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As coisas de que eu gosto! e as outras...

Bem-vind' ao meu espaço! Sou uma colectora de momentos e saberes.

As coisas de que eu gosto! e as outras...

12.12.20

Conto em Mirandês – L diabro i la bóbeda

O diabo e a abóbora

Miluem

Línguas Oficias de Portugal:

 

- Português,

- Mirandês,

- Lingua Gestual portuguesa.

 

 

 

Mirandês – L diabro i la bóbeda

 


Ua beç l diabro, bestido de probe, fui-se a pedir smola an casa dun rico. Batiu a la puôrta i ben la criada i dixo-le al probe que antrasse. Era no berano i fazie muita calor.

 

Preguntou-le al probe se querie caldo i el dixo que si.

 

Trouxo-le anton ua palanganada de caldo de bóbeda, mas staba mui caliênte i l diabro a la pormeira colharada que metiu na boca, scaldou-se i dou un berro.

 

Biêno anton la criada abaixo i preguntou-le quei tenie. I l diabro arrespundiu:

 

– Oh minha senhora, o caldo sta mui caliênte.

 

– Oh! isso não é do caldo é da bóbeda! O caldo de abóbora queima sempre, arrespondiu la criada.

 

– Anton dá-me uma para o inverno, que eu tenho pouca roupa, e é para me aquecer!… arrespondiu l diabro.

Bai anton la criada dá-le ua bóbeda al probe…

 

Alhá se bai l diabro todo cuntento, cun sue bóbeda pal eimbiêrno.

 

Guardou-la mui guardada, antre uas silbas, porque l diabro ni ten casa.

 

Quando biêno anton l eimbiêrno, ampeça-te un die a fazer friu i a gilar cun toda la fuôrça, i apuis atrás de la gilada biêno ua nebada mui grande, mui grande — de siête quartas.

 

Lhembrou-se l diabro anton de la bóbeda que tenie guardada antre las silbas, alhá nas Peinhas-Negras i fui-se alhá cheno de friu a meter ls pies na bóbeda.

 

Cunsante metiu ls pies na bóbeda, pa ls calcer, dou un berro i diç assi:

 

Ora esta! Cuidaba you que era tan spiêrto i deixei-me anganhar dua bóbeda!…

 

I acabou-se.

 

 

 

O diabo e a abóbora

Uma vez o diabo, vestido de pobre, foi pedir esmola a casa de um rico. Bateu a porta e veio a criada que disse ao pobre que entrasse. Era no verão e fazia muito calor.

Perguntou ao pobre se queria sopa e ele disse que sim.

Trouxe-lhe então uma malga de sopa de abóbora, mas estava muito quente e o diabo na primeira colherada que meteu na boca, queimou-se e deu um grito.

Veio então a criada ao andar de baixo e perguntou-lhe o que tinha. E o diabo respondeu:

– Oh minha senhora, a sopa está muito quente.

– Oh! Isso não é o da sopa é da abóbora! A sopa de abóbora queima sempre respondeu a ciada.

– Então dá-me uma para o inverno, que eu tenho pouca roupa, e é para me aquecer!… respondeu o diabo.

Vai então a criada e dá uma abóbora ao pobre…

E lá se vai o diabo todo contente, com a abóbora para o Inverno.

Guardou-a muito bem guardada, entre umas silvas, porque o diabo não tem casa.

Quando veio o Inverno, começou a fazer frio e a gear com toda a força, e depois da geada veio uma nevada muito grande, mesmo muito grande.

Lembrou-se o diabo então da abóbora que tinha guardado atrás das silvas, lá nas Penhas-Negras e foi-se lá cheio de frio para meter os pés na abóbora.

Consoante meteu os pés na abóbora, para os aquecer, deu um grito e disse assim:

Ora esta! Pensava eu que era tão esperto e deixei-me enganar por uma abóbora!…

E acabou-se.

 

Fonte:  https://mirandadodouro.com.pt/mirandes-l-diabro-i-la-bobeda/

Foto: https://lifestyle.sapo.pt/saude

 

12.12.20

Agarez @ Lendas de Portugal - A povoação de Agarez

Miluem

 

A povoação de Agarez

 


Agarez é uma risonha e soalheira aldeia, alcandorada nas faldas da Serra do Alvão, a oito quilómetros, aproximadamente, de Vila Real.

Foi notável pelo artesanato do linho que os seus moradores cultivavam, teciam e bordavam primorosamente.

 


A imaginação que ajudou a criar os caprichosos desenhos dos seus bordados ajudou também a criar a curiosa lenda que nos explica a sua génese.


Em tempos muito remotos, no mesmo lugar em que se encontra o actual povo de Agarez, havia um outro chamado Aragonês, nome que lhe fora dado pelos seus fundadores, originários do Reino de Aragão.


Quando estes lá chegaram, construíram as primeiras casas e começaram a surribar as terras arenosas e a cultivar o milho que era o prato forte da sua alimentação.


Um dia, no decorrer desta faina, encontraram, com espanto e alegria, um largo filão de oiro que parecia não ter fim.


Abandonaram logo os trabalhos agrícolas para se entregarem, com avidez, à exploração do precioso metal que iam amontoando nos canastros do milho.


Depois de terem enchido os canastros, entenderam que era muito arriscado guardar ali tão valioso tesoiro e decidiram levá-lo para a serra e escondê-lo debaixo da areia.


Fizeram, para isso, grandes dunas, com galerias interiores, e trataram de o transportar para lá em carros de bois.


Quando andavam naquela freima, passou lá o Diabo que, ouvindo o estridente chiar dos carros, se aproximou, curioso, e parou, agachado atrás dos arbustos.


Arregalou bem os olhos e pôs-se à escuta:


 - E se alguém descobre o oiro? — pergunta um.
 

 - O Diabo seja surdo — respondem os outros em coro.


 - E se alguma enxurrada leva a areia? — lembra outro.
 

 - Cruzes, Canhoto, vociferam os restantes.
 

 - Não, se Deus quiser, não vai acontecer nada disto — concordaram todos.
 

Neste comenos, um dos sacos rompeu-se e as pepitas espalharam-se pela encosta.


 - Rais part’ó Diabo! — praguejou alguém.
 

Ao ouvir isto, o Diabo afinou, perdeu a paciência e não quis ouvir mais.


Furioso, jurou vingar-se daqueles títeres desprezíveis que o infernizavam com alcunhas e pragas, e, ainda por cima, eram cristãos.


A espumar de raiva, deitando lume pelos olhos, com o rabo entre as pernas, esgueirou-se, sorrateiramente, para não ser notado, a cogitar na maneira de pôr em prática o seu propósito de vingança.


- Haviam de pagar, e com língua de palmo, o atrevimento, ou ele deixaria de ser Diabo.


Então, lembrou-se de que, lá para os lados de Penaguião, havia uma terra chamada Mafómedes, cujos habitantes seguiam a lei de Mafoma e eram, por isso, inimigos figadais dos cristãos.


Estugou o passo e para lá se dirigiu, sem perda de tempo.


Com a promessa de lhes entregar um fabuloso tesoiro, facilmente convenceu os Mouros a acompanhá-lo.


Com o Diabo na dianteira, armados até aos dentes, transpuseram, pela calada da noite, os desfiladeiros do Marão e chegaram a Aragonês, antes do dealbar, quando os Aragoneses dormiam, ainda, a sono solto.


Sem encontrar resistência, mataram todos os cristãos e destruíram-lhes todas as casas.


Ao romper da manhã, dirigiram-se para o local das dunas à procura do oiro escondido.


Mas, quando começaram a revolver a areia que o cobria, um forte abalo sacudiu a encosta e fez rolar, lá do alto do Alvão, uma cordilheira de penedos que os esmagaram e soterraram, com armas e bagagens.


Daquela hecatombe, escapou apenas o Diabo, que deu às de Vila Diogo, sem mais aquelas, e um casal mouro que aí se fixou e reconstruiu a povoação à qual deu o nome de Agarez, em memória da sua ascendente Agar, a famosa escrava de Abraão, que deu origem aos Agarenos, seus correligionários.


Os habitantes da nova povoação passaram a dedicar-se à cultura do linho com o qual teciam e bordavam maravilhosos lençóis, cobertas e toalhas, uma arte que os tornou conhecidos e que ainda hoje perdura, embora em menor escala.


É de lá que vêm as cobiçadas peças de linho que embelezam e valorizam a tradicional feira de São Pedro, a vinte e nove de Junho, em Vila Real.


É esse o seu oiro verdadeiro, porque o outro, esse lá continua, inacessível, debaixo dos impenetráveis penedos, bem guardado pelo Génio da Montanha!

 

Source: FERREIRA, Joaquim Alves Lendas e Contos Infantis Vila Real, Edição do Autor, 1999 , p.104-106 - Place of collection: VILA REAL, VILA REAL - Narrative - When: 20 Century, 90s - Belief: Unsure / Uncommitted - Classifications

 

Fotos: https://pt.wikiloc.com/trilhas-trekking/trilho-das-cinco-aldeias-do-alvao