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As coisas de que eu gosto! e as outras...

Bem Vind' ao meu espaço! Sou uma colectora de momentos e saberes.

As coisas de que eu gosto! e as outras...

20.12.20

Contos de Natal » O Pai Natal de Pina de Morais

Miluem

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O Pai Natal

 

O Pai Natal andava atarefadíssimo. E compreendia-se muito bem. Tratava-se da viagem à Terra e da distribuição de biliões de presentes a todos os mortais deste heroico planeta. O suor caía-lhe às bagadas e o lenço de Alcobaça que levara da visita do ano anterior, estava todo molhado das contínuas limpezas à sua respeitável calva.

 

O Menino Jesus tolhia-lhe os movimentos, constantemente a mexericar nos brinquedos mais vistosos, que o pobre Menino Jesus também quereria para si. Já lhe tinha dado algumas sapatadas nas mãozinhas, mas isso nenhum resultado deu em benefício da ordem.

 

Gostava de ser pontual; era uma das suas glórias, essa, de em milhares de anos chegar à Terra à meia-noite, ouvir os si nos de todo o planeta tocar festivos e os salmos elevarem se das sombras das catedrais.

 

Continuadamente arredava as barbas imensas com a mão de fortes cordoveias, e pela abertura do gibão vermelho, orlado de branco, procurava o grande relógio de ouro que consultava numa justificada inquietação. As impertinências infantis e adoráveis do Menino não eram nada, não o incomodavam.

 

Havia outros embaraços e, estes sim, de certa importância. É que o Pai Natal era assediado com incríveis pedidos, de uma insistência que lhe fazia perder a bonomia. Imensa gente queria ir com ele.

 

S. Francisco de Assis lamentava-se profundamente, com humildade enternecedora, servindo-se da sua voz mais comovente. Com suavidade, pousando a mão de longos dedos descarnados sobre a manga farta do gibão vermelho do Pai Natal, ia dizendo:

— Sabes lá que saudades eu tenho da Terra!

Aqui, bem vês, a minha alma não tem violências a combater, nem ódios a aplacar. Que queres que eu faça no infinito da bem-aventurança? Não tenho feras a quem arranque os abrolhos, não posso continuar a minha sina de fazer os corações tão puros que se pudessem irmanar todos, como um só coração, para o mundo. Bem sei que não tenho irmão lobo para afagar

— ai de mim! Também não tenho a gratidão infinita dos homens, dos animais e das coisas.

A medo, vagamente esperançado que as suas palavras lhe tivessem tocado na alma, insistiu ciciando:

— Tu podias deixar-me ir!

Bem sabes que quero a minha pobreza, quero vê-la com a mesma alegria do avarento pelo seu ouro. Bem sei que a ordem é terminante, mas a minha graça e a tua podem bem com um pequeno contrabando.

— Deixa-me ir no fundo do saco, o S. Pedro de ti não desconfia

acrescentou inclinando-se ao ouvido do Barbaças, convidando-o à cumplicidade.

 

—  A palavras loucas, orelhas moucas, isso é o que se diz lá na minha terra, lá em Portugal

respondeu o barba branca, impassível, enchendo, apressado, de brinquedos o saco infinito.

 

— Olha, não sejas impiedoso, bem vês, que houve uma grande injustiça que felizmente não creio irremediável, mas isto de não deixar vir os animais para aqui, é imperdoável.

E, com ar desolado, abrindo os braços.

 

— Nem sequer as avezinhas!

Deixa-me ir ver a minha rica bicharada...

 

— Não há filosofia que me faça sair dos meus deveres

volveu o Pai Natal, um pouco agastado. E suspendendo um momento a sua fala para tomar o ar concentrado de quem espevita a memória:

— Já aqui há pouco tempo, coisa de uns mil anos, gastaste uma cera enorme sem resultado aliás, com aquela tua ideia de que no céu a bem-aventurança era um prémio excessivo para tão pequeno sacrifício feito lá em baixo; quase que me ias convencendo, mas desta vez não há pão quente.

—  Está dito, está dito

rematou o Pai Natal terminante.

 

S. Francisco lança mão de mais um apelo, como quem queima o último cartucho. E como se não tivesse ouvido a ordem terminante do Pai Natal, largou com insistência e energia:

— Os homens não me chegaram a entender. Entenderam-me, sim, na sua bondade amada, a irmã Lua, a irmã Água e o irmão Fogo, mas os homens nunca se me entregaram totalmente. E contudo o meu misticismo era mais doce e forte que a mais sólida razão, e abarcava tudo até o próprio infinito. Chegava até aqui onde nos encontramos porque é feito de almas e consciências.

 

O Pai Natal pôs as barbas em riste, o que era sinal da maior impaciência.

 

Porém S. Francisco, sem se dar por achado, continuou:

— Pensas que quero ir fazer milagres? Isso não me interessa, acredita meu amigo. O milagre não chega para resolver o meu problema. O que eu quero, bondoso amigo, é espalhar a minha mística e a minha alegria por todo o mundo. Oh! Era por isso que eu tanto falava às aves como aos homens, às fragas como aos deuses. Tudo tem alma, a alma imensa que dá a luz universal e liga os mundos.

 

O Barbaçanas suspendeu o serviço e, com surpresa do santo, atirou-lhe à queima-roupa:

— Então tu estiveste outro dia ao serão a contar os sofrimentos que te magoaram quando te deu, com o delírio deambulatório, para meteres a eito e só, por umas serranias fora, onde ias deixando a pele... E também encareceste as dores que te afligiram na tua doença e ainda querias voltar para tal peste... Hã ?!

S. Francisco ia a falar, mas o Barbaçanas, rematou em voz mais alta:

— Já sei o que me vais dizer.

— Vais dizer que a carne é um embaraço terrível, que nos diminui e perde, vais dizer que agora desprezarias totalmente a carne... Mas para cá vens de carrinho!

 

São Francisco tem o ar mais doloroso que se pode imaginar. Nos seus olhos cintilam lágrimas amargas e numa voz sombria e ardente, magoada de soluços, disse ainda:

— Peço-te que me acudas, porque de contrário acaba para mim a bem-aventurança. Porque o que me aflige — é esta consciência a clamar dentro de mim, sem se fatigar como um oceano, a clamar imperiosa e irrespondível contra esta quietação, contra esta minha dolorosa inutilidade, contra a minha trágica, condenada e desprezível inércia.

 

O Pai Natal comoveu-se por momentos mas... Nada disse.

 

Em face desta teimosia, quem teria o ousio de insistir? Calado, ali se ficou o S. Francisco, as mãos que as feras não podiam mais lamber carinhosamente, metidas nas largas mangas do hábito sombrio, com que o vestiu El Greco, assistindo triste aos preparativos da viagem.

 

Porém, a bondade infinita com que conseguia meter as mãos nos colmilhos indefesos das feras perdurava no seu coração e, lançando recurso da sua última possibilidade, com uma voz de rosas, foi dizendo, como se fora a monologar.

— É para sofrer ainda que quero ir! As chagas de Cristo que se abriram no meu corpo já me não doem e quero vê-las sangrar de novo!

 

O Pai Natal suspendeu o seu trabalho visivelmente comovido. Mas, de repente, como quem tem uma ideia inesperada, bate na testa com força e exclama:

— E se queres ficar lá em baixo? Hem? Quem é que te arranca outra vez para o céu? Nada! Isso são responsabilidades de mais. Aqui não se pode mentir, como tu sabes, isso seria um cúmulo nestes santos lugares, pensa nisto por amor de Deus!

E rematou inflexível:

— Não me comprometas!

 

Quando ia a meter no saco um comboio, a que nada faltava, locomotiva a trabalhar, passageiros, gares, sinaleiros, etc., ouve-se o Pai Natal resmungar.

— Lá vem outro! E então aquele que é todo efes-e-erres.

 

Era S. Jorge: armadura reluzente, lança primorosa.

 

— Deixa-me ir contigo! Tenho saudades dos dias de batalha. Esta lança é que disse as minhas melhores orações.

— Sabes lá a alegria de esquartejar dragões e, na noite silente, cavalgar no próprio campo de batalha onde o inimigo jaz destroçado para sempre! A Bem-aventurança — disse-lhe baixinho, curvando-se para o ouvido, receoso de que alguém ouvisse não é nada ao lado do triunfo deslumbrante com que a multidão me recebia quando regressava vitorioso no meu ginete de sangue ardente, galopando... Para que quero eu este elmo brilhante, esta viseira inútil e este peitoral recamado de glória e alegorias, onde resvalaram milhares de lanças? — disse o santo, batendo com o guante nas abas do volante, que tocou como um sino. Para quê a minha espada de aço de Livorno?

 

— O S. Francisco tem mais vagar que eu para te responder, vês ainda o que tenho para meter no saco?

e apontou com o braço ilimitados quilómetros de brinquedos, que às braçadas ia engolfando no saco sem fim.

 

S. Jorge manteve-se absorto, envolvido na luz dourada, onde a sua armadura brilhava como fogo.

Parecia pensar. Subitamente, como quem toma uma decisão, puxa o braço do Pai Natal e diz-lhe à orelha:

— Já que me não deixas ir, queria pedir-te um grande favor.

 

— Às tuas ordens! — exclamou o Pai Natal desembaraçado.

 

— Podias trazer o meu retrato que Ticiano fez de uma maneira assombrosa.

— Não há cores mais ricas, nem sonho mais profundo. Avalias a alegria que me daria ao ver o meu cavalo de guerra, nobre como se lhe girasse nas veias sangue azul. Este teu criado cavalgando, nimbado de luz, jovem e amado!

— Que bem ficava aqui tamanha obra de arte! Ficaria a ser o teu escravo para sempre!

 

O Pai Natal passou a mão pela barba branca e, em seguida, cruzando os braços como quem tira satisfações:

— Ora o menino!

— Pensas que nasci ontem?

— Querias meter-me em boa!

— Querias que eu roubasse?

— Essa nem parece tua, a pequenada à espera dos brinquedos e eu pela tua causa às voltas com a polícia!

 

E rematou, com desdém:

— Juízo, meu amigo, juízo!

e batia com o indicador na cara, liquidando enérgico:

— A lei é a lei!

— Já sabes que não vais!

 

O Pai Natal vendo muitos santos da Corte Celestial assistindo impassíveis ao seu trabalho, irritou-se e exclamou, censurando com ironia:

— Mãos à obra, amigos! Ajudem-me!

— Se eu mandasse, vocês tinham de saber quanto custa o suor que se perde a ganhar o pão de cada dia!

 

Os santos começaram logo afanosamente a encher o saco milagroso, e a montanha de brinquedos diminuía a olhos vistos.

 

O S. Roque com aquela solenidade que toda a gente lhe conhecia, aproximou se do Pai Natal e ciciou:

— Estás arranjado! Vem ali a linda Maria Madalena!

 

— Deus me acuda!

— Isto com mulheres é mil vezes pior; o ano passado tive que me zangar a valer.

 

Maria Madalena aproximava-se naquele seu passo divino, tão leve, tão leve, que nem roçava nas tapeçarias, o cabelo negro como a noite, solto em onda que se dispersava nos ombros e depois em catadupa caía descendo das espáduas, vestiu do a cintura e rodando os quadris. O vestido de luar tecido, revelava desde o galho da perna à beleza do seio. De mãos cruzadas e de olhar imenso, belo da ternura humana com que chorou as dores de Jesus, parou junto do homem do gibão, com os lábios finos emudecidos num beijo eterno. O do gibão fez de conta que não era nada com ele e continuou a engolfar a sua preciosa mercadoria, deitando o rabo do olho suspicaz a espiar a visita.

 

Até que, numa voz onde à doçura da vida eterna se misturava ainda o fluxo ardente da paixão terrena, fluiu:

— Caridade sem amor; ofende.

— Os mártires morrem hoje sem compaixão e sem glória. Os crucificados não têm lágrimas ardentes, nem beijos sagrados para lhe caírem como joias sobre os pés doloridos e chagados. Morrem no seio da multidão como num deserto. Não chega nenhum soluçar ao seu ouvido a dizer-lhe amor, nem sequer os embalam como a crianças, as palavras magoadas e exangues que a dor vai esmagando nos meus lábios feridos. Não há linho mais fino que o das minhas tranças, o linho é inerte e nas minhas tranças corre impetuosa a vida da minha alma, que faz esquecer todos os sofrimentos. A cruz do Nazareno era tão alta e os meus pecados levaram-me para tão fundo, que não havia milagre que me deixasse aproximar das chagas das mãos e do rosto divino e sentir o travor do fel que os fariseus lhe tinham deixado nos lábios.

— Mas foi melhor assim, pois foi a derradeira das humildades para uma pecadora, enxugar de rojo aos pés da cruz o sangue divino com as minhas tranças e beijar os seus santíssimos pés.

— Quero ir, ouviste! 

disse a santa inesperadamente e com energia.

 

O Pai Natal, delicadamente, tirou da cabeça o barrete pontiagudo de lã vermelha, gentileza raríssima no Barbaçana e, confuso, desculpou-se. Que não podia ser, que seria um desgosto inconsolável ter naquela idade de ser repreendido, que pensasse bem e que lhe perdoasse.

 

Na imensidade reboavam moldando-se pelo infinito os acordes da 5ª Sinfonia de Beethoven, desdobrando o clamar angustioso do homem no céu imenso, angustioso e trágico, mas ao mesmo tempo heroico na sua afirmação de vida — viver! Oh! Viver mesmo no mistério. Dá vontade de fechar os ouvidos para não sofrer com aquela interrogação mortificada a que ninguém responde e que penso ser um protesto contra a limitação que Deus impôs ao homem. Certas voltas de som parecem erguer o calvário de Apoio... Onde a beleza fosse crucificada... E o som foi-se pouco a pouco perdendo...

 

Santa Maria Madalena retirou-se suavemente como tinha chegado, mas com os olhos cheios de lágrimas.

 

O Pai Natal encolhia os ombros com pena, mas ia resmungando:

— Uma tragédia! Sempre estes incómodos!

 

E, depois, aborrecido, olhando em redor com receio de ser ouvido, exclamou:

— Mas que grandíssimo canudo!

 

Depois, ao longe, um vulto solene, mitrado, as longas vestes do seu hábito caindo majestosas, as longas barbas alvíssimas, o olhar de uma profundidade sem limites, como se abandonasse por momentos o quadro de Vieira Portuense, vem caminhando nimbado de luz, em direção ao burburinho que cerca o Pai Natal.

 

Este, que o declina ainda longe, exclama sentencioso:

— Respeito meus amigos, muito respeito!

— Reparem só quem ali vem — Aurelianus Augustinus — disse com ar superior dos seus conhecimentos de latim.

 

Todos olharam e emudeceram.

 

Santo Agostinho aproveitou este silêncio e disse ao Pai Natal, que tirara o barrete pontiagudo com humildade e interrompera o serviço:

— Ando muito triste

disse o maior doutor da cristandade

— ando muito triste porque o mundo se desligou das virtudes platónicas que criam a vida moral que são a própria vida. Os Estados transformaram-se em máquinas ferozes e atuam como monstros esmagando tudo, triturando tudo implacavelmente, no desprezo total das ideias vivas e eternas que dão alma ao mundo. Com o desprezo da razão, perde-se a lei e a moral, que servem de única estrutura à República das gentes. E depois, num desabafo:

— A consciência e o Estado só podem viver felizes sob a mesma lei moral.

— Compreendes agora como o vasto mundo é triste!

 

As mãos do santo estremeciam e o seu olhar profundo tomou uma amargura tão impressionante, que o Barbaças se comoveu, embora não entendesse o que o santo lhe queria dizer.

Com respeito, continuou a ouvir:

 

— Convidei Platão e Descartes para virem comigo, para nos levares, mas estão descrentes da cruzada que procuro empreender...

— Disseram-me que não valia a pena, o que me magoou. Bem lhes disse que o idealismo e o espiritualismo rolam na tempestade brutal que é a vida de cada um e de milhões, que as almas endurecem e se perdem inexoravelmente, num mar de agrores ilimitado.

Platão ainda me disse:

— Os homens acabarão por me entender e amar

resposta dolorosa como vês.

— O resgate das almas mal começa. É preciso resgatar as almas para que o Estado as não devore. Entretanto devora-lhes a vida.

 

Nesta altura é que o Pai Natal atingiu onde queriam chegar as filosofias e sem perder o respeito, continuando de cabeça descoberta, audacioso, mas sem ocultar de todo a sua rebentina, foi dizendo:

— Divino santo perdoai-me! Mas a viagem é arriscada e a vossa idade merece todos os cuidados. Como vós sabeis, santo e sábio, logo se daria conta da vossa ausência e que havia de ser de mim, meu augusto santo?

 

O Pai Natal convencido de que estava a ganhar a partida, pediu licença para dizer:

— Se me permitis, meu senhor, um conselho de ignorante, rogava de joelhos, que espereis um momento, coisa de mil anos e se então

o que não creio

— ainda não tiver aparecido a tal lei ou razão, ireis comigo, dar-me-eis essa honra.

 

O santo pareceu aquiescer e o Barba Branca recomeçou de gibão arremangado a encher a sacaria. Quando S. Agostinho já ia longe disse para S. Tomás que estava ao lado e ouvira parte da conversa:

— Deus me perdoe, mas não há nada mais simples do que intrujar um sábio. E era com estas que ele queria ir? Estava bem arranjado, bem se vê que não sabe onde se ia meter... Aquilo só por a chaminé como eu!

 

Continuou a encher os sacos e resmungou:

— Estou mas é para aqui a encher-me de pecados por causa destes senhores... Arranjo-a fresca!

 

Já tinha tudo pronto e passava a última inspeção com o olhar, quando S. Francisco de Assis chegou correndo, com um grande saco.

— Que temos — disse o Pai Natal, intrigado — hã?

 

— Já que me dão deixas ir, queria pedir-te para levares esta encomendinha.

 

O Pai Natal relanceou os olhos pelo saco e cofiando a barba:

— Encomendinha lhe chamas tu a essa bizarma!

 

— Toma-lhe o peso

disse o santo confundido com o receio de não lhe fazerem a vontade.

 

O Pai Natal deu o chão ao saco e verificou que pesava tanto como uma pluma.

— É extraordinário, S. Francisco, estou admirado para a minha vida, não pesa nada!

— Olha, S. Francisco, já agora desculpa, mas diz-me o que leva o saco, gostava de saber.

 

S. Francisco, compungido, explicou:

— É muito grande, pois é para deitares à terra inteira essas sementes que levas. Não tens nada que te enganar, porque eu escrevi aqui o que o saco guarda.

E apontou com o dedo longo e marfinado para os grandes caracteres da palavra «Bondade».

 

— Boa ideia, oxalá germine — disse o Barbaçana.

 

Como não havia tempo a perder, pegou na mão do Menino Jesus e meteu-se a caminho com grande inveja da Corte Celestial, que viera em peso ao bota-fora. Acenavam com os lenços enquanto se avistou o Pai Natal, com o Menino a reboque, até dobrar o ramo da parábola no espaço sem fim. Logo as estrelas se afastaram com donaire e a Via Láctea, como passadeira sideral, começou a desdobrar-se diante dos passos do Pai Natal, ajoujado de brinquedos e sorridente de ilimitada felicidade. O Menino Jesus tinha de correr a bom correr pela galáxia fora, para acompanhar o Pai Natal que, finalmente, deixara de responder à infinidade de perguntas que o Menino lhe ia formulando sem descanso.

 

O espetáculo era assombroso. Embora o visse todos os anos, o Pai Natal estacava sempre dominado por este prodígio sem nome. A Terra rolava com uma velocidade incalculável e as grandes cidades com miríades de luzes voltejavam num enxame loiro de endoidecer. A água dos oceanos refletia o céu estrelado, lucilando milhões e milhões de sóis em superfícies imensas que, já de si, eram brilhantes. Os rios arqueavam de prata fundida os continentes como belas cinturas. Um Sol maior, o nosso, de todos os dias, envolvia meia Terra lanceolando-lhe um meridiano fantástico de golpes de luz que se perdiam no infinito.

 

O Menino Jesus espetou o dedinho e perguntou que bola era aquela.

 

O Barbaças, visivelmente arreliado com a dificuldade da resposta, disse-lhe:

— Que há de ser? Um girassol cá do jardim, tu não vês?

 

Tudo isto se passava num silêncio verdadeiramente infinito, irreal. Mundos que se moviam nas trajetórias mais fantásticas, sem contudo perderem o sincronismo no espaço inacreditável e com velocidades astronómicas. Só as sapatorras do Pai Natal faziam, no pasmoso silêncio astral, um barulho dos diabos, que ele não podia remediar.

 

— Esta chiadeira dos borzeguins é que me pode comprometer!

 

O Menino Jesus não deu conta da observação. Pestanejava quando mais cerca, no silêncio eterno, algum cometa passava inundando tudo de uma luz ardente e tão veloz que a vista não o podia acompanhar. A lua branca e serena era a única nota de ternura calma naquela fantasmagoria sem nome. O silêncio transformava-se numa angústia, como se fora a alma inacessível da misteriosa imensidade.

 

Quando chegaram, caíam as doze badaladas na torre dos Clérigos. Quem se afirmasse bem, veria pelos telhados da cidade passar o gibão vermelho do Pai Natal, apressado, levando a reboque o Menino Jesus. De longe o gibão era uma nuvem rosada, que a brisa fosse rolando, como vela de barco, no mar ondulado dos telhados.

 

A alegria do Pai Natal! Ele sabia que os seus presentes realizavam o sonho — o sonho que só a divindade podia milagrosamente tocar — de tantos corações! Para os pequeninos, ao menos, naquele dia dava-lhes a certeza de que não havia sonhos vãos e que a existência é plena quando a um sonho se segue outro sonho, e das cinzas de um se erguem as asas para outro e sempre assim.

 

— É tão barato, afinal — verificava o santo com os seus botões.

 

O saco tinha de tudo: globos brilhantes, bonecos de mil formas, o mais vasto e fantástico jardim zoológico feito de peluches, tecidos e cartolina; comboios e aeroplanos, gramofones e relógios, lanternas mágicas e guizos prateados; pontes e viadutos, móveis de meio palmo e flores de papel; chocolates e caixas de música; polichinelos sempre gentis de cara de alvaiade e pierrots de alma apaixonada e face dolorida; joias de belo ouro, pulseiras e ocarinas; livros com as mais belas histórias do mundo e bailarinas leves como borboletas. E tão barato afinal!

 

O Menino Jesus ajudava como podia, acumulando os sapatos mais pequeninos que eram os da forma do seu pé.

 

Quando chegaram ao Barredo, desceram por uma chaminé a prumo e com dificuldade. O Pai Natal pôs-se a coçar a barba, intrigado, pois não via sapatos, nem presépio, nem árvore do Natal. O fogão, apagado, de tijolos desconjuntados, era como uma chaga. Há muito não queimara lenha. Em pregos, pendurada, roupa pobre e rota e as paredes escorrendo negra humidade.

 

O Pai Natal ficou angustiado, de mãos cheias de brinquedos rutilantes e as longas barbas trémulas de comoção, com tanta miséria. Relanceou os olhos pela pobre quadra, para os abrir desmesuradamente ao dar com um berço feito de duas tábuas em meia lua, onde a roupa desenhava o pequenino volume de um corpo de criança.

 

O Menino Jesus ia a correr para o berço, mas o Pai Natal, pondo o indicador sobre o nariz, disse-lhe baixinho:

— Chiu! Não o acordes!

 

E foi ele, aliviado dos brinquedos, pé ante pé, até junto do berço. Desviou carinhosamente, com mil cuidados, o cobertor velhíssimo que cobria a criança. E apareceu-lhe, linda como os anjos, a figurinha doce de um menino de anéis loiros, profusos em toda a cabeça, invadindo as fontes até se espalharem um pouco pelo rosto, as pálpebras descidas sobre olheiras fundas e a boquinha exangue e impassível. Passa a sua larga mão a afastar o cabelo dourado do pequeno, para se afirmar melhor, e esta encontra a algidez do mármore nas breves feições.

 

A luz amanhecente desenha já os quadros da vidraça, são mais que horas de regresso. Mas o Pai Natal não cessa de soluçar, a alma alanceada por tanta desgraça, caído de rodo sobre o chão.

 

Ouve-se uma vozinha suave mas decidida.

— Fico eu e leva esse menino para o céu!

 

E dizendo isto o Menino Jesus bateu as mãozinhas de alegria e deitou-se no berço.

— Leva-o para o céu, eu fico na Terra de onde nunca devia ter saído.

 

Quando o Pai Natal chegou ao céu, ao abrir o saco, saiu um lindo querubim, batendo as asas brancas, hesitantes como as das aves quando ensaiam voo ao abandonar o ninho.

 

 

Pina de Morais

 

 

Fonte:  Contos de Natal portugueses

Coletânea de Histórias, Textos, Lendas e Poemas de vários autores clássicos portugueses

(Obra sob o domínio público ao abrigo do art.º 31 do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos)

Foto: http://patriapequena.blogspot.com/2018/04/pina-de-morais-defender-patria-de-olhos.html

 

20.12.20

João Pina de Morais, Escritor, jornalista, político e militar

Miluem

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João Pina de Morais, 1889-1953

Escritor, jornalista, político e militar

 

 

João Pina de Morais nasceu a 6 de Janeiro de 1889 na freguesia de Valdigem, concelho de Lamego, distrito de Viseu. Ainda jovem, estudou no Colégio de Lamego e, na prossecução dos estudos, frequentou a Academia Politécnica do Porto onde, em 1911, concluiu o Curso Preparatório para a Escola do Exército na arma da Infantaria.

Tenente_João_Pina_de_Moraes_-_Ilustração_Portug

No mesmo ano de 1911 frequentou a Escola de Guerra e, posteriormente, assentou praça em Vila Real, no Regimento de Infantaria 13. Alguns anos mais tarde, em 1917, foi incorporado no Corpo Expedicionário Português, tendo participado na I Guerra Mundial. No regresso desta, em 1919, foi transferido de Vila Real para o Regimento de Metralhas no Porto, onde lutou ativamente contra a investida monárquica de Paiva Couceiro.

Ainda em 1919, a sua amizade por Leonardo Coimbra incitou-o a inscrever-se como voluntário na recém criada Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde frequentou o curso de Ciências Filosóficas.

 

Em 1922 foi eleito deputado, depois de uma tentativa falhada no ano anterior. A sua vida política ficou marcada pela ação contestatária em prol dos mais desfavorecidos. Em 1924 aderiu ao Partido Republicano Português, do qual acabou por ser expulso devido a incompatibilidades políticas com o ideário do partido.

Em 1926, após o golpe militar do General Gomes da Costa, participou ativamente no processo contra-revolucionário, razão pela qual foi obrigado a exilar-se entre os anos de 1927 e 1932. O regresso a Portugal após este episódio, e devido à ditadura vigente, foi marcado por uma ausência literária que havia de durar cerca de 20 anos.

 

Enquanto escritor, a vida de Pina de Morais ficou também marcada pela sua produção literária. A partir de 1917 colaborou ativamente com o jornal A Democracia; as crónicas que escreveu para este jornal resultaram no seu primeiro livro, Ânfora Partida (1917). Mais tarde, em 1919, regressado da guerra, lançou o seu segundo livro, Ao Parapeito, onde descreveu as vicissitudes da guerra vividas na pele de homens comuns, com medos, fragilidades e receios próprios da natureza humana. Na senda de Ao Parapeito, lançou, ainda, O Soldado-Saudade na Grande Guerra, em 1921.

Um ano mais tarde, com a publicação de A Paixão do Maestro (1922), apresentou pela primeira vez a temática regionalista do seu Douro natal; este livro marcou ainda a transição ideológica do escritor que abandonou a estética saudosista e adotou o naturalismo. Os inícios da década de vinte marcaram, ainda, a colaboração literária de Pina de Morais com os grupos culturais da Seara Nova e da Renascença Portuguesa.

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Após um interregno de vinte anos, em 1942, Pina de Morais publicou o seu livro mais consagrado, Sangue Plebeu. É um conjunto de novelas que se distingue pelo seu realismo e veracidade, misturados com uma profunda humanidade e riqueza pictóricas. Já em 1949, publicou o seu último livro, Vidas e Sombras, que narra as vicissitudes da natureza humana numa linguagem rica e ilustrativa.

 

No início de 1950 foi vítima de um acidente vascular cerebral que o deixou física e intelectualmente incapacitado. Os anos que se seguiram foram marcados pela degradação do seu estado de saúde. Morreu no dia 29 de Janeiro de 1953, vítima de mais um acidente cardio-vascular.

 

Texto de 2008 de

Tiago Santos Reigada

 

Fonte: https://sigarra.up.pt

Fotos: https://escritoresanorte.pt / Wikipédia

20.12.20

# À moda de Cá # A Sopa Dourada ✓ do Alentejo

Miluem

Sopa-Dourada-Alentejo.jpg

  • Sopa Dourada do Alentejo


Ingredientes:

 

10 gemas
100 g de pão frito (em pequenos cubos)
100 g miolo de amêndoa
150 g de doce de chila
300 ml de água
500 g de açúcar
canela em pó p/ polvilhar


Confeção:

 

Leve o açúcar a ferver com a água durante 10 minutos.

Retire a calda do lume e envolva nela o doce de chila, levando novamente a levantar fervura.

Já fora do lume, adicione o miolo de amêndoa e ponha a ferver durante 3 minutos. Deixe arrefecer um pouco.

Envolva preparado de amêndoa e chila nas gemas e mexa bem.

Leve ao lume, numa panela de barro, com o pão, mexendo até ficar consistente.

Coloque num prato de servir e salpique ou polvilhe com canela em pó. Sirva o doce depois de frio.


Dica:
Pode guardar as claras que não usou nesta receita, num recipiente de plástico, no congelador.
Conservam-se durante cerca de 6 meses e, para as utilizar, basta descongelá-las normalmente.

 

https://www.docesregionais.com/sopa-dourada-alentejo/

 

20.12.20

# À moda de Cá # A Sopa Dourada ✓ do Ribatejo

Miluem

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Sopa dourada do Ribatejo

 

Ingredientes:

2 papos-secos duros

250 ml de água

20 gemas

25 g de margarina

500 g de açúcar

raspa de ¼ de limão

canela p/ polvilhar

 

Confeção:

-Leve o açúcar ao lume com a água e deixar ferver até atingir o ponto de pasta (a calda escorre da colher, deixando uma leve camada pegada).

-Retire do lume, junte a margarina, a raspa de limão e o pão cortado aos cubos.

-Mexa com uma colher de pau para amolecer o pão e junte as gemas, previamente batidas.

-Leve o preparado ao lume, mexendo sempre e até levantar fervura, para cozer as gemas.

-Coloque a sopa dourada num prato grande e polvilhe com canela.

 

Nota:

Papos-secos é a designação regional das carcaças.

 

https://www.docesregionais.com/sopa-dourada-ribatejo/

 

20.12.20

# À moda de Cá # A Sopa Dourada ✓ de Vila do Conde

Miluem

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Sopa dourada de Vila do Conde

 

Ingredientes

 

750 g de açúcar

250 ml de água

250 g de doce de chila

150 g de pão de ló cortado em fatias finas

125 g de amêndoas peladas e raladas

40 g de cidrão picado

12 gemas

2 colheres de sopa de água de flores de laranjeira

1 colher de chá de canela

 

Modo de Preparação

– Com o açúcar e a água, faça uma calda em ponto de pérola.

– Quando atingir o ponto, retire a calda do lume e junte a água de flor de laranjeira.

– Passe as fatias de pão de ló pela calda e deixe escorrer numa grelha.

– Leve o açúcar novamente ao lume e deixe ferver até obter ponto de estrada.

– Junte o cidrão e o doce de chila e deixe ferver um pouco.

– Acrescente a amêndoa, deixe ferver mais um pouco e retire para amornar.

– Adicione um pouco do preparado às gemas, ligeiramente batidas, mexa e junte o restante.

– Leve ao lume, mexendo sempre.

– Coloque as fatias de pão de ló numa travessa, cubra-as com o doce e polvilhe com canela.

 

https://ncultura.pt/docaria-conventual-sopa-dourada/

 

20.12.20

Arroz Doce Vegan

Miluem

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Arroz Doce Vegan

 

Ingredientes 

(para uma travessa grande)

250g de arroz carolino

750mL de água quente

1 pitada de sal

Casca de 1 limão médio (cortada muito rente para não ter a parte branca)

1 pau de canela

1 L de leite de soja

250g de açúcar (usei amarelo)

Raspa de 1 limão médio

Canela em pó a gosto

 

Como preparar

-Passe o arroz por água e coloque numa panela grande com a água, o sal, o pau de canela e a casca de limão.

-Leve a lume médio e deixe a água evaporar.

-Quando a água tiver desaparecido (cuidado para o arroz não pegar) coloque o leite de soja e mexa bem.

-Baixe ligeiramente o lume e deixe fervilhar, mexendo com alguma regularidade para que não se forme uma película por cima do arroz (quase como se fosse uma nata).

-Acrescente o açúcar e não pare de mexer para não agarrar, até que esteja cremoso (se estiver um pouco líquido não faz mal porque ao arrefecer ele vai acabar por secar).

-Quando estiver cremoso apague o lume e junte a raspa de limão.

-Verta para uma travessa, deixe arrefecer e polvilhe com canela a gosto.

 

Nota: Se quiser o tom amarelo que por vezes o arroz doce tem, use uma pitada de açafrão da india em pó para o efeito.

 

https://notguiltypleasure.com/arroz-doce-vegan/

 

20.12.20

Leite Creme (receita para diabéticos)

APDP – Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal

Miluem

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Leite Creme

Ingredientes

(5 Pessoas)

0,5 l de leite magro

3 gemas

1 colher de sopa rasa de farinha maizena

2 colheres de sopa rasas de adoçante artificial (variável conforme o gosto)

2 tiras de casca de limão

 

Modo de preparação

Leve ao lume o leite com as cascas de limão até ferver.

Deixe arrefecer um pouco e junte-lhe a farinha e o adoçante.

Leve novamente ao lume, mexendo sempre até engrossar.

Retire do lume e junte as gemas bem batidas, previamente misturadas com um pouco de leite frio.

Leve novamente a lume muito fraco para engrossar um pouco, mas sem deixar levantar fervura.

Depois de frio, leve ao frigorífico e sirva fresco.

Pode polvilhar-se com canela.

 

https://apdp.pt/receitas/leite-creme/

Foto: https://www.receitasnarede.com / marianareceitasparaafelicidade.blogspot.com