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As coisas de que eu gosto! e as outras...

Bem Vind' ao meu espaço! Sou uma colectora de momentos e saberes.

As coisas de que eu gosto! e as outras...

10.01.21

Coisas, Pequenas Coisas de Fernando Namora

Miluem

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Coisas, Pequenas Coisas

 

Fazer das coisas fracas um poema.

 

Uma árvore está quieta,

murcha, desprezada.

Mas se o poeta a levanta pelos cabelos

e lhe sopra os dedos,

ela volta a empertigar-se, renovada.

E tu, que não sabias o segredo,

perdes a vaidade.

Fora de ti há o mundo

e nele há tudo

que em ti não cabe.

 

Homem, até o barro tem poesia!

Olha as coisas com humildade.

 

Fernando Namora

 

Fonte: https://www.nossapoesia.com

Foto: https://visao.sapo.pt

 

04.01.21

Janeiras de Vitorino Nemésio

Miluem

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Janeiras

 

 

Ó de casa, alta nobreza 

Mandai-nos abrir a porta,

Ponde a toalha na mesa 

Com caldo quente da horta!

 

Tendi, ferrinhos de prata, 

Ao toque desta sanfona!

Trazemos ovos de pata 

Fresquinhos, prà vossa dona.

 

Senhora dona da casa, 

À ilharga do seu Joaquim,

Vermelha como uma brasa 

E alva com um jasmim!

 

Vimos honrar a Jesus

Numas palhinhas deitado:

O candeio está sem luz 

Numa arribana de gado.

 

Mas uma estrela dianteira 

Arde no céu, que regala! 

A palha ficou trigueira,

Os pastorinhos sem fala.

 

Dá-lhe calorzinho a vaca, 

O carvoeiro uma murra,

A velha o que trás na saca,

Seus olhos mansos a burra.

 

Já as janeiras vieram 

Os reis estão a chegar,

Os anos amadureceram:

Estamos para durar!

 

Já lá vem Dom Melchior

Sentado no seu camelo 

Cantar as loas de cor 

Ao cair do caramelo.

 

Ó incenso, mirra e oiro,

Que cheirais e luzis tanto,

Não valeis aquele tesoiro 

Do nosso Menino santo!

 

Abride a porta ao pregrino, 

Que vem de mum longe à neve,

De ver nascer o Menino 

Nas palhinhas do preseve.

 

Acabou-se esta cantiga,

Vamos agora à chacota:

Já enchemos a barroga

Sigamos nossa derrota!

 

Rico vinho, santa broa 

Calça o fraco, veste os nus!

Voltaremos a Lisboa 

Pró ano, querendo Jesus.

 

 

Publicado em Festa Redonda (1950).

Transcrito de Vitorino Nemésio, Obras Completas, vol I – Poesia, INCM, Lisboa, 1989.

 

Fonte: Viciodapoesia.com

Foto: https://www.guiadacidade.pt

31.12.20

Ano Novo | Recomeçar de Miguel Torga

Miluem

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Recomeçar

 

Recomeça…

Se puderes,

Sem angústia e sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro,

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

 

E, nunca saciado,

Vai colhendo

Ilusões sucessivas no pomar

E vendo

Acordado,

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças.

 

Miguel Torga

in Diário XIII,

Coimbra 27 de Dezembro de 1977

 

 

http://alegriabreve47.blogspot.com/2015/01/recomecar.html?m=1

Foto: https://www.comunidadeculturaearte.com

 

30.12.20

Ano Novo | Ano Novo de Fernando Pessoa

Miluem

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Ano Novo

 

Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.

 

Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento

 


Fernando Pessoa

 

Foto: https://blogue.rbe.mec.pt/fernando-pessoa-1968383

Fonte: http://artecult.com/tres-poemas-sobre-o-ano-novo/

 

29.12.20

Ano Novo | Passagem do ano de Carlos Drummond de Andrade

Miluem

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Passagem do ano

 

O último dia do ano

Não é o último dia do tempo.

Outros dias virão

E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.

Beijarás bocas, rasgarás papéis,

Farás viagens e tantas celebrações

De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia

E coral,

Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,

Os irreparáveis uivos

Do lobo, na solidão.

O último dia do tempo

Não é o último dia de tudo.

Fica sempre uma franja de vida

Onde se sentam dois homens.

Um homem e seu contrário,

Uma mulher e seu pé,

Um corpo e sua memória,

Um olho e seu brilho,

Uma voz e seu eco.

E quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso.

Mereceste viver mais um ano.

Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.

Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,

Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,

E de copo na mão

Esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.

O recurso da dança e do grito,

O recurso da bola colorida,

O recurso de Kant e da poesia,

Todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.

O corpo gasto renova-se em espuma.

Todos os sentidos alerta funcionam.

A boca está comendo vida.

A boca está entupida de vida.

A vida escorre da boca,

Lambuza as mãos, a calçada.

A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Foto: Pinterest

Fonte: https://notaterapia.com.br/