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As coisas de que eu gosto! e as outras...

Bem Vind' ao meu espaço! Sou uma colectora de momentos e saberes.

As coisas de que eu gosto! e as outras...

25.12.20

É dia de Natal, de Ramalho Ortigão

Crónica Jornalística - 1882

Miluem

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É dia de Natal

 

A cidade amanheceu alegre no céu fresco e azul.

Os carrilhões das igrejas repicam festivamente.

 

As salsicharias, os restaurantes, as pastelarias, ostentam em exposição os seus produtos mais apetitosos: os grandes porcos, de couro nitidamente barbeado, suspensos do teto com a cabeça para baixo; as salsichas e os chouriços de sangue pendentes em bambolim; as cabeças de vitela, de uma palidez linfática, rodeadas de agriões; os perus gordos como ventres de cónegos, com o papo recheado pela respetiva cabidela; as galantines marmoreadas; as louras perdizes postas em pirâmide; as costeletas; as geleias de reflexos cor de topázio; as verduras de salsa picada; os grossos molhos opulentos dos espargos; os bolos do Natal: os fartes, os sonhos, os morgados, as filhós, as queijadas, os christmas-kacks, os puddings, os bombons glacés.

 

E a profusão destas exposições dá às ruas o aspeto culinário da abundância, da plenitude.

Os ramalhetes de violetas, com o seu colarinho feito de duas malvas, estendem-se de todos os lados para as casas dos paletós, e perfumam o ambiente  com  uma  frescura  orvalhada. 

Os  cabazes  das  camélias  cintilam como  grandes  esmaltes. 

 

As  lojas  de  bijutarias  armaram  o  grande  pinheiro  do Natal,  cujas  hastes  desabrocham  em  cartuchos  de  amêndoas,  em  cartonagens douradas,  em  animais  de  quase  todas  as  espécies  recolhidas  na  Arca,  em cabriolets  de  lata,  em  cavalos  de  cartão,  em  palhaços  vermelhos  que  tocam pratos,  e  em  lindas  bonecas  vestidas  de  cetim  com  os  seus  piifs,  os  seus chignoiis e os seus regalos.

 

Lisboa  inteira  passeia  na  vasta  alegria  do  sol. 

Os  homens  trazem  os  seus embrulhos, as mulheres  levam  os  seus filhos  pela  mão.

As  meninas,  vestidas  de  novo,  em  grande  toilette,  frescas  como  lilases,  com os  seus  narizinhos  rosados  pelo  nordeste,  dirigem-se  ao  baile  infantil, organizado  no  salão  de  um  teatro  por  uma  associação  de  senhoras,  em  favor de um  estabelecimento de  beneficência.

 

O  piano,  em  alegres  esfuziadas,  chama  à  quadrilha  as  jovens  damas  de quatro  anos  e  os  pequenos  cavalheiros  seus  pares. 

A  árvore  de  Natal  braceja as  dádivas  encantadoras sobre o grande baile em miniatura...

Ide,  queridos  amiguinhos,  ide  divertir-vos! 

 

Aquele  que  vos  fala  já  foi  em tempo  —  há  bom  tempo!  —  aquilo  que  vós  hoje  sois,  e  teve  também  a  sua festa  inteiramente  desanuviada,  absolutamente  feliz  como  a  vossa. 

A  única diferença  é  que,  nessa  remota  idade  e  no  obscuro  canto  da  província  em  que ele  nasceu,  a  árvore  do  Natal  era  ainda  uma  instituição  desconhecida. 

 

Era  uma terra  bárbara  aquela  em  que  este  pai-avô  veio  à  luz  e  que  tantas  vezes  ele percorreu,  já  periclitante  na  imperial  de  trémulas  e  arrastadas  diligências,  já  a cavalo debaixo de um  amplo capote  de cabeções,  já  a  pé,  só,  com  um  bordão!

 

Ele  conhecia-a  nesse  tempo  como  o  seu  próprio  quarto,  a  essa  terra;  tinha de  cor  o  número  das  covas  no  macadame  das  estradas,  os  buracos  dos  velhos muros  por  onde  rompiam  os  musgos  e  as  madressilvas,  os  brancos campanários  das  igrejas  situadas  no  fundo  dos  vales,  entre  as  nogueiras  e  os carvalhos,  ao  cabo  dos  longos  tapetes  formados  pela  superfície  variegada  dos campos  de  trevo. 

 

Sabia  em  que  casais  se  bebia  o  melhor  leite  nas  manhãs  de Verão,  e  em  que  rios  se  pescavam  à  linha  os  salmões  mais  saborosos  e  as  mais volumosas  trutas. 

 

Constava-lhe  cada  manhã em  que  outeiros  cobertos  de  urze, de  cardos,  de  ásperas  moitas  de  tojo  e  de  espessos  fetos  tinha  ficado  de véspera  a  revoada  das  perdizes. 

 

Conhecia  os  diferentes  vinhos  selvagens,  que se  vendiam  na  sombria  frescura  interior  das  tabernas  recolhidas  nos  cotovelos das  brancas  estradas  cobertas  de  sol,  nos  recostas  das  empinadas  ladeiras tortuosas,  e  nas  desembocaduras  das  longas  pontes  de  madeira  de  pinho.  Sabia  os  nomes  dos  abades.

 

E  ainda  agora,  depois  de  uma  ausência  de bastantes anos,  pensando  nisso  e  fechando os  olhos,  torna  em  espírito  a  ver as viçosas  várzeas,  as  frescas  matas  das  terras  fundas,  sonoras  dos  murmúrios  da água  corrente  na  rega  ou  caindo  nas  levadas  e  nas  azenhas;  a  forte  vegetação dos  milhos  e  dos  castanheiros;  e,  acompanhados  de  um  pequeno  pastor imundo,  a  cavalo  numa  velha  égua  lãzuda,  alguns  poucos  bois  magros  de trabalho  e  de  fadiga  atravessando  lentamente  o  ribeiro,  mugindo  com  saudosa melancolia,  ou  abeberando-se  inclinados  e  humildes  na  frescura  da  corrente.

 

Depois,  nos  terrenos  altos,  os  pinhais,  as  encruzilhadas  das  estradas  com  os seus  cruzeiros  de  granito,  as  caixas  das  esmolas  para  as  almas,  o  tosco  nicho na  forma  de  um  armário  de  cozinha,  talhado  em  arco,  tendo  em  frente  a  sua lanterna  enfumada,  encanastrada  num  a  rede  de  ferro  e  chumbada  ao  alto  do nicho  por  um  gancho;  e,  disseminados  pelos  caminhos  recurvos  e acidentados,  os  pequenos  eirados  seguros  em  esteios  de  pedra  com  os parapeitos  pintados  de  vermelhão;  os  alpendres  dos  ferradores,  onde  os pardais  debicam  nos  beirais  do  telhado;  as  choças  cobertas  de  colmo, eternamente  envoltas  em  fumo,  ao  pé  das  eiras  em  que  se  erguem  as  medas como  altas cabanas pontiagudas.

 

O  objeto  do  culto,  da  admiração,  do  entusiasmo,  do  enlevo  dos  pequenos do  meu  tempo  era  o  velho  presépio,  tão  ingénuo,  tão  profundamente  infantil, tão  cheio de coisas risonhas,  pitorescas,  festivas,  inesperadas.

 

Era  uma  grande  montanha  de  musgo,  salpicada  de  fontes,  de  cascatas,  de pequenos  lagos,  serpenteada  de  estradas  em  ziguezagues  e  de  ribeiros atravessados  de pontes rústicas.

 

Em  baixo,  num  pequeno  tabernáculo,  cercado  de  luzes,  estava  o  divino bambino,  louro,  papudinho,  rosado  como  um  morango,  sorrindo  nas  palhas do  seu  rústico  berço,  ao  bafo  quente  da  benigna  natureza  representada  pela vaca  trabalhadora  e  pacífica  e  pela  mulinha  de  olhar  suave  e  terno. 

 

A  Santa Família  contemplava  em  êxtase  de  amor  o  delicioso  recém-nascido,  enquanto os  pastores,  de  joelhos,  lhe  ofereciam  os  seus  presentes,  as  frutas,  os  frângões, o mel,  os  queijos frescos.

 

A  grande  estrela  de  papel  dourado,  suspensa  do  teto  por  um  retrós invisível,  guiava  os  três  magos,  que  vinham  a  cavalo  descendo  a  encosta  com as  suas  púrpuras  nos  ombros  e  as  suas  coroas  na  cabeça. 

 

Melchior  trazia  o ouro,  Baltasar  a  mirra,  e  Gaspar  vinha  muito  bem  com  o  seu  incenso  dentro de  um  grande  perfumador  de  família,  dos  de  queimar  pelas  casas  a  alfazema com  açúcar ou  as cascas secas  das maçãs camoesas.

Atrás  deles  seguia  a  cristandade  em  peso,  que  se  afigurava  descendo  do mais  alto  do  monte  em  direção  ao  tabernáculo. 

 

Nessa  imensa  romagem  do mais  encantador  anacronismo,  que  variedade  de  efeitos  e  de  contrastes!  Que contentamento!  Que  alegria! Que paz  de alma!  Que  inocência!  Que  bondade! Tudo  bailava  em  chulas  populares,  em  velhas  danças  mouriscas,  em bailados  à  la  moda  ou  à  meia  volta,  em  ingénuas  gaivotas,  em  finos  minuetes de anquinhas e  de bico de  pé  afiambrado.

 

Tudo  ria,  tudo  cantava  nesses  deliciosos  magotes  de  festivais  romeiros  de todas  as  idades,  de  todas  as  profissões,  de  todos  os  países,  de  todos  os tempos! 

 

Os  cegos  tocando  as  suas  sanfonas;  os  pretos  pulando  uma sarabanda;  os  galegos  com  a  sua  gaite-de-fole  dançando  a  munem;  a  saloia  de carapuça  de  bico  e  de  saiote  encarnado,  trazendo  o  cesto  com  ovos;  o  saloio com  o  peru,  com  o  vitelo  ou  com  o  bacorinho  às  costas;  o  águadeiro  com  o seu  barril  novo;  o  ceifeiro  com  a  sua  fouce  e  o  seu  feixe  de  trigo;  o  lenheiro carregando  o  cepo  sagrado  para  a  fogueira  da  Missa  do  Galo;  o  pequeno saboiano  com  a  sua  marmota;  o  tocador  de  realejo  dando  à  manivela  do  seu instrumento;  o  pastor  com  um  borrego  ou  um  chibo  debaixo  do  braço;  o passarinheiro  com  as  suas  esparrelas  e  o  seu  alçapão  com  um  melro  dentro;  a manola  com  o  seu  leque  e  a  sua  mantilha  sevilhana  traçada  na  cinta;  o  maioral tocando  a  guitarra  sentado  no  garrido  albardão  da  sua  mula;  os  gitanos entoando  a  seguidilha;  numerosos  rebanhos,  de  perus,  de  patos,  de  anhos,  de porcos  e  de  cabritos;  e  muitas  personagens,  de  variegados  trajos  exóticos, tangendo  pandeiros,  adufes  e  castanhetas,  como  nos  autos  pastoris,  nos colóquios  e  nos  vilancicos,  antigamente  representados  diante  das  lapinhas  nas catedrais  da  Idade  Média.

 

Alguns  —  os  mais  ricos  presépios  —  tinham  corda  interior  fazendo  piar passarinhos  que  voavam  de  um  lado  para  o  outro,  mexiam  as  asas  e  davam bicadas  nas  fontes  de  vidros,  em  que  caía  uma  água  também  de  vidro,  fingida com  um  cilindro  que  andava  à roda  por efeito de misterioso  maquinismo.

 

Todas  essas  figuras  do  antigo  presépio  da  minha  infância  tinham  uma ingénua  alegria  primitiva,  patriarcal,  como  devia  ser  a  de  David  dançando  na presença  de  Saul. 

 

Dessas  boas  caras  de  páscoas,  algumas  modeladas  por inspirados  artistas  obscuros,  cuja  tradição  se  perdeu,  exalava-se  um  júbilo comunicativo como de  uma  grande aleluia.

 

Um  outro  menino  —  não  o  do  tabernáculo,  que  esse  estava  seguro  ao berço  com  um  parafuso  —,  um  menino  maior,  sobre  uma  toalha  bordada,  era trazido  em  roda  e  recebia  sobre  os  seus  diminutos  pés  polpudos,  saudáveis, rubenescos,  a  enfiada  de  beijos  de  todas  as  pequenas  bocas  inocentes, vermelhas,  afiladas  em  bico,  gulosas  dos  refeguinhos  daquele  pequenino  Deus tão  louro,  tão manso,  tão  lindo!

 

Depois  celebrava-se  a  ceia,  o  mais  solene  banquete  da  família  minhota.  Tinham  vindo  os  filhos,  as  noras,  os  genros,  os  netos. 

 

Acrescentava-se  a  mesa. Punha-se  a  toalha  grande,  os  talheres  de  cerimónia,  os  copos  de  pé,  as  velhas garrafas  douradas. Acendiam  mil  luzes  nos  castiçais  de  prata. 

 

As  criadas,  de roupinhas  novas,  iam  e  vinham  ativamente  com  as  rimas  de  pratos,  contando os  talheres,  partindo o  pão,  colocando a  fruta,  desrolhando as garrafas.

 

Os  que  tinham  chegado  de  longe  nessa  mesma  noite  davam  abraços, recebiam  beijos,  pediam  novidades,  contavam  histórias,  acidentes  da  viagem; os  caminhos  estavam  uns  barrocais  medonhos;  e  falavam  da  saraivada,  da neve,  do  frio  da  noite,  esfregando  as  mãos  de  satisfação  por  se  acharem enxutos,  agasalhados,  confortados,  quentes,  na  expectativa  de  uma  boa  ceia, sentados  no  velho  canapé  da  família. 

 

E o nordeste assobiava pelas fisgas das janelas; ouvia-se ao longe bramir o mar ou zoar a carvalheira, enquanto da cozinha, onde ardia no lar a grande fogueira, chegava num respiro tépido o aroma do vinho quente fervido com mel, com passas de Alicante e com canela.

 

Finalmente o bacalhau guisado, como a brandade da Provença, dava a última fervura, as frituras de abóbora-menina, as rabanadas, as orelhas-deabade tinham saído da frigideira e acabavam de ser empilhadas em pirâmide nas travessas grandes.

 

Uma voz dizia:

— Para a mesa! Para a mesa!

 

Havia o arrastar das cadeiras, o tinir dos copos e dos talheres, o desdobrar dos guardanapos, o fumegar da terrina. Tomava-se o caldo, bebia-se o primeiro copo de vinho, estava-se ombro com ombro, os pés dos de um lado tocavam nos pés do que estavam em frente.

 

Bom aconchego! Belo agasalho! As fisionomias tomavam uma expressão de contentamento, de plenitude.

Que diabo! Exigir mais seria pedir muito.

 

Tudo o que há de mais profundo no coração do homem, o amor, a religião, a pátria, a família, estava tudo aí reunido numa doce paz, não opulenta, mas risonhamente remediada e satisfeita.

 

Não é tudo? Não é.

 

O primeiro dos convivas que tinha o sentimento dessa imperfeição era a velhinha sentada ao centro da mesa.

 

Ela, que para nós representava apenas a avó, tinha sido também a filha, tinha sido a irmã, tinha sido a esposa, tinha sido a mãe ...

No seu pobre coração, quantos lutos sobrepostos, quantas saudades  acumuladas! 

 

Por  isso,  enquanto  os  outros  riam  e  conversavam alegremente,  a  mão  dela  emagrecida  e  enrugada  tremia  de  comoção  ao  tocar no  copo,  e  dos  seus  olhos  cansados  despegavam-se  silenciosamente  duas lágrimas,  que  ela  embebia  no  guardanapo  enquanto  a  sua  boca  procurava sorrir  e titubear palavras  de resignação,  de conforto,  de felicidade.

 

Essas lágrimas  eram  como  a  evocação do  espírito  dos  ausentes  e do  espírito dos  mortos  para  aquele  banquete. 

A  festa  era  então  interrompida  por  silêncios graves,  pensativos,  durante  os  quais  cada  um  se  recolhia  em  si  mesmo  e olhava  um  pouco ao passado e um  pouco ao  futuro.

 

Dos  que  se  tinham  sentado  àquela  mesa,  em  idêntica  noite,  quantos  tinham partido  para  não  voltarem  mais! 

Quantas  lacunas  dentro  dos  últimos  anos! Dentro  de  alguns anos  mais,  quantas  outras!

 

Se  havia,  como  quase  sempre  sucede,  um  filho,  um  neto,  um  irmão  ausente, era  em  volta  da  recordação  dele  que  se  agrupavam  e  fixavam  esses  vagos cuidados  dispersos. 

 

A  mágoa  do  passado,  a  incerteza  do  futuro,  acabava  por aparecer  a  cada  um  sob  a  figura  aventurosa  do  viajante  intrépido  ou  do trabalhador  vigoroso  que  celebrava  aquela  noite  num  país  longínquo  ou  nas águas  do mar.

E  esse  amado  ausente  era  o  conviva  que  cada  um  sentia  mais  perto,  a  essa mesa, junto do seu  coração. 

 

Só nós, as crianças, é que gozávamos nesta festa uma alegria imperturbável e perfeita, porque não tínhamos a compreensão amarga da saudade nem as preocupações incertas do futuro.

Para nós tudo na vida tinha o carácter imutável e eterno.

O destino aparecia-nos ridentemente fixado, como no musgo as alegres figuras do presépio.

Supúnhamos que seriam eternamente lisas as faces da nossa mãe, eternamente negro o bigode do nosso pai, eternamente resignada e compadecida a decrépita figura da nossa avó, toucada nas suas rendas pretas, no fundo da grande poltrona.

Não tínhamos compreendido ainda todo o sentido do Natal.

 

Não nos tinham explicado suficientemente que o louro Menino Jesus que nos sorria no seu bercinho, tão descuidado, tão alegre, no meio do esplendor dos círios e do perfume das violetas, era o mesmo Deus descarnado e lívido, coroado de espinhos, alanceado no coração, pregado na cruz e exposto no altar.

 

Repugnar-nos-ia acreditar, se então no-lo dissessem, que o tenro e suave bambino do presépio, cercado de amores, de cânticos, de festas, de dádivas, de bonitos, cheio de carícias e de beijos, teria um dia de ser um mártir, um herói, um Deus, mas que para isso haveriam de o perseguir como um rebelde, de o torturar como um criminoso, de o justiçar como um bandido, que ele teria de ser esbofeteado, azorragado, traído, que receberia o beijo de Judas, que seria preso entre os seus discípulos no Jardim das Oliveiras, que mandaria embainhar a espada de Pedro para beber o cálice da amargura, que seria levado de Caifás para Pilatos, que seria condenado, que lhe poriam a coroa de espinhos,  que  o  fariam  subir  o  Calvário  sob  o  peso  da  cruz,  que  finalmente  o crucificariam  entre os dois ladrões aos  olhos  da  sua  própria  mãe.

 

Não,  a  vida  não  é  uma  festa  permanente  e  imóvel,  é  uma  evolução constante  e  rude. O  Natal  é  a  festa  das  lágrimas  para  todos  aqueles  para  quem ele  não é  a  festa  da  inexperiência.  E,  todavia,  pensavam  alguns  que era  útil  não deixar  de  a  celebrar. 

 

Que  importa  que  o  número  ou  que  o  nome  dos  convivas varie  em  cada  ano? 

Que  importa  que  alguns  amados  velhos  faltem  ao banquete?  Que  importa  que  nós  mesmos  faltemos  para  o  ano  que  vem  na festa  dos  mais  novos?

 

Esta  noite  de  alegria  para  as  crianças  será  sempre  de  alguma  saudade  para os  adultos. 

Assim  teremos  a  esperança  terna  de  sobreviver,  por  algum  tempo, na  lembrança  dos que amamos  —  uma  boa  vez  ao menos,  de ano  a  ano. 

 

É dia de Natal, de Ramalho Ortigão

Crónica Jornalística - 1882

 

Fonte: Cancioneiro Transmontano 2005
Edição: Santa Casa da Misericórdia de Bragança

Foto: https://pt.wikipedia.org

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