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As coisas de que eu gosto! e as outras...

Bem Vind' ao meu espaço! Sou uma colectora de momentos e saberes.

As coisas de que eu gosto! e as outras...

21.06.21

Algoso, Vimioso @ Lendas de Portugal - A Moura de Algoso

Miluem

 

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A Moura de Algoso

 

Algoso é uma pequena aldeia perdida nas serranias transmontanas.

 

Diz uma lenda, que ainda  subsiste, que no tempo dos Mouros existia nos arredores um bruxo famoso, conhecedor de mezinhas milagrosas e sabedor do passado e do futuro.

 

Vivia num casebre um pouco afastado da povoação, mas nem a pobreza da sua casa, nem a distância, obstavam a que ali acorressem quantos acreditavam nas suas capacidades mágicas ou videntes.

 

Na verdade, todos ali acudiam em busca de cura para os seus males, pedindo filtros de amor ou indagando sobre o que lhes reservaria o futuro.

 

Em certos dias era uma autêntica romaria. E com tudo isto o bruxo criou fama e proveito de homem rico, apesar de continuar a viver no pobre casebre tentando fazer-se passar por miserável.

 

Entretanto, os cristãos iam avançando na reconquista de território ainda sobre a dependência dos Mouros e estavam a aproximar-se rapidamente de Algoso.

 

Sabendo disto o bruxo, calculou que a ocupação cristã não viesse a ser muito demorada e decidiu esconder os seus tesouros, para recuperá-los mais tarde, quando pudesse voltar ao seu oficio.

 

Assim pensando, escolheu o que podia carregar consigo, e o restante meteu-o num cofre de marfim chapeado a cobre. Feito isto, e como precisava de encontrar um bom esconderijo para a sua fortuna, partiu com o cofre debaixo do braço em demanda do melhor local.

 

Depois de muito procurar, achou que o melhor sitio era debaixo da fonte de S. João, debaixo das raízes de um enorme e belo chorão que derramava a sua sombra nas águas. Pegou numa enxada e cavou um buraco apropriado ao tamanho do cofre. Meteu-o lá dentro, tapou-o com terra e disfarçou a obra com folhagem e gravetos.

 

Terminado o trabalho, levantou-se e olhou em volta. Espantado, viu uma mourinha que, descuidada, descia uma vereda da serra cantando uma velha canção.

 

Convencido que a moura o vira esconder o cofre e estava agora disfarçando o caso, o bruxo encaminhou-se para ela, olhou-a com uma estranha fixidez, fez uns sinais misteriosos e, recitando certa oração antiga, lançou sobre a menina um encantamento, de tal modo que ela desapareceu no mesmo instante.

 

Casquinhando, esfregou as mãos, pegou nos seus haveres e desandou rapidamente para a floresta, donde nunca mais voltou.

 

A lenda da moura de Algoso foi passando de geração em geração. A fonte de S. João de resto, continuava ali, lembrando a todos a desdita da mourinha encantada pelo bruxo e desafiando a coragem de quem sonhasse desencantá-la.

 

Uma noite, muito próxima da de S. João, um rapaz de Algoso que se apaixonara pela história sonhou que via a moura na fonte. Mal acordou, decidiu tentar ver na madrugada de S. João se a lenda era verdadeira.

 

Além disso, como corria se alguém visse a moura nas suas horas felizes lhe podia fazer três pedidos que seriam atendidos, o rapaz achou que, apesar do medo, era vantajoso fazer aquela tentativa.

 

Na véspera de S. João, encaminhou-se para a fonte ainda antes de anoitecer por completo. Procurou um local para se esconder, de onde visse sem ser visto, e esperou pela meia noite sem fazer ruído algum. O velho chorão da fonte, já centenário, continuava lançando sobre a água os seus ramos lacrimejantes.

 

Do outro lado, havia agora um belíssimo roseiral, donde provinha um perfume intenso quando todas as rosas abriam.

 

Chegou a meia noite. De repente o rapaz ouviu uma restolhada vinda das bandas do roseiral.

 

Era uma enorme serpente que, rastejando, se dirigia para a fonte. Aí chegada, mergulhou três vezes.

 

Qual não foi o espanto do moço quando viu aparecer sobre as águas uma menina: a moura da fonte e... mais bela do que tradição contava.

 

A moura saltou com leveza da rocha para o solo e, sentando-se na borda da fonte, começou a cantar uma suave canção que o marulhar da água acompanhava, enquanto ela ia passando um pente pelos seus cabelos loiros.

 

Subitamente, uma corça apareceu vinda da floresta e, sem mostrar qualquer receio, aproximou-se da moura, que a afagou com ternura. A corça, num gesto de agradecimento, lambeu-lhe as babuchas de damasco azul.

 

Era realmente um espectáculo de beleza que o rapaz jamais esperava encontrar, E, acocorado no seu canto, esqueceu os três pedidos que queria fazer, esqueceu tudo, esqueceu-se até de si mesmo, até que, bruscamente, a moura parou de se pentear, debruçou-se no tanque e desatou num pranto irreprimível.

 

Chorava, talvez, a dor da sua solidão sem fim. Condoído, o rapaz fez um movimento para a consolar, esquecido do que não fosse aquela ânsia de ternura que dele se apoderara.

 

 Ao erguer-se, porém, fez estalar sob o corpo os ramos da sebe em que se escondera. A corça embrenhou-se rapidamente no mato e a moura desapareceu subitamente, evolando-se numa névoa  sobre a águas da fonte de S. João de Algoso.

 

Retirados do livro "Lendas Portuguesas" autor Fernando Frazão

 

Fonte: http://www1.ci.uc.pt/iej/alunos/2001/lendas/Lendas%20de%20Braganca.htm

Foto: http://www.algoso.com

 

 

20.06.21

A História dos Ovos Moles de Aveiro e a sua Confraria

Miluem

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Confraria dos Ovos Moles de Aveiro

 

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História dos Ovos Moles

 

Após a introdução da plantação da cana-de-açúcar na Península Ibérica pelos árabes a partir do séc. VIII, foram os portugueses que, depois de tentativas de produção em território nacional, a difundiram pelo espaço atlântico logo nas primeiras viagens dos descobrimentos. Foi numa das primeiras terras a ser “descoberta”, a Ilha da Madeira (1420), que a produção e comércio de açúcar se tornaram uma das mais fortes actividades económicas, logo na segunda metade do século XV, em consequência da excelência do clima e elevada fertilidade dos solos da ilha.

 

A 5 de Dezembro de 1452, o Infante D. Henrique assina um contrato com o capitão de caravela Diogo de Teive, pelo qual este se compromete a construir um engenho de água na Madeira para a produção de açúcar e a entregar ao Rei a terça parte da sua produção. Logo em 1454, segundo relatos do navegador veneziano Cadamosto, o Infante apresenta a venezianos “amostras de açúcar da Madeira, e sangue de drago e outras boas coisas”.

 

Da parte do açúcar que cabia à coroa, algum foi dado como “esmola”a várias instituições como por exemplo ao hospital de Todos os Santos em Lisboa (1506), Misericórdias do Funchal (1512) e Ponta Delgada (1515) e aos conventos de Guadalupe (1485), Évora (1497), Beja (1500), Aveiro (1502), Coimbra (1510), Vila do Conde (1519).

 

De facto, está bem atestado documentalmente, que o Convento de Jesus de Aveiro recebia açúcar da Madeira. Por carta régia, de 31 de Outubro de 1502, D Manuel I dá como esmola, 10 arrobas anuais de açúcar, da parte do Funchal, pagas e assentadas do quinto que o rei dispunha na ilha. A 7 de Novembro de 1527, D. João III assina em Coimbra uma tença de 10 arrobas de açúcar também da Madeira, em carta de Aires Fernandes. D. Sebastião renovou a concessão das 10 arrobas de açúcar.

 

O primeiro uso do açúcar dentro do Mosteiro de Jesus terá sido na botica (farmácia). Tanto podia ser usado na síntese de medicamentos ou ingerido diretamente como suplemento energético aos doentes (normalmente subnutridos). Efectivamente, em carta de 4 de Abril de 1512, a prioresa do Convento solicitava o envio urgente do açúcar, a fim de ser usado na enfermaria.

 

O mosteiro de Jesus de Aveiro foi fundado em 1458 por D. Brites Leitoa, senhora nobre, casada com Diogo de Ataíde. Este casal veio da corte, em Lisboa, viver para Ouca (Vagos), onde possuíam uma rica e vasta quinta. Posteriormente, D. Brites, enviuvando aos 27 anos, resolveu dar-se à vida religiosa promovendo a construção de uma casa de recolhimento espiritual, em Aveiro, que viria a ser o futuro Mosteiro de Jesus.

 

A sua Quinta em Ouca produzia grandes quantidades de produtos alimentares como os cereais, vinho ou ovos, que serviam como ajuda ao sustento das religiosas.

 

Com a entrada no convento dos ovos, provenientes da quinta de Ouca ou dos pagamentos de foros (feitos em géneros, onde se destacam o trigo, as galinhas e os ovos), e do açúcar, rapidamente estes produtos terão passado da botica para a cozinha. Aqui, as freiras agora tornadas cozinheiras doceiras, terão experimentado com mestria tão doce ingrediente. Também a necessidade de encontrar uma forma de conservar por mais tempo os ovos, ou melhor as gemas, pois as claras tinham várias utilizações como a de engomar os tecidos, terá levado á sua junção com o açúcar, constituindo-se assim um doce de ovos.

 

Não se sabe quando se deu esta primeira junção destes dois ingredientes para formar um doce. No entanto, com a entrada do açúcar no convento no início do séc. XVI, onde já existiam os ovos (e a água tão abundante nas redondezas), poderá ter sido por esta época que terão ocorrido as primeiras experiências na cozinha. A antiga receita do doce de ovos da cozinha do convento terá dado origem ao actual característico doce de Aveiro, os Ovos moles, não se sabendo no entanto quando terá aparecido tal como hoje o conhecemos. A sua apresentação mais conhecida é dentro de moldes de obreia (hóstia), com motivos, normalmente, ligados ao mar como conchas, búzios ou peixes. Esta hóstia é feita da mesma matéria das hóstias utilizadas nas celebrações litúrgicas, e sabendo-se que estas eram produzidas no convento, facilmente podemos aceitar que a incorporação da massa de ovo dentro da hóstia tenha sido realizada por alguma freira, talvez numa tentativa de facilitar o seu manuseio. Mas também aqui não se sabe ao certo a sua origem.

 

Com a extinção das ordens religiosas em 1834, foi deliberado que um convento ou mosteiro pertencente a ordens religiosas femininas seria extinto por óbito da última religiosa, que no caso do Mosteiro de Jesus de Aveiro aconteceu a 2 de Março de 1874.

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Museu de Aveiro - Santa Joana (Antigo Mosteiro de Jesus)

Foto: David Machado - Wikipedia

 

Esta religiosa tinha uma empregada, a D. Odília Soares, que sabia a receita e fazia os ovos moles no mosteiro. É assim, pelas mãos desta senhora, que a receita deste doce transpõe os muros do convento, secularizando-se. D. Odília começa então a fazer os ovos moles, em casa, segundo a receita do mosteiro. Posteriormente a receita passa para outras mãos sendo difundida a sua produção.

 

Fonte:

http://www.confrariadosovosmolesdeaveiro.pt/

Fotos:

http://www.confrariadosovosmolesdeaveiro.pt/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mosteiro_de_Jesus

 

17.06.21

Figueira de Castelo Rodrigo @ Lendas de Portugal - O “Poio” da Cegonha

Miluem

Turismo Centro Portugal - Figueira Castelo Rodrigo

 

O “Poio” da Cegonha

 

 

Um dia, por detrás das vinhas da Coelheira, no meio dos grandes fraguedos que por ali abundam, uma raposa descansava depois de uma forte correria para caçar um coelho. Satisfeita com o almoço, olhava à volta quando viu uma cegonha à procura de alimento para as crias que tinham acabado de nascer.

 

Aproximando-se, começou a conversar com a ave de arribação, inquirindo a sua origem. A cegonha disse-lhe de onde tinha vindo, contando as maravilhas que admirava na longa viagem até aquela terra.

 

Os dois animais tornaram-se amigos e, todos os dias, ali se encontravam para dois dedos de conversa. A raposa toda se deliciava com as histórias que a cegonha lhe contava. Muito culta, sem dúvida, e muito viajada, pensava ela, quando ao fim do dia se encaminhava até às arribas, para mais uma caçada.

 

Certa ocasião, a raposa convidou a cegonha para almoçar com ela. No dia combinado e à hora marcada, a amiga apareceu lá no alto, voando com a habitual elegância. Quando pousou, ficou muito espantada ao aperceber-se que a raposa estava a deitar a comida no prato. Como era educada, nada disse, mas não comeu nada, pois o enorme bico não conseguia apanhar a mais pequena migalha naquele recipiente tão raso.

 

Ainda por cima, foi tão grande a indelicadeza, da anfitriã que não hesitou em comer o que estava no prato da amiga que se limitava a olhar, sentindo que fora enganada pela manhosa raposa. Não se podia queixar, pois os tordos que pernoitavam no mesmo freixo, bem a tinha avisado para ter cuidado, mas confiara demasiado.

 

Disfarçando o aborrecimento que tal partida lhe tinha causado, a cegonha despediu-se jurando vingar-se. Alguns dias depois, retribuiu a cortesia, e convidou a que se dizia sua amiga para almoçar. Quando a raposa apareceu no local combinado, saltando de pedra em pedra, muito prazenteira e vaidosa, reparou que a comida estava dentro de uma vasilha alta e de gargalo estreito.

 

Enquanto a cegonha, com o enorme e delgado bico, se deliciava com o manjar, a raposa olhava esfomeada para a amiga. Terminada a refeição, e vendo o ar desconsolado da comadre, a cegonha convidou-a a subir numa das asas para irem comer umas migas, um pouco mais adiante. A raposa, com o apetite que tinha, não se fez rogada, subiu de imediato numa das asas e levantaram voo.

 

Depois de umas largas voltas, sobrevoaram a região das arribas. A raposa, ao olhar lá para baixo e vendo os altos penhascos que aprisionavam o rio Águeda que, a custo, rompia o caminho para a foz, por entre as gargantas graníticas que pareciam querer abafá-lo, sentiu medo e agarrou-se com mais força à asa da cegonha. Esta como que adivinhando o receio da comadre, mudou de rumo.

 

Inquirida pela raposa do tempo que ainda faltava para comerem as migas, a cegonha respondeu-lhe que faltava pouco. Entretanto, dizendo-se cansada daquela asa, pediu à comadre que se mudasse para a outra.

 

Quando a raposa, na maior das cautelas e prodígios de equilíbrio, mudava de lugar a cegonha inclinou-se, fazendo com que a companheira da viagem se despenhasse das alturas. Muito aflita, a raposa olhou para o chão, que a grande velocidade se tornava cada vez mais perto, e vendo que caía a grande velocidade se tornava cada vez mais perto, e vendo que caía em direcção a um enorme “poio“, gritou-lhe num alto e aflitivo brado:

 

– Foge “poio“, que te racho!…

 

E na verdade, quem passar pela coelheira, pode ver o alto penedo rachado de alto a baixo!

 

Fonte: https://cm-fcr.pt/visitar/lendas-e-tradicoes/o-poio-da-cegonha/

Foto: https://turismodocentro.pt/concelho/figueira-castelo-rodrigo/

 

13.06.21

Grândola @ Lendas de Portugal - Lenda da origem do nome de Grândola

Miluem

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Lenda da origem do nome de Grândola

 

Conta-se então que, antigamente, a zona de Grândola estava cheia de mato, no qual se escondia muita caça grossa, como por exemplo, javalis e veados.

 

Os príncipes do reino vinham para aqui caçar em grupo, juntamente com os seus caçadores e criados.

 

Um dos príncipes, D. Jorge de Lencastre, construiu neste local uma casa, para ficar por cá uns dias e preparar as suas pândegas com os seus amigos e caçadores. Juntaram-se a este grupo muitos caçadores e houve necessidade de edificar mais casas, nascendo assim uma pequena aldeia.

 

Certo dia, no fim de uma caçada, abateram um enorme e gordo javali. Enquanto cozinhavam num grande caldeirão, alguém terá exclamado:

 

- Oh!!! Que grande olha!

 

Daí em diante o lugar passou a chamar-se “Grandolha”, mais tarde “Grandolla”, até atingir a forma actual de Grândola.

 

Fonte e Foto: https://www.cm-grandola.pt

 

11.06.21

Pelo mar abaixo @ Lenga-lengas da cultura portuguesa

Versão de Cinfães

Miluem

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Pelo mar abaixo

vai um cobertor;

Quem pega e não pega?

Pega o meu amor.

 

Pelo mar abaixo

vai uma cestinha;

Quem pega e não pega?

Pego eu que é minha.

 

Pelo mar abaixo

Vai uma panela (tijela)

Quem pega e não pega?

Pega o dono dela.

 

Pelo mar abaixo

Vai um tinteiro.

Quem pega e não pega?

Pega o meu dinheiro.

 

https://cancioneiropopularmar.wordpress.com/tag/lengalenga/

 

10.06.21

Sopa da Pedra | Lenda, História e Receita

Miluem

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A lenda da Sopa da Pedra

 

Um frade andava no peditório. Chegou à porta de um lavrador, não lhe quiseram aí dar esmola. O frade estava a cair com fome, e disse:

– Vou ver se faço um caldinho de pedra!

E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela, para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança.

Perguntou o frade:

– Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa boa.

Responderam-lhe:

– Sempre queremos ver isso!

Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, pediu:

– Se me emprestasse aí um pucarinho.

Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.

– Agora, se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas.

Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, tornou ele:

– Com um bocadinho de unto, é que o caldo ficava um primor!

Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada pelo que via. Dizia o frade, provando o caldo:

– Está um bocadinho insosso. Bem precisava de uma pedrinha de sal.

Também lhe deram o sal. Temperou, provou e afirmou:

– Agora é que, com uns olhinhos de couve o caldo ficava que até os anjos o comeriam!

A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras.

O frade limpou-as e ripou-as com os dedos, deitando as folhas na panela.

Quando os olhos já estavam aferventados, disse o frade:

– Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça.

Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço. Ele botou-o à panela e, enquanto se cozia, tirou do alforje pão e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era uma regalo. Comeu e lambeu o beiço. Depois de despejada a panela, ficou a pedra no fundo. A gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou:

– Ó senhor frade, então a pedra?

Respondeu o frade :

– A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez.

 

 

Um pouco de história…

Sopa da pedra é uma sopa típica portuguesa, em particular da cidade de Almeirim, situada no coração da região do Ribatejo, considerada a capital da Sopa da pedra.

A designação Sopa de pedra encontra-se em muitas culturas ocidentais e tem como base lendas e mitos.

(...)

 

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Receita

Ingredientes:

– 2,5 l de água

– Uma pedra tipo seixo

– 1 kg de feijão vermelho

– 1 orelha de porco

– 1 chouriço de carne

– 1 chouriço de sangue (morcela)

– 200 g de toucinho

– 2 cebolas

– 2 dentes de alho

– 700g de batatas

– 1 molho de coentros

– Sal, louro e pimenta a gosto

 

Preparação:

Ponha o feijão a demolhar de um dia para o outro. De véspera, escalde e raspe a orelha de porco de modo a ficar bem limpa.

No próprio dia, leve o feijão a cozer em água, juntamente com a orelha, os enchidos, o toucinho, as cebolas, os dentes de alho e o louro. Tempere de sal e pimenta. Junte mais água, se for necessário. Quando as carnes e os enchidos estiverem cozidos, tire-os do lume e corte-os em bocados.

Junte, então, à panela as batatas, cortadas em cubinhos e os coentros bem picados.

Deixe ferver lentamente até a batata estar cozida. Tire a panela do lume e introduza as carnes previamente cortadas.

No fundo da terrina onde vai servir a sopa coloque a pedra bem lavada.

Depois de servir a sopa toda, guarde a pedra para a próxima.

 

Nota:

Também pode utilizar o feijão enlatado, sempre pode fazer a sopa mais rapidamente, eu pessoalmente uso uma conhecida marca portuguesa de legumes em conserva.

Toque especial:

Guarde um pires com os coentros picados para que cada convidado coloque a quantidade de coentros a gosto na sua sopa.

 

Fonte: 

https://lusojornal.com/na-cozinha-do-vitor-sopa-da-pedra/

Fotos:

https://www.mulherportuguesa.com/

 https://maisribatejo.pt/

 

04.06.21

Sonim, Valpaços @ Lendas de Portugal - A perna da moira

Miluem

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Vista de Sonim

 

Sonim é uma pitoresca aldeia de Concelho de Valpaços, com uma invejável tradição cultural. De lá me vieram muitas quadras, alguns romances, jogos, peças de teatro popular e também a lenda que se segue.

 Perto da povoação, levanta-se um esfíngico penedo, com desenhos caprichosos que fazem lembrar uma perna de mulher, um vaso em forma de cálice e algumas figuras semelhantes a moedas, espalhadas pela superfície.

 Ao centro, a todo o comprimento, vê-se uma fenda a dividi-lo em duas partes iguais, mas só à superfície. O resto do interior está perfeitamente unido.

 A lenda assegura que tudo isto surgiu quando uma moira solitária, perseguida pelos cristãos, ali passou. Prestes a ser alcançada, agarrou-se ao penedo e pronunciou a palavra mágica: abracadabra.

 A esta palavra, o penedo abriu-se ao meio, para lhe dar guarida. E a moira apressou-se a entrar nele, para escapar à perseguição.

 Mas fê-lo com tal precipitação que deixou de fora o vaso, em forma de cálice, com moedas, que se espalharam pelo penedo. De fora ficou também uma perna da moira, cortada pelas arestas do penedo, que se fechou tão rapidamente como se abrira.

 Dentro, ficou a moira, só com uma perna e duas talhas de ferro:

uma cheia de oiro, e outra cheia de peste, para que as pessoas não se atrevessem a tentar apoderar-se do oiro.

 Quem pretendesse fazê-lo teria de superar essas duas dificuldades:

rachar a pedra ao meio e acertar com a talha do oiro; porque, se abrisse a talha da peste, sofreria morte imediata e causaria a destruição de todos os habitantes de Sonim.

 Certo dia, os moradores da aldeia reuniram-se para deliberarem se valia a pena correr esses riscos, mas não conseguiram chegar a acordo.

 Os mais novos, de espírito aventureiro, pronunciaram-se pela afirmativa, argumentando com a sabedoria do povo: quem não arrisca não petisca, dos fracos não reza a história.

 Os mais velhos, mais cautelosos, foram pela negativa, contrapondo o velho rifão: mais vale burro vivo do que cavalo morto. Deixassem, por isso, a moira em paz, para poderem também eles viver em paz.

 Os jovens falcões calaram-se, vencidos, mas não convencidos; e, lá por dentro, dispostos a levar a deles avante.

 No dia seguinte, reuniram-se sozinhos e decidiram meter ombros à arriscada, mas tentadora empresa.

 Escolheram uma noite de lua cheia, para poderem trabalhar à vontade. E, quando toda a aldeia dormia o primeiro sono, pegaram em ferros, picaretas, marras e guilhos e abalaram para o penedo do tesoiro.

 Chegados lá, traçaram um risco ao meio e a todo o comprimento do fragão. Depois, com as picaretas, abriram buracos ao longo do risco e espetaram os guilhos. Pegaram nas marras e foram batendo nos guilhos.

 A cada pancada que davam, o coração batia-lhes no peito, mais pelo medo que pelo esforço, e quase parou, quando, após algumas horas de trabalho esfalfante, o penedo começou a abrir em toda a extensão da linha traçada.

 Então, quando, já refeitos da ansiedade e do receio, se preparavam para meter os ferros, separar as duas partes do fragão e deitar as mãos ao cobiçado tesoiro, ouviram uma voz cavernosa, vinda do interior:

 - Fugi, miseráveis criaturas, que estais a abrir as vossas sepulturas.

Ao ouvir aquelas palavras aterradoras, ó meu amigo, saltaram como um raio do penedo abaixo e, num salve-se quem puder, correram desenfreadamente, até chegarem a casa, banhados em suor frio e a tremer as maleitas.

 Quando os mais velhos souberam da malograda tentativa e da covarde fuga dos jovens atrevidos, riam-se deles e comentavam com ironia:

 - Então, valentões, já lavastes os calções?

 Depois disso, nunca mais ninguém tentou apoderar-se do tesoiro do penedo da perna da moira, embora com a fenda aberta, porque, como diz o povo, o medo guarda a vinha.

 

 

Fonte Biblio: FERREIRA, Joaquim Alves

Lendas e Contos Infantis Vila Real, Edição do Autor, 1999 , p.21-23

Place of collection: Sonim, VALPAÇOS, VILA REAL Narrativa, When: XX Century, 90s Crença: Unsure / Uncommitted

Fonte: CEAO - Centro de Estudos Ataíde Oliveira

 

Foto: https://valpacos.pt/pages/531?locale=pt