corpo tinha a forma de peixe, com cauda e escamas douradas, rebrilhando ao Sol.

 

- Sou a filha mais nova do Rei dos Mares e estou destinada a um Tritão, que me fará infeliz, porque não lhe tenho amor - continuou, começando a chorar e as lágrimas eram pérolas pequeninas, que ficavam a boiar, à sua volta.

 

- Não me importo que não sejas mulher - retorquiu ele. - Casa comigo e construirei para nós uma casa, metade em terra, para mim, e metade na Ria, para ti.

 

- Isso não pode ser! - insistiu ela. - O Tritão matava-me, porque é muito mau e feroz. Se eu pudesse transformar-me em mulher, então, sim, poderia casar contigo, mas nós sabemos que tal nunca será possível.

 

Estava muito triste agora a bela sereia. Atirou-lhe um beijo na ponta dos dedos, mergulhou e desapareceu.

 

 

Foto: https://mood.sapo.pt/grande-regata-dos-moliceiros-regressa-a-aveiro

 

 

Ramiro, antes de lançar a rede para pescar, ia todos os dias ao local onde tinha visto a sua amada, mas ela não tornou a aparecer. Assim, na sua faina diária, ora suspirava, ora cantava umas trovas tristes, que ele compunha na altura. Era o peixe que lhe dava o sustento para si e para a madrinha. Por vezes, ao cair do Sol, quando puxava a rede, julgava ver reflectida na água o rosto querido da bela sereia.

 

A madrinha, conhecedora daquele sofrimento e querendo-lhe como se seu filho fora, disse-lhe um dia:

 

- Devias ir à ti Bárb'ra, que é mulher de ciência. Talvez ela saiba uma maneira de transformar a tua sereia em mulher. Eu gostava muito de te ver feliz...

 

- Vou, sim, madrinha - respondeu o rapaz. - Por ela eu farei tudo!

 

- Então, tens de ir sozinho e de noite, que ela só tem poderes depois de se pôr o Sol.

 

Assim, ao morrer a tarde de um certo dia, ele meteu pés ao caminho, andando muito tempo sobre as dunas, até chegar a uma choupana sobranceira ao mar. O vento forte empurrava-o para trás e ele fazia um esforço redobrado para continuar a caminhar; terríveis relâmpagos cortavam o céu no escuro da noite, obrigando-o a fechar os olhos para não ficar cego; tenebrosos trovões faziam tremer a terra e a chuva era tanta, que lhe parecia que os próprios ossos estavam encharcados. Cheio de coragem, indiferente à adversidade da Natureza, bateu à porta da choupana, gritando:

 

- Ti Bárb'ra! Ó ti Bárb'ra!

 

Daí a pouco a porta abriu-se e Ramiro viu uma velha toda vestida de negro e com uma vela na mão, cuja chama tremulava com a ventania cá de fora.

 

- Entra, filho! - disse ela, com uma voz que lembrava uma gaita desafinada. - Eu sabia que vinhas.

 

Apesar de valente como poucos lá da terra, Ramiro hesitou por um instante, perante aquela figura sinistra, que mais parecia já não ser deste mundo, de faces cor de terra, um lenço preto à volta da cabeça, de onde caíam umas farripas de cabelo completamente branco, nariz afilado como uma faca, curvo como o bico do mocho, e uns olhos pequeninos, encovados, escondidos num montão de pregas da pela toda engelhada.

 

- Entra, filho! Não tenhas medo! - insistiu a velha.

 

Lá dentro havia uma fogueira e uma panela de barro sobre uma trempe, de onde saía um vapor que se desfazia no ar. As paredes de madeira davam a impressão de estar dançando com o reflexo das labaredas. Ao fim de algum tempo, começou a perceber que havia uma mesa no meio da choupana e que três gatos pretos dormiam ao pé do lume, aquecendo-se no braseiro.

 

- Ti Bárb'ra, eu venho cá por causa de - começou Ramiro.

 

- Não precisas de contar, meu filho, que eu sei tudo! Senta-te aqui à mesa!

 

Lá fora, o temporal continuava. A chuva e o vento faziam abanar a cabana, como se a quisessem derrubar. Sentaram-se à mesa, em bancos de madeira, um de cada lado, de modo que ficaram frente a frente.

 

Ramiro viu então uma caveira sobre a mesa e teve um sobressalto.

 

- Não te assustes, meu filho! - tornou a velha. - É nisto que se transformam as belezas do mundo, os bons e os malvados, os ricos e os pobres. Eu sei que gostarias de ver a tua sereia transformada em mulher. Vou-te dizer o que tens de fazer. Não é difícil, mas desde já te aviso: o que vais fazer só pode ser feito uma vez; se correr bem, a tua amada sairá das profundezas das águas em forma de mulher e assim permanecerá para sempre; se correr mal, nunca mais a verás, nem mesmo sob a forma de sereia.

 

- Estou disposto a tentar seja o que for - assegurou Ramiro.

 

Então, a velha explicou tudo, tim-tim por tim-tim:

 

- Primeiro, vais construir uma casa de madeira, na duna, no sítio que chamam Costa Nova, pintando-a às riscas da cor que mais gostares, alternando com branco, por causa do mau-olhado; depois, vais pescar a Lua Cheia.

 

- Pescar a Lua Cheia? - perguntou ele, incrédulo.

 

- Foi isso mesmo que eu disse - continuou a velha. - Metes-te no barco numa noite de Lua Cheia, vais vogando até onde vires o astro reflectido na água. Aí, paras e lançando a rede, puxa-la devagar, de modo que traga a Lua inteira lá dentro. Então, só tens que ir até à casa nova e atirar a rede para o seu interior e logo verás a mulher que foi sereia a sair da água e a entrar em casa. Pode parecer que é tudo fácil, assim, mas o grande problema é que nem a Lua te pode ver nem pode haver o menor ruído até que chegues a casa com a Lua dentro da rede.

 

Não te esqueças! Ao mais pequeno barulho, estará tudo perdido. Ah! ainda uma outra coisa: não podes contar isto a ninguém, nem mesmo à tua madrinha. Para te não esqueceres de nada, repete lá tudo até haveres decorado todos os passos a seguir!

 

 

Foto: https://mood.sapo.pt/grande-regata-dos-moliceiros-regressa-a-aveiro

 

 

Três meses levou a fazer a casa e a preparar o moliceiro, pondo na parte superior da proa um acrescento em forma de quarto crescente, o qual, cobrindo-o, não deixaria que a Lua o visse. Numa noite de Lua Cheia, meteu-se no barco, foi até onde se via a Lua toda reflectida na água, atirou com cuidado a rede em toda a sua volta e foi puxando, vendo com satisfação que a bola branca vinha dentro dela. Seguiu então na direcção da casa que fizera, aproou na areia e saltou para terra, sempre com a rede fechada na mão e a bola luminosa lá dentro aprisionada. Foi então que o silêncio foi quebrado, porque uma gaivota que dormia na praia ia sendo pisada por Ramiro e levantou voo a grasnar, cheia de medo. Quando o grito da ave atravessou o silêncio da noite, a bola branca desapareceu de dentro da rede e tudo ficou perdido.

 

O pescador tornou ao barco, navegou até umas covas que havia do outro lado da ria, saltou em terra, deitou-se no chão e chorou mil dias e mil noites sem parar.

 

As lágrimas foram tantas, que encheram as covas e o Sol, secando a água, deixou-as cheias de sal.

 

Tudo isto se passou há muitos, muitos anos, mas ainda hoje se podem ver as salinas, que são o sal das lágrimas que Ramiro chorou, tal como muitas casas que depois fizeram na Costa Nova e, porque gostaram da que ele tinha feito, lhe seguiram a traça. O moliceiro, esse, continua a apresentar aquela proa em forma de quarto crescente..."

 

http://www.aveiro.com.pt