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As coisas de que eu gosto! e as outras...

Bem-vind' ao meu espaço! Sou uma colectora de momentos e saberes.

As coisas de que eu gosto! e as outras...

11.02.22

Não dar parte de fraco | Contos Populares Alentejanos

Miluem

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Não dar parte de fraco

 

Era duma vez um sapo e, indo por uma estrada, caiu num charco que ali havia e não podia sair dele por mais esforços que fizesse.

Chegou a rã e disse-lhe: 

“Compadre Sapo, que estás aí a

fazer?” 

“Estou dando volta a esta morada de casas porque me puseram fora da outra em que estava.”

 

“Contos populares alemtejanos”,

Revista do Minho, 6 (18) 1891, [p. 2].

Com o nº IV no original.

 

Créditos:

Fonte:

Coleção Estudos e Documentos 10 - António Thomaz Pires

Contos Populares Alentejanos recolhidos da Tradição Oral

Colectânea, edição crítica e introdução de Mário F. Lages

2ª edição aumentada - Lisboa - CEPCEP 2004

Foto: https://www.google.com/amp/s/www.greenmebrasil.com/informarse/animais/5161-a-importancia-mundial-dos-sapos/amp/

07.01.22

Conto dos passarinhos verdes | Contos Populares Alentejanos

Miluem

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Conto dos passarinhos verdes

 

Havia uma princesa e era por costume todos os dias ir pen￾tear-se numa janela que deitava para a varanda.

Um dia, estava penteando-se, veio um passarinho verde, levou-lhe a fita do cabelo. A pequena ficou muito triste. No dia seguinte, tornou a ir pentear--se ao mesmo sítio. Veio o passarinho e levou-lhe o pente. No outro dia, estava-se penteando, levou-lhe o penteador. A princesa tão cismática por tais coisas caiu de cama e nunca mais falou.

O rei mandou deitar um pregão, que daria uma tença a quem fosse capaz de fazer falar a princesa. Uma velha teve por notícia que o rei dava uma tença e disse para uma filha:

“Ó filha, eu vou ver se faço rir e falar a princesa.”

“Mãe, não vá; vossemecê está doida; entre tantas pessoas ninguém a faz falar, só vossemecê sendo velha imagina tal; anoutece￾lhe no caminho e vai passar alguns trabalhos.”

“Pois, filha, já me vou meter a caminho.” Marchou a velha.

Já cansada de andar, anoiteceu-lhe no caminho. A mulher ficou muito assustada ao ouvir um grande barulho; olha para o lado e quando vê um bando de passarinhos verdes e abrir-se uma pedra; eles entraram e a velha entrou também atrás deles.

Chegou lá abaixo, era um grande palácio; viu uma mesa com todas as iguarias, viu um espeto ao lume sem ninguém lhe mexer; a velha foi a mexer no espeto e levou com ele na cara. Ela o que fez, meteu-se atrás da porta.

Passado uma hora viu ela um passarinho verde banhar-se numa bacia, depois transformou-se num príncipe.

Chegou ao pé duma cómoda, abriu um gavetão e disse:

“Fita, pente, penteador, quem me dera ver o meu lindo amor.”

Depois sentou-se à mesa, ceou, depois foi-se deitar. A velha sempre atrás da porta.

De manhã muito cedo, levantou-se o príncipe, tornou-se a banhar numa bacia, ficou num passarinho, depois vieram os outros companheiros e todos saíram. A velha saiu atrás deles. Seguiu a viagem a casa da princesa. Chegou à porta do palácio. Os criados não a deixavam entrar. Tanto teimou até que conseguiu.

Chegou ao quarto, perguntou à princesa como estava, a qual não lhe respondia. Começou a dizer assim:

“Anoiteceu-me no caminho, depois ouvi um barulho, vi um rancho de passarinhos verdes...”

A princesa assim que ouviu falar em passarinhos verdes disse logo:

“Conta velha”; e levantou-se da cama.

Tudo ficou admirado no palácio, de tantas pessoas ninguém fez falar a princesa senão a velha. A velha foi contando tudo e a princesa pediu ao pai que a deixasse ir com a velha.

Foi, chegou ao sítio, sentaram-se em cima da pedra, viram os passarinhos verdes e elas entraram com eles e esconderam-se detrás da porta. Veio o passarinho, banhou-se na bacia, transformou-se num príncipe, chegou à cómoda, abriu o gavetão e disse:

“Fita, pente, penteador, quem me dera ver o meu lindo amor.”

A princesa saiu detrás da porta:

“Aqui estou eu.”

Houve grande festa em palácio, casaram e a velha ficou para aia e com muito dinheiro, e escreveu à filha contando-lhe o passado.

 

Créditos:

Fonte: “Contos populares alemtejanos”, Revista do Minho, 7 (14) 1891, pp. 61-62.. Com o nº XIV no original.

Foto: Por Lauro Sirgado - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=33025997

20.12.21

A fada mouca | Contos Populares Alentejanos

Miluem

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A fada mouca

 

Era uma vez uma velhinha muito mouca, mais mouca que a minha avó!

Esta velhinha foi um dia ao campo buscar um feixe de lenha e encontrou um rapazito com um cesto no braço, mas como era muito curiosa perguntou-lhe:

“Donde vindes, rapazinho?”

“Venho de Inglaterra.”

“Debaixo da terra?! Oh! louvado seja Deus! E o que trazeis nessa cestinha?”

“Um presunto.”

“Um defunto! Oh! louvado seja Deus! E o que trazeis na vossa mão?”

“Uma cana verde.”

“Uma canela dele! Oh! louvado seja Deus!”

O rapaz pôs-se a rir dos disparates que dizia a mouca, pelo que ela ficou muito zangada e lhe disse:

“Visto que te ris de mim, eu te fado para que em toda a tua vida não possas dizer senão:

Cócórócó que estou nos ovos!”

E assim sucedeu!

Até que o rapaz, desgostoso de não poder dizer mais palavra nenhuma, se matou!

E seja Deus louvado,

Está meu conto acabado.

 

Créditos:

Fonte:

Colecção Estudos e documentos 10
António Thomaz Pires
Contos populares alentejanos recolhidos da tradição oral, Coletânea, edição crítica e introdução de Mário F. Lages2.a edição aumentadaLisboa CEPCEP 2004, Universidade Católica portuguesa

Foto: Dreamstime

20.11.21

Campo Maior @ Histórias e Contos - O velho sobreiro

Miluem

O velho sobreiro

 

Passava um dia perto do Rossio

Entre a igreja de São Domingos e a Ginjinha

Quando em meu corpo senti um arrepio

Que mesmo das entranhas da minha alma vinha

 

Foi uma graça de Deus a emoção que senti

Quando de repente o meu olhar pousava

No velho sobreiro ali, mesmo ali

Nesse momento senti que no Alentejo estava

 

Mas ai que para meu espanto Lisboa passa

De canastra à cabeça e chinela no pé

Bandeando a anca que enchia de graça

Benzendo seu rosto num gesto de fé

 

No velho sobreiro pousavam pardais

Trinando cantigas ao som do pregão

A varina corria em direcção ao cais

E o sino da igreja fazia dlão, dlão

 

Dlão, dlão…

 

E eu, camponesa, olhava com espanto

Toda esta visão, todo este bulício

Minha alma poeta se enchia de encanto

E as pessoas passavam sem darem por isso

 

Com vida apressada, perdeu-se o encanto

A vida é vivida em função do dinheiro

As pequenas coisas já não causam espanto

E Lisboa já chora abraçada ao sobreiro

 

Mas Deus, Deus que é amor deu o dom ao poeta

Para ver a vida com outra visão

Com outro sentir, que o faz estar alerta

Para as pequenas coisas que tão belas são.

 

 

Créditos:

nome: Rosa Dias

ano nascimento: 1947

concelho: Campo Maior, distrito: Portalegre

data de recolha: Julho 2012

https://www.memoriamedia.net/index.php/campo-maior/72-expressoes-orais/campo-maior/rosa-dias/2511-o-velho-sobreiro

 

23.10.21

Mora @ Histórias e Contos - Corre, corre cabacinha

Miluem

Corre, corre cabacinha 

Era uma vez uma velhinha. Bem, coitadita, na' tinha mais ninguém, vivia sozinha no meio de uma floresta.

Mas, noutros tempos, tinha tido uma filha. A filha entretanto cresceu, fez-se mulher, fez-se uma senhora, foi pra Lisboa. Lá, arranjou um rapaz pa' namorar e tratou do casamento.

E a velhinha sempre lá a viver na floresta. Um belo dia, chegou-lhe a filha à porta (um grande automóvel, tudo muito preparado) pa' convidar a mãe pò casamento. E disse-lhe a mãe:

– Ó filha! Como é que tu queres que eu vá pò casamento, se eu vivo aqui no meio de uma floresta destas?! Atão, os lobos comem-me no caminho!

Filha – Na' comem! Ó mãe na' tenhas medo, que os lobos na' te comem! Vá!

Bem, assim foi. A velhota lá foi. Chegou assim a um cerrozinho, apareceu um lobo com os dentes arreganhados!

Lobo – Ai, velha! Que eu agora como-te!

A velha, esperta, (as velhas são todas espertas) disse pra ele:

– Olha! Olha lobo, vamos fazer aqui um contrato. Na' me comas! Que eu agora vou ao casamento da minha filha, como lá muita carne e muito bolo e venho de lá mais gorda! Atão, depois tu comes-me.

Lobo – 'Tá bem! – O lobo muito guloso. – 'Tá certo.

Lá foi a velhinha. Ora, um grande casamento: comeu, bebeu, comeu, bebeu... Passou três dias naquela vida... A velha já não parecia a mesma! Nisto aproximou-se a hora de ela se ir embora e começou a chorar! Disse-lhe a filha:

– Ó mãe, tu 'tás a chorar de quê?

Velhinha – Ora filha... Atão eu combinei com o lobo, quando vinha pra cá, que vinha ao teu casamento e agora à volta, pra lá, é que ele me comia que eu 'tava mais gorda! E agora ele 'tá lá.

Filha – Olha, na' tenha medo! Na' há problema. Tome lá esta cabaça(4). Quando for lá quase a chegar, meta-se dentro da cabaça. Você sabe o que é que há-de fazer!

Tal e qual! Quando ia lá a chegar ao cerrozinho lá estava o lobo. A velhota pensou "bem, é aqui que o lobo deve de estar". Lá se enrolou toda dentro da cabacinha, quietinha dentro da cabacinha, e lá foi a cabacinha a rebolar. Parou-a o lobo! Disse o lobo:

– Ó cabacinha! Tu não viste p'aí uma velhinha?!

Cabaça – Eu na' vi cá nem velhinha, nem velhão! Rebola cabacinha, rebola cabação! Leva- -me à minha casinha, leva-me ao meu casão! E tu lobo ficaste aí feito gulosão, que na' meteste o dentão!»

E pronto. Assim o enganou!

 

nome: Maria Augusta, ano nascimento: 1932

freguesia: Mora, concelho: Mora                               

distrito: Évora, data de recolha: 2007

https://www.memoriamedia.net/index.php/maria-augusta

 

27.09.21

Os galegos | Contos Populares Alentejanos

Miluem

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Os galegos

 

Era duma vez uns poucos de galegos e fizeram uma procissão a S. Nicolau, e quando iam no meio da procissão esqueceram-se do nome do santo. 

 

Começaram uns a dizer: 

 

“Será pescada?

Será atum? 

Será bacalhau?” 

 

“Sim, sim, sim, bacalhau, S. Nicolau. 

 

Vá a procissão adiante que já lembrou o nome do santo.” 

 

(Elvas)

 

 

Fonte:

Coleção Estudos e Documentos 10 - António Thomaz Pires

Contos Populares Alentejanos recolhidos da Tradição Oral

Colectânea, edição crítica e introdução de Mário F. Lages

2ª edição aumentada - Lisboa - CEPCEP 2004

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