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As coisas que eu gosto! E as outras...

Este é o meu espaço, nele partilho as minhas fotos amadoras, as coisas que aprendi e vou aprendendo.

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17
Dez19

Idanha-a-Nova @ Lendas de Portugal - Pitinhas de Nossa Senhora

Miluem

Foto: http://obiologoamador.blogspot.com

 

 

Pitinhas de Nossa Senhora

 

 Ainda na fuga para o Egipto, a pequena distância de Nossa Senhora e de São José, seguia uma modesta mas interessante avezinha.

 

Na cabeça uma poupa ou coroa, no seu todo de simplicidade qualquer coisa de insinuante.

 

São José, tocando a burrinha, caminhava acabrunhado e sempre receoso que os perseguidores de Jesus Cristo, guiados pelos rastos que ficavam no caminho, pudessem vir a prendê-lo.

 

 A simpática avezinha, que vinha atrás e jamais deixou de os seguir, ia remexendo com o bico e com os pés os sinais do caminho, e dizendo: — «não o vi», «não o vi», «não o vi».

 

 E respondendo e contradizendo o canto da noitibó, acrescentava: — «mentira», «mentira», «mentira».

 

 Os fariseus, que vinham no encalço, não puderam, pelos rastos, descortinar a marcha da Sagrada Familia, e por isso, ainda hoje, o povo de Idanha-a-Nova não só não mata as cotovias, como lhes chama, com muito carinho, «pitinhas de Nossa Senhora».

 

 

Fonte Biblio: DIAS, Jaime Lopes Contos e Lendas da Beira Coimbra, Alma Azul, 2002 , p.48

Place of Collection: Idanha-A-Nova, IDANHA-A-NOVA, CASTELO BRANCO

Narrativa – When: XX Century, 50s - Crença: Unsure / Uncommitted

 

15
Dez19

Caretos de Varge @ Natal • Lendas • Contos & Tradições

Miluem

Foto: Wikipédia

 

Caretos de Varge

 

Os Caretos de Varge fazem parte da Festa dos Rapazes de Varge, sendo esta uma das principais expressões das tradições transmontanas do solstício de Inverno que envolvem os Caretos, e realiza-se na icónica aldeia de Varge, localizada no Parque de Montesinho, no nordeste transmontano.


Incrivelmente, apesar dos problemas de esvaziamento demográfico que por vezes afligem estas aldeias, de 24 a 26 de Dezembro os jovens oriundos da aldeia regressam a casa para participar nesta festa e manter viva a tradição, com orgulho e dedicação.

 

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http://caretosvarge.blogspot.com/

 

Um outro Natal

 

No dia 24 de Dezembro, organiza-se uma reunião dos rapazes solteiros onde se prepara em segredo o que irá suceder.

 

O dia 25 de Dezembro começa bem cedo com a missa de Natal, e após a missa, os rapazes aparecem vestidos de Caretos, espalhando o caos e a desordem pela aldeia, saltando, gritando e rindo ao som dos seus chocalhos e de um gaiteiro acompanhado por bombo e caixa.

 

O feno é atirado ao povo, as raparigas são achocalhadas, a água das fontes é espalhada e os animais são provocados. A atmosfera transforma-se e cria-se a sensação de um mundo sobrenatural onde até o frio parece desvanecer.

 

A meio destas tropelias dá-se o “cantar das loas”, onde se critica ou ridiculariza acontecimentos e condutas de pessoas na aldeia durante o ano.

 

As loas são acompanhadas por vezes de pequenas representações cómicas, que no entanto podem encerrar duras críticas, mas ninguém pode levar a mal o comportamento dos Caretos ou as suas loas.

 

Estes representam o espírito do ano novo, e a promessa de fertilidade e abundância, sendo as loas o exorcizar de negativismo no seio da comunidade.

 

A partir da hora de almoço, os Caretos começam a andar de casa em casa, e continuam com as suas travessuras, aplacadas em cada casa apenas pela oferenda aos Caretos de enchidos, bolos e Vinho do Porto.

 

Para além dos Caretos, a festa é presidida por dois mordomos não mascarados, membros mais velhos da comunidade que foram nomeados no ano anterior para desempenharem este papel, e que têm na sua posse a “vara das roscas”.

 

Após os Caretos terem feito a ronda pelas casas, há uma corrida com o objectivo de obter as roscas das varas dos mordomos, pelas quais os vencidos pagam um valor pré-estabelecido aos vencedores.

 

No dia seguinte, toda a gente tem de estar presente quando o gaiteiro começar a tocar, sob pena de serem atirados ao rio caso se atrasem.

 

Dá-se a comemoração de Santo Estevão e respectiva missa, e o dia é mais solene, sem Caretos.

 

À noite realiza-se um jantar onde rapazes e raparigas voltam a estar juntos, culminando num baile, simbólico dos princípios masculinos e femininos em união renovada.

 

Simbologia da Festa dos Rapazes

 

Reminiscente de antigas festividades pagãs como o eram as Saturnais, as Dionisíacas e as Juvenálias, a Festa dos Rapazes de Varge é uma experiência quase espiritual, na qual a paz aparente de uma aldeia parece transformar-se num mundo de cor, êxtase, alegria, música, loucura e convívio, na qual se parte com os “diabos” e “espectros” do ano anterior e se prepara um novo ano.

 

As celebrações proporcionam um reviver das nossas raízes pagãs, através dos vários pequenos rituais, do comportamento e do simbolismo dos Caretos, e do espírito ligado à Terra e à natureza humana que estes representam.

 

 

https://www.portugalnummapa.com/caretos-de-varge/

 

07
Dez19

Alvor @ Lendas de Portugal - Lenda dos três irmãos de Alvor

Miluem

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Foto: http://www.visitportimao.com

 

 

Lenda dos três irmãos de Alvor

 

    Corre entre o povo de Alvor que os três pequenos rochedos localizados na Praia dos Três Irmãos, em Alvor, simbolizam três irmãos pescadores que apanhados inesperadamente no meio de uma tremenda tempestade soçobraram e faleceram sem qualquer auxílio da Providência Divina, ficando petrificados.

 

     E aqui a memória dos tempos apagou uma parcela do discurso bastante importante para a compreensão do fenómeno.

 

     Por que teriam ficado petrificados?

 

     Por que não foram socorridos pela Divina Providência?

 

     Alguns atribuem esse facto a promessas não cumpridas pelos familiares, em terra, na praia no acto do salvamento.

 

     E eis o que nos resta desta lenda cuja narrativa se tem perdido nas memórias ao longo dos tempos.

 

 

Fonte Biblio: TENGARRINHA, Margarida Da Memória do Povo Lisboa, Colibri, 1999 , p.66-67

Place of collection: Alvor, PORTIMÃO, FARO

Informante: Renato Dias Mendes (M), born at Alvor (PORTIMÃO) FARO,

Narrativa – When: XX Century, 90s - Crença: Unsure / Uncommitted

 

05
Dez19

Arouca @ Lendas de Portugal - A Mula da Rainha Santa

Miluem

Imagem: Wikipédia

 

A Mula da Rainha Santa

 


D. Mafalda, filha preferida de D. Sancho I e irmã favorita de D. Afonso II, era uma jovem e bela princesa. Cedo foi escolhida para mulher de D. Henrique, herdeiro do trono de Castela, que tinha apenas doze anos quando se tornou rei.

 

Contrariada com o casamento do filho, D. Berengária, a mãe de D. Henrique, invocou ao Papa a consanguinidade dos jovens e o divórcio teve lugar ainda antes da súbita morte do rei, aos 14 anos.

 

D. Mafalda regressou a Portugal virgem, e assim se manteve até ao fim da sua vida, passando desde então a ser tratada por "rainha".

 

D. Mafalda viveu os últimos anos da sua vida no Mosteiro de Arouca, onde recebeu o hábito de monja, mas quis o destino que morresse em Rio Tinto, aos 90 anos, durante uma cobrança de foros e rendas.

 

Os habitantes de Rio Tinto quiseram portanto que ela lá fosse sepultada, mas os de Arouca discordavam pois D. Mafalda tinha passado grande parte da vida no Mosteiro de Arouca.

 

Foi então que alguém se lembrou que D. Mafalda costumava viajar de mula e sugeriu pôr-se o caixão em cima da mula. Para onde ela se dirigisse seria o local da sepultura da "rainha".

 

Assim fizeram, a mula dirigiu-se para o Mosteiro de Arouca e morreu.

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O sepulcro de D. Mafalda foi por duas vezes aberto no século XVII e tanto o seu corpo como as suas vestes estavam incorruptos.

 

Em 1793, o Papa Pio VI confirmou-lhe o culto com o título de beata.

 


Como referenciar: A Mula da Rainha Santa in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-11-06 11:30:05]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$a-mula-da-rainha-santa

 

04
Dez19

Pombal @ Lendas de Portugal - Lenda do Mouro Al-Pal-Omar

Miluem

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Foto: http://cidadesdeexcelencia.org

 

Lenda do Mouro Al-Pal-Omar

 

 

Conta a lenda que vivia nas margens do rio Cabrunca um Mouro alto, espadaúdo, muito bem parecido, com olhos verdes e sorriso de pérola, chamado Al-Pal-Omar.

 

Ora, o belo Al-Pal-Omar tinha um palácio subterrâneo no alto de uma colina e seguia a indicação do Corão à sua maneira, por isso, queria conquistar todas as mulheres… do mundo!

 

Os homens da terra sentiam-se traídos! A honra das suas mulheres era manchada e o número de raparigas casadoiras diminuía.

 

Atendendo ao pedido dos aldeões, os Templários decidiram, em nome de Cristo, pôr fim àquele encantamento.

 

Ninguém sabia onde ficava a entrada secreta do palácio, felizmente os Templários tinham a seu lado o Arcanjo S. Miguel. Depois de uma luta feroz, viram-no desaparecer na gruta encantada do seu palácio. Taparam-lhe todas as entradas e construíram-lhe em cima um Castelo.

 

O mouro desapareceu e nunca ninguém encontrou o palácio subterrâneo mas a memória da sua existência ficou.

 

Ainda hoje se avisa as raparigas para terem cautela. As mães aconselham as filhas a não chegarem perto do castelo depois do pôr do sol. Pois diz-se que ainda se pode ouvir o canto do belo rapaz que lhes dirá:

 

Menina vem ter comigo

Vem o meu encanto quebrar

Sou um Mouro teu Amigo

Que te quer namorar

 

 

www.cm-pombal.pt

 

02
Dez19

Nisa @ Lendas de Portugal - A Moira Parturiente de Nisa

Miluem

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Foto: http://www.diasporalusa.pt

 

A Moira Parturiente de Nisa

 

 


Havia uma mulher em Nisa que era parteira, e foi-lhe bater à porta, fora de horas, um homem.

 

Ela levantou-se e veio à rua, onde estava o mesmo indivíduo à espera, o qual era desconhecido dela.

 

Acompanhou o homem para fora da vila e ia muito assustada, porém não dizia nada.

 

Chegaram a um sítio, onde estava um penedo com uma abertura à maneira de uma janela. Ele disse para a mulher:

 

         — Entre.

 

A parteira entrou e viu uma mulher, que estava muito aflita, para ter uma criança.

 

A parteira arranjou a mulher e arranjou a criança e depois perguntou se queriam que ela fizesse alguma coisa.

 

Ela disse que não e pegou numa pá de carvão e encheu-lhe a abada.

 

Foi acompanhá-la até à porta.

 

A mulher, como não fez caso do carvão, foi deixando este pelo caminho a pouco e pouco, ficando-lhe no avental apenas, por acaso, uns três ou quatro bagos.

 

Despediu-se do homem e foi-se deitar.

 

Ao despir-se, aqueles bagos caíram no chão, sem ela dar por isso.

 

De manhã, quando se levantou, viu que os carvões se tinham transformado em peças de ouro.

 

Ficou muito desgostosa de não ter trazido tudo, e voltou fora a ver se achava mais peças. Porém, não achou nada.

 

O homem era um moiro e a mulher que estava de parto era moira.

 


Fonte Biblio: VASCONCELLOS, J. Leite de Contos Populares e Lendas II Coimbra, por ordem da universidade, 1966 , p.744-745
Ano1933 - Place of collection: NISA, PORTALEGRE
Narrativa - Crença: Unsure / Uncommitted
Classifications - TypesChristiansen 5070 Midwife to the Fairies

01
Dez19

Mêda @ Lendas de Portugal - Lenda de Mêda

Miluem

Foto: https://www.jornaldofundao.pt

 

A Mêda a séculos atrás chamava-se vale da aldeia a cerca de 2km de distância da actual Cidade de Mêda.

 

Esta mudança surgiu quando um tufão de formigas gigantes rebentou no Vale da Aldeia.

 

Então foi quando a primeira família se mudou par ajunto do morro onde se construía a primeira casa com o nome de Quinta do Medo.

 

Então o resto das outras famílias começaram também abandonar as suas casas no vale da aldeia.

 

Refugiando-se nas cavernas do morro onde também guardavam os cereais.

 

No morro construíram uma capela de Santa Barbara.

 

Que acerca de 85 anos foi destruída por estar muito degradada dando lugar a existente Torre do Relógio.

 

Foi então que se começaram a construir as casas em volta do morro mudando assim o nome de Quinta do Medo para Mêda.

Mêda recebeu foral de Vila em 1 de Junho de 1519.

 

Lenda desenvolvida pela tradição oral.

 

Fonte: http://medalendasetradicoes.blogspot.com

 

30
Nov19

A Padeira de Aljubarrota @ Lendas de Portugal

Miluem

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Foto: Pintrest

A Padeira de Aljubarrota

 

 

Brites de Almeida não foi uma mulher vulgar.

 

Era feia, grande, com os cabelos crespos e muito, muito forte.

 

Não se enquadrava nos típicos padrões femininos e tinha um comportamento masculino, o que se reflectiu nas profissões que teve ao longo da vida.

 

Nasceu em Faro, de família pobre e humilde e em criança preferia mais vagabundear e andar à pancada que ajudar os pais na taberna de donde estes tiravam o sustento diário.

 

Aos vinte anos ficou órfã, vendeu os poucos bens que herdou e meteu-se ao caminho, andando de lugar em lugar e convivendo com todo o tipo de gente.

 

Aprendeu a manejar a espada e o pau com tal mestria que depressa alcançou fama de valente.

 

Apesar da sua temível reputação houve um soldado que, encantado com as suas proezas, a procurou e lhe propôs casamento.

 

Ela, que não estava interessada em perder a sua independência, impôs-lhe a condição de lutarem antes do casamento.

 

Como resultado, o soldado ficou ferido de morte e Brites fugiu de barco para Castela com medo da justiça.

 

Mas o destino quis que o barco fosse capturado por piratas mouros e Brites foi vendida como escrava.

 

Com a ajuda de dois outros escravos portugueses conseguiu fugir para Portugal numa embarcação que, apanhada por uma tempestade, veio dar à praia da Ericeira.

 

Procurada ainda pela justiça, Brites cortou os cabelos, disfarçou-se de homem e tornou-se almocreve.

 

Um dia, cansada daquela vida, aceitou o trabalho de padeira em Aljubarrota e casou-se com um honesto lavrador..., provavelmente tão forte quanto ela.

 

O dia 14 de Agosto de 1385 amanheceu com os primeiros clamores da batalha de Aljubarrota e Brites não conseguiu resistir ao apelo da sua natureza.

 

Pegou na primeira arma que achou e juntou-se ao exército português que naquele dia derrotou o invasor castelhano.

 

Chegando a casa cansada mas satisfeita, despertou-a um estranho ruído: dentro do forno estavam sete castelhanos escondidos.

 

Brites pegou na sua pá de padeira e matou-os logo ali.

 

Tomada de zelo nacionalista, liderou um grupo de mulheres que perseguiram os fugitivos castelhanos que ainda se escondiam pelas redondezas.

 

Conta a história que Brites acabou os seus dias em paz junto do seu lavrador mas a memória dos seus feitos heróicos ficou para sempre como símbolo da independência de Portugal.

 

A pá foi religiosamente guardada como estandarte de Aljubarrota por muitos séculos, fazendo parte da procissão do 14 de Agosto.

 

Fonte: http://leirianacional.blogspot.com

 

27
Nov19

Caldas da Rainha @ Lendas de Portugal - A Praça da Fruta

Miluem

Foto: https://papelariapapiro.blogs.sapo.pt/27473.html

 
 
Caldas da Rainha  -  A Praça da Fruta
 
 
 
 
 
Conta a lenda que a Praça do Rossio foi oferecida pela própria Rainha Dona Leonor aos Produtores Agrícolas da Região para aí venderem os seus produtos.
 
 
Apesar de não existirem registos históricos de tal oferenda, a verdade é que o Mercado de Rua Caldense, comumente denominado Praça da Fruta, funciona até aos dias de hoje no local primitivo onde iniciou a sua atividade durante o século XV.
 
 
Todos os dias da semana as bancas coloridas são montadas, dando lugar ao único Mercado Diário ao Ar Livre em Portugal.
 
 
Apesar de os hábitos dos produtores e vendedores se terem mantido durante seis séculos, muitas são as histórias que há para contar sobre o local que inicialmente se denominava de Rossio da Vila.
 
 
É sabido que o pólo atrativo inicial da Cidade de Caldas da Rainha foi o Hospital Termal de Nossa Senhora do Pópulo, mandado edificar pela Rainha Dona Leonor no ano de 1485.
 
 
Para este lugar, doentes e banhistas de todo o País e Europa se veem dirigindo durante séculos para usufruir dos poderes medicinais das águas termais.
 
 
Contudo, desde cedo o comércio desenvolvido no Rossio da Vila atraía a si produtores das zonas circundantes para venderem os seus produtos: ”Tornando-se o centro de uma região agrária em crescimento, com bons campos para produções diversas, desde vinho, azeite e cereais até à preparação de lanifícios e ao arroteamento de terras para o cultivo dos mais variados produtos. Era também encontro de oleiros que ali se dirigiam para vender as suas peças de utilização doméstica “ (in Terras de Água, pág. 70)
 
 

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Foto: http://www.oesteativo.com

 
A dinâmica
 
 
O dinamismo desta zona leva a que no ano de 1750 aí seja construído o primeiro edifício destinado ao “Passo do Concelho, Câmara, Cadeia e Assougues” fora do Hospital Termal, onde a Câmara Municipal vinha desenvolvido funções até então.
 
 
Este novo espaço destinado às funções municipais foi mandado edificar pela Esposa de D. João Quinto, Rainha Dona Maria Ana.
 
 
O novo edifício da Câmara Municipal marca efetivamente a separação física da municipalidade em relação ao Hospital Termal e reforça a importância regional do Mercado de Caldas da Rainha.
 
 
Por esta altura já o Mercado Caldense, vulgo Praça da Fruta, se destacava por ser um pólo regional atrativo de produtores e compradores, sendo grande a abundância de géneros aí comercializados.
 
 
A denominação de Rossio da Vila foi mantida até ao ano de 1887 quando lhe foi atribuído o nome de Praça Maria Pia.
 
 
Por esta altura, no ano de 1880 a Câmara Municipal inicia um vasto programa de obras municipais destinadas a ampliar a rede de esgotos e embelezar o Rossio.
 
 
Assim, é construído o tabuleiro central com ondulados de basalto negro sobre fundo branco, identidade arquitetónica caldense, inaugurada no ano de 1883 e símbolo de um embelezamento progressivo da cidade, que lentamente prosperava com a vinda dos banhistas.
 
 
Segundo historiadores caldenses, para além de dar lugar a um grande foco de comércio local, a Praça Maria Pia congrega nos seus edifícios as tendências da arquitetura urbana de Caldas da Rainha, desde as suas primeiras manifestações românticas.
 

 

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A cerâmica
 
 
A utilização da cerâmica local está também presente na Praça, na decoração das fachadas das lojas com revestimentos cerâmicos, que denunciam a influência da Arte Nova e constituem o cenário romântico onde diariamente é montado o Mercado.
 
 
Com a Implantação da República a Praça Maria Pia passa a ser denominada Praça da República mantendo a mesma atividade e afluência de gentes, tendo sido recentemente recuperada pela Câmara Municipal com obras de embelezamento finalizadas a 10 de novembro de 2014.
 
 
O dinamismo da Praça da Fruta perdura até aos nossos dias simbolizando as múltiplas funções que os Mercados proporcionam às economias urbanas, constituindo-se como ponto de encontro da economia camponesa com o ciclo dos preços e o estímulo monetário, sendo um local para a circulação de mercadorias bem como de informações.
 
 
Como nos dizem os Autores de Terra de Águas – Caldas da Rainha História e Cultura: “No mercado se trocam “novidades”, se combinam negócios, se discutem alianças, se aprazam casamentos.” (pág.382)
 
 
Diariamente, nas Caldas da Rainha, desde do século XV perante um cenário de edifícios Românticos e o colorido das Frutas e Vegetais da época.
 
 
 
 

 

26
Nov19

Beja @ Lendas de Portugal - Uma Luz Misteriosa

Miluem

Foto: http://estrelaseouricos.sapo.pt/passear/patrimonio/beja-360--o-novo-mapa-interativo-21554.html

 

Uma Luz Misteriosa

 

As histórias de lobisomens e de bruxas são vulgares no meio rural tradicional.

 

Maus encontros com animais a horas tardias, doenças provocadas por mau querer (feitiçarias), filtros de amor (beberagens para atrair ou afastar paixões), visões, vozes, são elementos do vasto manancial do imaginário popular sobre forças maléficas.

 

Há, contudo, outro tipo de histórias que são comuns a várias aldeias e vilas do Alentejo.

 

É o caso da estranha luz que, de noite, acompanhava os viajantes (normalmente pastores, almocreves e, mais recentemente, tractoristas que de noite procedem às grandes charruadas).

 

Era uma luz que seguia o caminhante sem, contudo, o incomodar.

 

A luz acompanhava o viajante, seguindo a seu lado, parando quando este parava, e acompanhando a velocidade da deslocação.

 

Nenhuma das pessoas que afirmam ter estado em contacto com o fenómeno, esboçou qualquer reacção.

 

Para essa passividade contribuiu seguramente o facto de ser conhecida a reacção da luz quando atacada.

 

O fim da história aqui apresentada é relativamente benéfico.

 

Noutras descrições, que a tradição popular registra, a luz, quando hostilizada, conduz à morte do atacante.

 

História veridica: Algures na região de Beringel (Beja), havia um sujeito que não acreditava em coisas estranhas, daquelas que se contam nas aldeias.

 

Naquele tempo, corria o boato de que havia no campo uma espécie de luz vermelha que andava de um lado para o outro, mas que não se deixava ver de perto. Os mais velhos afirmavam que já a tinham visto, e esse homem que não acreditava disse, na brincadeira:

 

- “Se eu a encontrar, desfaço-a toda aos bocados com o meu cajado”

 

O que vos conto a seguir é a narração do próprio.

 

“Numa noite, eu ia guinado a minha charrete e lá estava à minha frente a luz vermelha parada em cima do muro. Saí, peguei no cajado e disse com ar forte e corajoso:

 

- Já que aí estás, então espera, que já vais ver o que é para a saúde!

 

E assim dirigi-me até junto dela e tentei dar-lhe com o cajado, mas não consegui porque ela se desviou.

 

Continuei à cajadada com ela, mas falhava sempre e ia ficando mais furioso.

 

Voltei para a charrete quando ela se voltou contra mim.

 

Não sei o que aconteceu (parecia que estava levando uma grande tareia) e desmaiei.

 

Os cavalos voltaram para casa e eu fui na charrete como morto.

 

Na manhã seguinte, a minha mulher, já preocupada, foi ver se eu estava dormindo na charrete.

 

Ela diz que eu estava com a roupa toda rasgada, todo cheio de sangue, que parecia morto.

 

Mas estava apenas desmaiado.

 

Depois a minha mulher tratou de mim e nunca mais quis ouvir falar dessa luz.”

 

http://www1.ci.uc.pt/iej/alunos/2001/lendas/Lendas%20de%20Beja.htm

 

25
Nov19

Alfândega da Fé @ Lendas de Portugal - A lenda dos Cavaleiros das Esporas Douradas

Miluem

 

 

A lenda dos Cavaleiros das Esporas Douradas

 

A lenda dos Cavaleiros das Esporas Douradas tem origem no tempo da reconquista Cristã da Península. Altura em que as lutas entre mouros e cristãos eram frequentes, época em que a história se confunde com as histórias transmitidas de geração em geração. Verdade ou não explica o próprio toponímico do concelho e a formação da localidade.


Conta a lenda que durante a ocupação Muçulmana existia nestas terras um mouro que espalhava o terror na região. Abdel-Alí tinha o seu Castelo no Monte carrascal, próximo da atual localidade de Chacim e dominava toda a região. Senhor destas paragens, exigia como feudo a entrega de um determinado número de Donzelas. Abdel-Alí obrigava a população a dar-lhe conta de todos os casamentos que se realizavam na região, exigia saber o nome de cada donzela que ia contrair matrimónio e se quisesse podia possuí-la. Este imposto ficou conhecido como o “Tributo das Donzelas”


Mas o casamento de dois jovens haveria de mudar o destino da população e do mouro malvado. O anúncio da união entre Teolinda, filha de D. Rodrigo Ventura de Melo, Senhor de Castro e Casimiro, filho de D.Pedro Rodrigues de Malafaia, líder dos Cavaleiros das Esporas Douradas, faz inverter o rumo dos acontecimentos.


A cobrança do tributo por parte do Mouro revolta a população. É então que os “Cavaleiros das Esporas Douradas” organizam uma investida contra o infiel. Conta o povo que tal batalha não foi fácil, os Cristãos chegaram mesmo a estar em desvantagem. Foi então que apareceu Nossa Senhora que com um bálsamo que trazia na mão foi reanimando os mortos e curando os feridos. A luta aumentou, então, de intensidade e os invasores acabaram por ser expulsos destas terras, pondo-se assim fim ao “Tributo das Donzelas”.


No local construiu-se uma capela em homenagem a Nossa Senhora, hoje Santuário de Balsamão, o lugar de tão grande Chacina deu origem a Chacim e Alfândega, graças à bravura e valentia dos seus Cavaleiros das Esporas Douradas, e em nome da Fé cristã passou a designar-se Alfândega da Fé.

 

Fonte: https://www.cm-alfandegadafe.pt/pages/1029

 

24
Nov19

Sintra @ Lendas de Portugal - A Lenda dos Sete Ais

Miluem

Foto: www.cm-sintra.pt

 

 

A Lenda dos Sete Ais

 

Esta é uma lenda estranha que está na origem do nome de um local do concelho de Sintra e que remonta a 1147, data em que D. Afonso Henriques conquistou Lisboa aos Mouros.

 

Destacado para ocupar o castelo de Sintra, D. Mendo de Paiva surpreendeu a princesa moura Anasir, que fugia com a sua aia Zuleima. A jovem assustada gritou um "Ai!" e quando D. Mendo mostrou intenção de não a deixar sair, outro "Ai!" lhe saiu da garganta. Zuleima, sem lhe explicar a razão, pediu-lhe para nunca mais soltar nenhum grito do género, mas ao ver aproximar-se o exército cristão a jovem soltou o terceiro "Ai!".

 

D. Mendo decidiu esconder a princesa e a sua aia numa casa que tinha na região e querendo levar a jovem no seu cavalo, ameaçou-a de a separar da sua aia se ela não acedesse e Anasir deixou escapar o quarto "Ai!".

 

Pouco depois de se instalar na casa, a princesa moura apaixonou-se por D. Mendo de Paiva, retribuindo o amor do cavaleiro cristão que em segredo a mantinha longe de todos.

 

Um dia, a casa começou a ser rondada por mouros e Zuleima receava que fosse o antigo noivo de Anasir, Aben-Abed, que apesar de na fuga se ter esquecido da sua noiva, voltava agora para castigar a sua traição.

 

Zuleima contou a D. Mendo que uma feiticeira lhe tinha dito que a princesa morreria ao pronunciar o sétimo "Ai!".

 

Entretanto, Anasir curiosa pela preocupação da aia em relação aos seus "Ais", exprimiu o quinto e o sexto consecutivamente, desesperando a sua aia que continuou a não lhe revelar o segredo.

 

D. Mendo partiu para uma batalha e passados sete dias foi Aben-Abed que surpreendeu Anasir, que soltou o sétimo "Ai!", ao mesmo tempo que o punhal do mouro a feria no peito.

 

Enlouquecido pela dor, D. Mendo de Paiva tornou-se no mais feroz caçador de mouros do seu tempo.

 

https://www.folclore-online.com

24
Nov19

Freixo de Espada à Cinta @ Lendas de Portugal - Lenda do Freixo de Espada à Cinta

Miluem

Foto:  PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA

  https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/sopas-e-merendas-vao-reinar-em-freixo-de-espada-a-cinta

 

Lenda do Freixo de Espada à Cinta

 

 


Aqui está mais um exemplo típico de que as lendas não têm origem certa, nem no espaço, nem no tempo. Esta foi-me contada por várias vezes. E de cada vez, por assim dizer, se situava numa época diferente...
De todas as narrações preferi a de uma doce velhinha de olhos sem luz que me dizia ter ainda conhecido Guerra Junqueiro e que, talvez por isso mesmo, recitava como oração duas das suas quintilhas mais ternas e mais formosas, como se ela própria tivesse inspirado esses versos:

 

Oh velhinha santa, minha boa amiga,
Reza o teu rosário, move os lábios teus!
A oração é ingénua! Vem da crença antiga?
Que me importa? Reza, minha boa amiga,
Que orações são línguas de falar com Deus!

 

Pois, velhinha santa, tua crença pura.
Tua reza antiga, que me fez chorar,
É igual aos cegos que na noite escura
Não precisam d’astros para ver a altura,
Não precisam d’olhos para te olhar!

 

Conta-se, pois, que em tempos já distantes, nas eternas questiúnculas com seu filho o príncipe D. Afonso, el-rei de Portugal D. Dinis chegou um dia àquelas terras, então ainda praticamente desertas, que hoje fazem parte do distrito de Bragança, quase na raia de Espanha.


Os correligionários do príncipe D. Afonso tinham cometido tropelias graves e D. Dinis viu-se obrigado a correr o Norte do reino, com os seus melhores cavaleiros, para castigar os prevaricadores e salvar os inocentes.


Por mais de uma vez a sua própria espada teve de salpicar-se de sangue e o rei de Portugal, em plena pujança de vida e de glória, gritava furioso e agastado:


— Filho indigno que não sabe respeitar seu pai que tanto o ama!... Que deseja ele mais?... Não lhe tenho dado honrarias e poderes?... Umas vezes, por minha espontânea vontade… outras vezes, a pedido da Rainha?... Ingrato D. Afonso, antes eu não fosse vosso pai, antes não tivésseis o meu sangue... e eu vos saberia ensinar duma vez para sempre!


E fitando os que o fitavam, e semicerrando o olhar naquele prenúncio de cólera e ameaça que tanto fazia temer os que bem o conheciam, el-rei D. Dinis rematava febrilmente:


— Lá porque amo também outro filho, D. Afonso Sanches — e esse, sim, é bom e sabe respeitar-me — pensa o ingrato, o indigno D. Afonso que há-de rebelar o reino contra mim e contra seu irmão... Mas eu vos garanto, senhores... eu vos garanto que um dia me cansarei de ser bom e clemente e então não mais perdoarei a D. Afonso!


Depois, num gesto sem réplica, ordenava:


— Vamos! Acompanhai-me, que temos ainda de castigar muitos rebeldes e maus Portugueses!

 

Assim decorria a jornada por terras do Norte, entre rancores e perseguições, inquietudes de alma e cansaços de corpo. Por tudo isso, talvez, ao passar junto dum grande freixo, plantado à beira do caminho e derramando em seu redor uma sombra de encantar, el-rei D. Dinis, segundo narra a velha lenda, sentiu-se subitamente desejoso de um merecido repouso.


E não resistiu, a sua voz ergueu-se sobre os que o acompanhavam:


— Ide, cavaleiros… ide e montai mais além o nosso acampamento... Depois irei ao vosso encontro, pois agora quero ficar alguns momentos a gozar a sombra deliciosa deste magnífico freixo.


As ordens foram cumpridas. De facto, D. Dinis ficou sozinho junto do grande freixo. Desmontou então e à vontade desentorpeceu os membros fatigados por tanta correria e tanta luta.


Teve a ilusão de que remoçava. Sorrindo, el-rei de Portugal aspirou forte o ar fresco e reconfortante que por ali passava.


— Oh, como é bom podermos descansar quando se deseja!


Voltou a olhar em seu redor.


— E como é refrescante esta sombra, meu Deus!


Sempre sorrindo, el-rei de Portugal confidenciava a si mesmo:


— Nunca me apeteceu tanto adormecer um pouco... libertar os meus pensamentos de inquietação… lavar a alma neste sossego que me envolve...


E assim falando, tal como conta também a lenda remota e pitoresca, D. Dinis desembaraçou-se da sua pesada espada e do cinto que a sustentava, prendendo-o ao próprio tronco do freixo...


Depois, na volúpia saborosa de se encontrar sozinho e poder fazer quanto lhe apetecesse, não como rei, mas como homem — estendeu-se preguiçosamente, aspirou nova golfada de ar puro, encostou a cabeça ao freixo... e adormeceu.

 

Foi então que tudo se passou conforme a lenda revela e tem sido transmitido de geração em geração...


Sonhando, el-rei D. Dinis viu de repente que se erguia junto dele, em aparição fantasmagórica, um velho de longas barbas brancas, trazendo à cinta a sua própria espada.


Surpreendido, desconfiado, inquieto, o rei de Portugal perguntou:


— Mas... quem sois vós, ancião?... Que desejais de mim?


Em voz irreal, que mais parecia eco doutra voz distante, o vulto respondeu apenas:


— Sou o espírito vivo deste freixo, ao qual tu te encostaste... Aqui estou encantado para sempre, desde que morri... Tu hoje, porém, quebraste o encantamento e por isso aqui me vês...


Novo espanto nasceu no rosto de D. Dinis:


— Quebrei-vos o encantamento?... Mas... como, se nada fiz?... Explicai-vos, por favor, bom velho!


Na mesma voz estranha, o vulto satisfez-lhe a vontade:


— Pois é bem fácil de explicar. Sempre que um rei de Portugal pendure a sua espada no meu tronco… eu poderei viver, de novo, durante alguns momentos!


Houve um silêncio. Pequeno. Frágil. E el-rei D. Dinis insistiu:


— Mas... afinal quem sois? Ainda não me dissestes o vosso nome...


A voz feita de eco subiu de intensidade, tornando-se mais forte e mais estranha ainda:


— Sou um velho rei visigodo... Sim, rei como tu, Dinis! E, como tu, também fui valente e temido. Conquistei terras e dominei povos... Um dia, porém, adormeci à sombra deste mesmo freixo a que tu te encostaste... E os inimigos surpreenderam-me assim... e mataram-me!


Num movimento instintivo, el-rei de Portugal procurou imediatamente erguer-se e afastar-se.


Mas a voz tremeu, como numa risada, e sentenciou:


— Não tenhas medo, Dinis!... A ti não te farão a mesma coisa... Estamos aqui apenas os dois... E eu vim para te aconselhar...


D. Dinis aquietou-se. Todavia, a sua curiosidade não o deixou calado:


— Que sabeis vós da minha vida, bom velho rei?


— Sei tudo! Tudo, compreendes?... Quando se liberta o espírito das algemas da terra, vê-se e aprende-se muita coisa... Por exemplo, eu sei que, lá no íntimo, o que tu desejas é fazer as pazes com teu filho Afonso.


Descoberto no seu segredo, o rei de Portugal mal teve forças para gritar, num desabafo de alma:


— Mas ele é um ingrato, um pérfido!...


A voz estranha voltou a soar com brandura:


— Acalma-te Dinis!... Vou ensinar-te como deves proceder... Quero ajudar a tua felicidade.


— Nem sei como agradecer-vos... Não mais esquecerei este encontro!


A voz desceu até junto dele, tornou-se murmúrio:


— Escuta primeiramente um aviso que te quero dar: tens tratado muito mal tua esposa, a Rainha Isabel! D. Dinis reagiu:


— Ela está sempre ao lado do filho... contra mim!


— Enganas-te... Ela é mãe. Mãe verdadeira. Mãe amantíssima. E procede como tal!


Por instantes, o génio indomável do rei de Portugal veio à superfície:


— Também a defendeis, não é verdade? Também vós sois contra mim? Porquê? Porquê, meu Deus? Porque querem todos que eu seja afinal o culpado... se eu procedo de acordo com a justiça e com a razão?


A voz, como se já o conhecesse perfeitamente, deixou passar a fúria. E, agora no mesmo tom de murmúrio, acentuou:


— Sim... em grande parte, és tu o culpado de tudo, Dinis!... Se desses mais ouvidos à Rainha tua esposa... se mais te guiasses pelos seus conselhos... talvez houvesse menos incompreensão e menos guerra...


E de tal modo era persuasiva a força dessas palavras, ditas quase em tom de segredo e numa voz estranhamente irreal, que D. Dinis sentiu vontade de aceder e concordar:


— Está bem! Passarei a dar melhor atenção ao que diz a Rainha... Mas respondei-me, velho rei: como hei-de conseguir as tréguas com meu filho Afonso?... Estou ansioso por saber!


De novo passou uma tremura pela voz, como se fosse um riso. E o vulto de grandes barbas brancas inclinou-se sobre ele e disse devagarinho:


— Escuta, Dinis... Escuta, porque é segredo...


E conta a lenda que o velho misterioso fez ouvir no íntimo de el-rei de Portugal os seus sábios conselhos. Sem voz. Sem palavras. Apenas em pensamento. E conta também que D. Dinis, logo de início, ao ouvir a primeira parte do segredo, se excitou demasiadamente: — Oh, mas é prodigioso, o que acabais de dizer!... E eu que nunca pensara em tal... Obrigado, mil vezes obrigado, velho rei do freixo!... Vou já pôr-me a caminho e fazer tudo quanto dissestes...


E, num dos seus impulsos habituais, el-rei D. Dinis quis erguer-se de novo, deixando o local onde se encontrava. Nem ligou mais importância àquela voz estranha, que lhe dizia:


— Espera, Dinis!... Não te alvoroces... Falta ensinar-te o resto... senão tudo voltará a mesma... Espera!


Mas era tarde, de facto. Com a excitação dos seus próprios pensamentos, el-rei de Portugal já acordara!


E viu-se de novo sozinho, junto do grande freixo... O velho desaparecera por completo. Por completo e para sempre.


Numa preocupação salpicada de rugas, D. Dinis olhou lentamente a árvore a cuja sombra se acolhera.


— Meu Deus, é extraordinário como o velho rei visigodo se assemelhava a este freixo... Parecia até o próprio freixo de espada à cinta!


Desde então, el-rei D. Dinis não se cansou de contar às pessoas mais íntimas o sonho singular que tivera.


E, aos poucos, de boca em boca, de terra em terra, pelo País fora, foi-se espalhando o caso espantoso do velho rei do freixo de espada a cinta — até que, logicamente, pela tradição do povo, esse local ficou a chamar-se para sempre Freixo de Espada à Cinta.

 

Aliás, tudo se passou conforme a profecia do sonho. D. Dinis conseguiu, na verdade, umas tréguas com seu filho, o príncipe D. Afonso; mas a paz não foi duradoira e a guerra entre ambos não tardou em recomeçar. E isso, afinal, porque D. Dinis não ouvira o resto dos conselhos do misterioso e bizarro espírito encantado do Freixo de Espada à Cinta — espírito que também não tomou mais a desencantar-se, porque nenhum outro rei de Portugal voltou a pendurar a sua espada no grande freixo plantado à beira do caminho...

 

 

Fonte Biblio: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 33-37

Place of collection: Freixo De Espada À Cinta, FREIXO DE ESPADA À CINTA, BRAGANÇA
Narrativa - When: XIV Century - Crença: Unsure / Uncommitted

 

21
Nov19

Vila Nova de Cerveira @ Lendas de Portugal - A Lenda do Cervo Rei

Miluem

Foto Wikipédia

 

A Lenda do Cervo Rei

 

Era uma vez … um cervo (veado), que liderava a sua manada – chamava-se Cervo Rei.

 

O grupo andava há vários dias em fuga, acossados pelos caçadores que não lhes davam tréguas. A certa altura, atingiram o cume de um monte no Alto Minho com uma paisagem de cortar a respiração, com um magnifico rio e uma pequena ilha no meio – uma tal “Ilha dos Amores”.

 

O ambiente era calmo, ficava longe do olhar dos caçadores, inspirava serenidade e confiança. Do cimo da montanha, poderiam antecipar qualquer investida humana e fugir atempadamente. Água e pastagem abundantes garantiam o seu sustento. Perceberam que era o local ideal para ficarem e por isso, batizaram-no como “Terras de Cervaria” ou seja, a terra dos cervos. Ao longo dos anos, inúmeros cervos juntaram-se a esta manada, não parando de crescer.

 


Convencido de que esta era a terra ideal para a sua manada, o destemido Cervo Rei declarou que nesta terra, quem mandava eram os cervos e não os homens, tal como acontecia no resto do mundo. E disse mais: para preservar a independência e integridade deste território, os cervos não iriam fugir mais. Antes, lutariam bravamente pela sua terra e enfrentariam que os quisesse perseguir. Os homens não poderiam entrar nestas terras. Os animais aclamaram em coro o Cervo Rei e juraram-lhe determinação e lealdade absoluta.

 


A notícia de que havia uma terra onde quem mandava era um veado e que os homens lá não podiam entrar pois era a terra dos veados, correu mundo.

 


E assim, o Cervo rei e a sua manada foram enfrentando todos os que quiseram tomar as “Terras de Cervaria” em diversas batalhas: romanos, bárbaros, celtas, mouros… Contudo, ao longo de todas estas batalhas, os cervos da manada foram perecendo um a um, excepto o Cervo Rei.


Certa manhã, um emissário trouxe a mensagem de um cavaleiro português que desafiou o Cervo Rei para uma luta. Se ganhasse, ficaria na posse das “Terras de Cervaria”. Mesmo sozinho – uma vez que toda a sua manada havia morrido nas várias batalhas pela conservação destas terras – o corajoso e determinado Cervo Rei, não hesitou e aceitou o duelo.


No dia e hora combinada deu-se o combate que foi renhido e sangrento. Todavia, o Cervo Rei venceu e assim, permaneceu sozinho nas “Terras de Cervaria”, onde nenhum animal ou homem podem entrar. Consta-se que o Cervo Rei teve uma longa vida…


Muitos, de visita a Cerveira, quando olham para o cimo do monte e vêm o vulto do cervo, escultura do mestre José Rodrigues, pensam que ele ainda lá está… há até quem diga que continua a vaguear pela Cervaria, porque é imortal.

 

https://senteahistoria.com

19
Nov19

Beja @ Lendas de Portugal - Lenda de Beja

Miluem

Foto do colega do blog Alvitrando

https://alvitrando.blogs.sapo.pt/2581151.html

 

 

Lenda de Beja

 

A lenda de Beja revela o motivo pelo qual existe no brasão da cidade a cabeça de um touro. Diz-nos a lenda:

 

 

«Muito antes dos lusitanos, o local onde hoje se encontra a nobre cidade de Beja com as suas muralhas romanas, os seus prédios góticos, a mesquita árabe e o castelo do princípio da monarquia portuguesa.

 

Essa Beja com documentos que representam 4 civilizações, era pequeno povo que vivia em cabanas cobertas de colmo, que apenas se empregava no exercício da caça.

 

Todos esses campos ubérrimos de pão que vemos hoje, eram um compacto matagal, impossível de ser penetrado pelo homem.

 

E uma serpente, uma serpente monstro que tudo matava, tudo triturava, era a horrível preocupação do povo que habitava no local que mais tarde, no tempo dos romanos, se havia de chamar Pax-Júlia, depois no domínio árabe se chamou Buxú e presentemente se chama Beja.

 

Um ardil, porém, germinou no cérebro de um habitante dessa região: envenenar um toiro, deitá-lo para a floresta onde existia a tal serpente.

 

Aprovada por todos essa ideia, o toiro foi envenenado e deitado para o local indicado».

 

https://maisbeja.blogs.sapo.pt

 

156199.jpg

 

https://www.beja360.pt/

https://cm-beja.pt/visitar

 

17
Nov19

Maceira, Leiria @ Lendas de Portugal - Lenda de Nossa Senhora da Maceira

Miluem

maceira

 

Lenda de Nossa Senhora da Maceira

 

De tempos recuados terá nascido a ‘Lenda de Nossa Senhora da Maceira’, romance em quadras simples e belas, impregnado de mística religiosa e de maravilhoso popular, muito comuns no Cancioneiro Popular Português.

 

Note-se a temática muito ao gosto do Povo, com personagens que encontramos repetidamente na história religiosa popular:

 

Nossa Senhora, crianças pastoras e elementos da Natureza.

 

Ao subir daquele ribeiro
que descai na Fonte Fria
uma pastora mocinha
com seu pai, além, vivia.


O rebanho ia pastar
mal o dia se rompia;
e à hora do sol-posto
o seu gado recolhia.


Ao voltar ela para casa
à tardinha desse dia,
no regaço do avental
maçãs frescas escondia.


Nem maçãs, nem outra fruta
nesse tempo ali havia:
era tudo mata agreste
ao redor donde vivia.


- «Que maçãs são essas, filha,
que ninguém ora as teria?»
-«A Senhora é que m’ as deu,
e outras mais, se eu as queria…


Ela vem todas as tardes
mesmo ao pé da Fonte Fria:
fala e reza ali comigo,
é a minha companhia».


- «Minha filha, um tal milagre
Nem por sombra acontecia!
Não será obra do demo
que a tua alma turbaria?»


Estava o pai embaraçado
com aquilo qu’ ele ouvia;
e ali mesmo fez sentido
de ir lá ver o que seria.


Foi-se pôr, zeloso que era,
à sucapa, de vigia;
e, daquilo que observou,
viu que a filha não mentia.


Viu a imagem da Senhora,
que de branco se vestia,
a estender a mão p’rà filha
com maçãs que l’ oferecia.


Via o pai a santa imagem,
mas ouvi-la, nã n’ ouvia;
ora a filha, inocentinha,
a Senhora em carne via.


- «Venham ver este milagre,
venham todos à porfia;
apareceu além na Fonte
a Senhora Santa Maria!


‘Stendeu a mão à ‘nha filha,
maçãs traz, maçãs confia:
é a Senhora da Maceira
que nos pede primazia!»


Ajuntou-se então o povo
e no alto um nicho erguia;
foi buscar a santa imagem
e, lá dentro, a metia.


Mas a Senhora, saudosa,
para a Fonte se fugia,
a falar à pastorinha
e a fazer-le companhia.


Já tornavam a buscá-la,
assubindo a rampa esguia,
já tornava Ela para a Fonte
e lá estava ao outro dia.


Torna o Povo a juntar-se,
tendo à frente a fidalguia;
e alevanta-l’ uma ermida
onde o nicho então havia.


Em luzida procissão
lá vão pôr a imagem pia:
a Senhora, ao ver tal fé,
quis a nova moradia.


Como prova do milagre
lá ficou a Fonte Fria;
e a Senhora da Maceira
deu o nome à freguesia!

 

Fonte: http://freguesiademaceira.pt