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As coisas de que eu gosto! e as outras...

Bem-vind' ao meu espaço! Sou uma colectora de momentos e saberes.

As coisas de que eu gosto! e as outras...

26.04.20

Batalha @ Lendas de Portugal - Lenda de N.Sra.do Caminho

Miluem

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Lenda de Nossa Senhora do Caminho

 

 

A lenda da Sr.ª do Caminho prende-se com a Capela que, ainda hoje, existe na Vila da Batalha e que pegava ao muro da cerca conventual dos frades dominicanos.

 

Parece que, um belo dia, um frade dominicano que ia a caminho do campo, para mais um dia de trabalho, viu uma imagem de Nossa Senhora numa curva do caminho. Resolveu recolhe-la e levá-la ao Prior.

 

Entenderam então que, deviam de colocar a imagem na igreja, num nicho preparado para ela.

 

No dia seguinte, preparava-se o frade para fazer o seu caminho habitual, quando viu, novamente, o que parecia ser a mesma imagem do dia anterior, exatamente no mesmo sítio onde a tinha visto pela primeira vez.

 

Regressou ao convento e, levando-a mais uma vez ao Prior, este resolve fechá-la a sete chaves.

 

Ao terceiro dia, volta o frade à sua labuta e, para seu espanto, lá estava a imagem que teimava em aparecer no mesmo local onde tinha sido encontrada das outras vezes.

 

Desta feita, resolve o frade voltar ao convento e, quando conta ao Prior o sucedido, este resolve fazer uma pequena capelinha com um nicho para albergar a imagem exatamente no local onde esta tinha aparecido.

 

Lenda e Foto:  http://www.mosteirobatalha.gov.pt

 

 

20.04.20

Coimbra @ Lendas de Portugal - Lenda das chaves do Castelo de Coimbra

Miluem

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"Ilustris civitatis Conimbriae in Lusitania" ("Civitates orbis terrarum", c. 1598).
Castelo de Coimbra - Wilipédia

 

Lenda das chaves do Castelo de Coimbra

 

Encostado à janela da sua alcova nos paços de Coimbra, D. Sancho IIolha sem ver o espaço que a noite toldou.

 

Está realmente escuro. Muito escuro. Negro e frio o ambiente lá fora. Dentro dos paços de Coimbra, porém, não sente menos frio o rei português. Tão acabrunhado se encontra, que nem dá pela presença de sua esposa, D. Mécia Lopes. Ela caminha para ele, esplendente de beleza e graça. Tem um leve trejeito ao vê-lo inclinado para o exterior, como se quisesse perguntar à noite escura a razão de lhe quererem roubar o que de legítimo lhe pertence — o seu trono! Como o rei continua envolto nos seus tristes pensamentos, é ela quem fala: 


— Senhor! Esqueceis-vos que é tempo de descansarmos? 


Ele volta-se, apanhado de surpresa. Ela sorri-lhe. 


— Então? Que pensais com tanto afinco? 


O rei meneia a cabeça. A sua voz soa cansada: 


— Acaso ignorais o que me preocupa? A guerra civil dará cabo dos meus nervos! 


A rainha faz um trejeito desdenhoso. 


— Que ironia a vossa, Senhor! Uma guerra civil não poderá amachucar-vos mais do que as outras em que vos empenhastes com os Mouros… 


Suspirando, o rei confessa: 


— Sim, minha querida Mécia! Esta guerra civil que meu irmão ateou no reino é bem mais dolorosa para mim. É certo que tenho bons cavaleiros e o povo do meu lado. Mas os outros… porque preferem Afonso? 


A rainha encolheu os ombros. 


— Perguntai-lhes!… 


Ele enerva-se. 


— Mécia! Vós não sofreis a minha dor! E bem sabeis o que fizeram para nos separar. Eu resisti sempre… sempre, Mécia! 


A rainha senta-se, galante. 


— Ora, Senhor! Vosso irmão não deseja que tenhais filhos, para que ele suba normalmente ao trono… que há muito cobiça! 


— Mas não foram só os partidários de meu irmão que intentararam separar-nos. 


— Não? 


— Bem o sabeis… 


— Dizei nomes, Senhor! 


— D. Gil Martins, por exemplo… 


— Mais… 


— D. Martim de Freitas, alcaide deste Castelo de Coimbra… 


Ela ri, um tanto nervosa. 


— De que vos ris, Senhora? 


— Do próprio destino! Dizei a Martim de Freitas e a Gil Martins… que descansem. Eu não poderei perturbar-vos por muito tempo… 


O rei alarma-se: 


— Que dizeis? 


— Bem vedes… A guerra civil não pode durar muito… e vosso irmão tem o clero com ele… Ganhará a luta e o trono… 


— Calai-vos, Senhora! 


A rainha levanta-se e dirige-se altiva para o leito. 


— Tendes razão. Calemo-nos, os dois. É tempo de dormir… 


E a jovem D. Mécia dispõe-se a adormecer. Sem mais uma palavra, el-rei segue-a. E dentro de pouco tempo adormece também.


 
A noite ia já alta quando D. Sancho II de Portugal acordou. Algo despertara que não fora um alerta da sua consciência, mas um ruído forte mesmo a seu lado. Tentou acender uma luz. O leito onde D. Mécia se deitara poucas horas antes estava vazio. Havia roupa interior dispersa pelo chão. E no pátio, em baixo, as patas dos cavalos batiam num galope. Não restavam dúvidas ao rei: D. Mécia fora raptada! 


Vestindo-se à pressa, D. Sancho acordou os fidalgos da sua casa, e com meia dúzia deles correu no encalço dos fugitivos. Conseguiu descobrir-lhes a pista: seguiam a caminho da forte vila de Ourém, já na posse do conde de Bolonha, seu irmão. Mas, ao chegarem junto do castelo, os raptores estavam já a salvo. Enfurecido, o rei gritou que lhe devolvessem a esposa. Respondeu-lhe uma gargalhada geral. Morderam os lábios, com raiva, os fidalgos amigos do rei. Um deles gritou:


— Poremos tudo a raso!


Como resposta surgiu uma saraivada de flechas e pedradas, que por pouco não feria Gil Martins. O rei mandou então fazer alto. 


— Esperai, senhores! Não podemos, tal como estamos, submetermo-nos a mais ultrajes! Voltemos para trás e preparemo-nos a valer para uma guerra! Podem roubar-me o trono… mas não me roubarão a esposa sem que os moleste! 


Gil Martins levou a mão à espada. 


— Senhor! Por vós e Portugal, sim! Mas por vossa esposa não levantarei a minha espada! 


O rei assombrou-se. 


— Que dizeis, Gil Martins? 


— Perdoai, senhor! Mas acreditais que os homens afectos a vosso irmão Afonso entravam nos paços, iam à vossa alcova, retiravam de lá, à força, vossa esposa e só à saída um ruído suspeito vos acordava? 


O rei gritou: 


— Explicai-vos melhor, Gil Martins! 


Submisso mas firme, o fidalgo concluiu: 


— Senhor! Vossa esposa está em Ourém, onde possui terras que obedecem ao conde de Bolonha. E essas terras continuam pacíficas. Acreditais que se rouba do leito conjugal uma mulher sem que o esposo dê pela luta que ela necessariamente travaria? 


— Insinuais… pois… 


— Que ela não foi raptada, mas fugiu! 


El-rei levou uma das mãos à fronte. 


— Fugir?… Mécia fugir? Para quê? Comigo seria rainha… 


— Por quanto tempo, Senhor? 


O rei cerrou os dentes. Depois, montando no seu cavalo, ordenou: 


—Vamos, senhores! E que este facto não seja alastrado! 


No silêncio da noite que morria, estralejava o tropel duma cavalgada. Meia dúzia de cavaleiros, regressando de uma missão falhada, cabisbaixos, entregues aos seus tumultuosos pensamentos. Mas quando a manhã rompeu e veio iluminar as terras de Coimbra, já fidalgos e povo sussurravam a medo, receosos do próprio eco das suas palavras em seus corações: 


— A rainha deixou el-rei! 


Alguns, melhor intencionados, diziam então: 


— O conde de Bolonha mandou raptar D. Mécia… El-rei está sozinho… Vai ser o fim! 

 

Reacendeu-se a guerra civil, com mais intensidade. O reino estava dividido. D. Afonso conseguira partidários para a sua causa. E o trono começou a tremer sob os pés de D. Sancho II. Tomando consciência de que, sozinho, não teria forças para vencer o irmão, o rei recorreu a Castela. E o infante D. Afonso, filho de D. Fernando III, recebeu D. Sancho II em Toledo e aceitou a sua proposta de ajuda em troca de terras e rendas. Logo se juntou gente valente e guerreira à frente da qual capitaneavam alguns fidalgos mais acreditados em Leão e Castela. Com impaciência esperaram o dia marcado para marcharem sobre Portugal. E quando esse dia chegou, o vistoso exército espanhol rompeu com arrogância sobre terras portuguesas. 


D. Afonso, conde de Bolonha, receou essa ajuda de terra estrangeira. A força com que contava não estava prevista para combater senão os próprios compatriotas. Assim, imaginou logo um plano para suster esse avanço. Voltou-se para a Igreja e conferenciou com o bispo de Braga e eleito de Coimbra para que este recrutasse os meios de impedir o avanço dos amigos de D. Sancho. Pelos meios de que dispunham, os bispos tentaram o entrave e mandaram então uma carta capaz de afligir os de Castela. Porém o infante D. Afonso, filho do rei Fernando achou que essa carta constituía uma violência e queixou-se, por sua vez ao papa. Mas o que é certo é que D. Sancho II e o infante de Castela, que tinham avançado até Leiria, foram obrigados pela força das circunstâncias a retroceder para Espanha. 


Chegado a Toledo, o rei sentiu chegar o seu fim. D. Gil Martins, porém, animava-o: 


— Senhor! Podeis viver em Portugal, se quiserdes! 


D. Sancho meneou a cabeça. 


— Não, amigo! Não quero residir sob o jugo de um irmão que me tirou trono, mulher, amigos… 


D. Gil Martins olhou o rei deposto com angústia. 


— Meu senhor! Os amigos continuam a vosso lado! 


Um sorriso triste foi a resposta do ex-monarca. Mas o cavaleiro português continuou, com veemência: 


— Acreditai, senhor! 


D. Sancho fez com a cabeça um cansado sinal de afirmação. Suspirou fundo e disse por fim: 


— Tendes razão, D. Gil. Vós continuais a meu lado… 


— Não falo de mim, Senhor, pois a minha presença aqui é demais eloquente. Mas falo de outros. 


— Que outros? 


— Dos alcaides de Guimarães, Óbidos, do Castelo de Faria e o de Celorico. O que eles lutaram, senhor! 


— E o de Leiria? 


— Oh, meu Senhor! Não contam agora os fracos nem os traidores, mas sim aqueles que vos trazem no coração!

 

Olhai a façanha de Martins de Freitas, que até vosso irmão lhe perdoou… 


Novo suspiro do rei deposto. 


— Sim, é certo, não devo ser ingrato! Mas bem vedes, D. Gil, que já nada me prende a este mundo. Falhei! 


Gil Martins sentiu que a indignação o tomava de novo. 


— Senhor! Por amor de Deus não façais semelhante afirmação! Bem sabeis porque venceu o conde de Bolonha.

Sabeis as armas de que se serviu e as promessas que fez… 


— Bem sei. Mas achais que não fui generoso para com o clero? 


— Fostes. Mas alguns dos cavaleiros a quem fizestes mercês abusaram da vossa bondade. Isso serviu para depor contra vós… 


Silenciou O rei. Respeitou esse silêncio o fidalgo D. Gil Martins. E até a tarde, que corria morna, pediu à brisa mais suavidade no seu andar para que não fosse incomodado em seus pensamentos o ex-rei de Portugal. 

 

O frio era intenso. Nos caminhos, uma chuva miudinha ficava em lama ao misturar-se com o pó. O céu estava cor de chumbo. E as gentes fugiam para abrigar-se. No entanto, um homem caminhava pelas ruas de Toledo, indiferente ao frio, à chuva e à lama. Chegado ao seu destino, bateu a uma porta. Outro homem veio abrir. O recém-chegado perguntou: 


— D. Gil Martins, está? 


— Sim, meu senhor. Quem devo anunciar? 


— Martim de Freitas. 


O homem que veio abrir a porta fez uma vénia para que o recém-chegado entrasse. E elucidou: 


— O senhor D. Gil está junto, à lareira. Aproximai-vos. 


Vendo-o, D. Gil Martins ergueu-se. 


— Grande honra tenho em receber-vos! 


Martim de Freitas pareceu não ligar ao cumprimento e perguntou em tom grave: 


— El-rei D. Sancho II é morto? 


Baixando a cabeça, o fidalgo confirmou: 


— Sim… é morto. Que Deus tenha a sua alma em descanso! 


— Vistes o seu corpo sem vida? 


— Deus reservou-me mais esse desgosto! 


— Pois quero eu vê-lo também. 


D. Gil Martins elevou a estatura num gesto de surpresa. 


— Que dizeis, D. Martim de Freitas? 


Solene, o visitante confirmou: 


— O que acabais de ouvir, senhor. Quero vê-lo e desempenhar-me da minha última missão. 


— É assim tão urgente e… necessário? 


— Sim. Trago comigo as chaves do castelo de Coimbra. Preciso que el-rei me desobrigue do meu juramento antes que o rei Afonso tome conta delas. 


De olhos abertos num espanto, D. Gil Martins olhava o visitante, perguntando a si próprio se o prolongado cerco a que D. Martim Freitas se sujeitara não dera cabo do seu entendimento. Mas logo o fidalgo, que parecia ter adivinhado as conjecturas do seu interlocutor, pôs ponto final nessas mudas interrogações. 


— Senhor, creio que fui bem explícito. O que peço é justo e não pode ser-me negado! 


Lá fora, a chuva miúda, impertinente, punha lama nos caminhos. E a tarde morria, com a pressa de quem não tem nem deixa saudades…


 
O dia que nasceu depois daquele em que Martim de Freitas chegara a Toledo não era menos triste. A chuva deixara por momentos de cair, mas o vento viera substituí-la. Um vento gritante, que punha arrepios nas almas inquietas. 


No cemitério, um pequeno grupo olhava com ar de assombro, e vezes por entre lágrimas, a figura altiva de D. Martim de Freitas, agora ajoelhado junto da sepultura do que fora seu rei e rei de Portugal. O corpo estava exposto.

 

O fidalgo português curvou-se e, entre as mãos  cruzadas sobre o peito do defunto, depôs as chaves do castelo de Coimbra. Beijou-lhe as pontas dos dedos. Depois ergueu-se e falou: 


— Meu rei e senhor! Enquanto vivestes, sofri pela vossa causa as maiores privações, dissimulando sempre, para dar conforto e ânimo aos meus companheiros. E assim eles continuaram no castelo que é vosso e continuaram honradamente aguentando por vós. Cumpri o meu juramento de lealdade, Senhor! Porém, agora que sois morto e não posso já entregar-vos a cidade, quero ao menos fazer-vos entrega destas chaves para que, desobrigando-me vós, eu possa apresentá-las a vosso irmão, o conde D. Afonso, como renúncia vossa e não como triunfo de suas armas!


Fez-se um pesado silêncio após estas palavras, cadenciadas, solenes. Havia emoção em todos os rostos desses homens habituados às agruras da guerra. Depois, silenciosamemte ainda, as chaves do castelo de Coimbra foram retiradas das mãos do rei morto e a sua sepultura fechada para sempre. 


Assim ficava encerrado, também, um feito de lealdade que jamais as chuvas, o vento, o pó ou a lama dos caminhos poderão destruir, apesar do esforço do tempo!

 

 

 

Em: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal, Porto, Editorial Universus, 1962 , p.Volume II, pp. 116-123.

https://portugalidade.pt/lenda-das-chaves-do-castelo-de-coimbra

 

19.04.20

Sobrena, Cadaval @ Lendas de Portugal - Capela de Nossa Senhora da Graça, em Sobrena

Miluem

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Capela de Nossa Senhora da Graça  em Sobrena
 
 
 
Consta que foi na Sobrena que D. Leonor iniciou a sua famosa relação amorosa com o Conde Andeiro.
 
 
E terá sido na Capela de Nossa Senhora da Graça mandada construir por D. Fernando, a seu pedido, que sob a nave central, ao nível do piso térreo, foram sepultados o conde Andeiro, então assassinado por D. João Mestre de Avis, e o Conde de Barcelos, embora já não sejam legíveis as inscrições nas sepulturas, apagadas pela entrada dos fiéis naquela Capela.
 
 
Reza a tradição oral que o nome da aldeia de Sobrena lhe foi atribuído pela Rainha D. Leonor Teles, casada com o Rei D. Fernando I. Como é sabido D. Leonor havia sido casada com um fidalgo e embora D. Fernando tenha conseguido a sua anulação por Roma, o seu casamento com D. Leonor não agradou ao povo, suscitando uma onda de revoltas, durante as quais esta repousou, quer no Peral na casa 4º. Conde de Barcelos a quem seu marido concedeu uma doação no ano de 1371, quer na Sobrena, ou ainda nas Quintas de Santo António e de Vale Vilão.
 
 
 
 

 

18.04.20

Passô, Vila Verde @ Lendas de Portugal - Lenda da Senhora que passou

Miluem

Foto: Wikipédia

Lenda da Senhora que passou

 

Uma jovem acompanhada do seu pai viajava pela estrada fora. Assim que encontraram um rochedo que fazia boa sombra, o pai e a filha Joana pararam para descansar.


Joana também tinha muita sede, mas ali não havia água e a que levavam consigo já tinha acabado.


Decidiu, então, procurar um riacho. Quando encontrou um os seus olhos iluminaram-se de alegria. Bebeu toda a água que lhe apeteceu e também se refrescou. Mas, de repente, uma bela voz masculina disse-lhe muito baixinho:


— Por vós, transformar-me-ia num rio, se necessário fosse!


A jovem, muito assustada, levantou-se. Olhou em volta e disse:


—Ia jurar que ouvi uma voz de homem… No entanto, não está aqui ninguém…


E voltou a ouvir aquela linda voz:


— Enganai-vos… Também eu estou aqui e bem perto de vós! Olhai para baixo, para a minha água.


— Estarei louca… (disse a jovem) ou um riacho pode falar como um homem?


— Não só pode falar como também amar. Sim…sou eu o riacho que vos fala.


Mas, Joana continuou um pouco assustada e o riacho explicou:


—Qualquer riacho como eu, quando é descoberto pela primeira vez e a pessoa que o descobre é uma donzela, pode falar… ouvir… e até amar! Para isso basta que os vossos lábios toquem na minha água e me digam baixinho: amor!


A donzela, apesar de desconfiada, experimentou o que o riacho tinha dito.


De repente, aparece, muito preocupado, o pai dela, pensando que ela se tinha perdido.


A jovem não contou nada do que tinha acontecido a seu pai. E lado a lado continuaram a sua viagem, mas um ruído estranho perseguia-os.


Quando caiu a noite, os viajantes procuraram um lugar para dormir.

 

Mas, a Joana desejava tanto saber se o riacho tinha cumprido a sua promessa e se viera atrás dela até ali.

 

Aquele ruído não poderia ser outra coisa… Com muito cuidado para não acordar seu pai, saiu e foi procurar o riacho.


Qual não foi o seu espanto ao ver que o riacho era agora um belo rio.


Contudo, a donzela continuou curiosa e questionou o rio:


—Tendes só voz? Não tendes figura?


O rio perguntou-lhe:


—Gostaríeis de me ver?


—Ai! Gostaria tanto!


Então, o rio realizou o desejo da sua amada:


—Aqui estou!


Foi então que surgiu o pai da jovem muito zangado:


—Joana! Atraiçoaste-me! Foste ter com um homem!


—Senhor meu pai… eu explico-lhe.


Mas ele nem sequer a quis ouvir:


—Não quero explicações! Vamos! Já não terás descanso até ao final da viagem.


O rio feito homem ficou ali a observar a linda donzela que se afastava.


Diz-se que, no dia seguinte, muita gente ouviu uma voz estranha vinda dos lados do rio e que perguntava com ansiedade:


- A senhora passou por aqui?...

 

- Respondei-me, por favor! Passou por aqui? Passou?...

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Esta pergunta, mil vezes repetida e ouvida por alguns que já não são deste mundo, deu o nome àquelas terras, ficando a chamar-se Passô.

 

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E o rio que a banha, tem o nome de rio Homem!

 

http://www.cm-vilaverde.pt/web/cultura/tradicoes

 

17.04.20

Montalvão @ Lendas de Portugal - Dois lobos no caminho

Miluem

cd6880dcd6bc36def1bc002ed64354c3--backpacks-for-boys-school-backpacks.jpgFoto: Pintrest.fr

 

Dois lobos no caminho

 

Não sei quando aconteceu, não sei em que tempo aconteceu, fiquemo-nos por foi há muitos anos, ainda havia lobos nos cerros da parte norte do concelho de Nisa. Talvez na primeira década de 1800.

 

O meu avô ouviu a história do seu avô que a ouvira a um velhote.

 

Os acentuados declives dos terrenos de Salavessa constituíam um ecossistema propício para animais selvagens como o veado, o javali e o lobo. Ainda hoje assim é.

 

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Nesse tempo vivia em Salavessa um casal com os seus seis filhos, moravam na rua do Santo.

 

O filho mais novo tinha poucos meses e o casal resolveu que era tempo de o baptizar.

 

Com o aproximar da cerimónia, o pai da criança deslocou-se a Montalvão para comprar carne. Manuel Ribeiro acabou por estar todo o dia na cavaqueira das tabernas, na conversa com amigos, demorou-se um pouco mais e já era quase noite quando se pôs ao caminho.

 

Ainda não tinha feito metade do percurso, aproveitara para descansar um pouco e matar a sede na fonte dos Defuntos, quando foi surpreendido por dois lobos.

 

Atraídos pelo cheiro da carne os lobos seguiam Manuel Ribeiro há já algum tempo sem que este se apercebesse.

 

Até que lhe barraram o caminho.

 

Má sorte para o nosso amigo, nesta altura estava longe de imaginar que era o início de uma tragédia para si e para a sua família.

 

Com o objectivo de os afastar Manuel começa a atirar-lhes pedras.

 

Os lobos afastavam-se um pouco mas voltavam de olhos fixos no homem.

 

Percorrer a distância que faltava era agora a sua maior preocupação.

 

O pânico começou a apoderar-se de Manuel até que pensou em arremessar-lhes um pedaço de carne – a carne era para o baptizado do filho mas não havia escolha possível.

 

Enquanto os lobos se entretiveram com o primeiro naco de carne, Manuel aproveitou para correr, vereda fora, em direcção a casa.

 

Todavia os lobos, pacientes e persistentes, atravessaram-se-lhe novamente no caminho.

 

Sem outra hipótese, desfez-se da carne e aos poucos avançava no caminho para a aldeia.

 

Cada pedaço permitia uns metros na caminhada, desta forma conseguiu atravessar a Charneca e alcançar o seu objectivo.

 

Foi perseguido até à entrada da aldeia, até à porta da sua casa na rua do Santo – a rua do Santo, que hoje está no centro de Salavessa, ficava nessa época à entrada da povoação.

 

Já seguro, Manuel Ribeiro acordou a mulher para partilhar a aflição que tinha vivido. Abeiraram-se devagar dos postigos da porta e ambos os viram partir e desaparecer no escuro da noite.

 

Mas Manuel não conseguiu superar o susto que apanhara. Permaneceu na cama, vítima, ou não, do sobressalto de que fora alvo e a verdade é que semanas depois acabou por falecer.

 

A sua esposa pouco tempo viveu, falecendo meses depois.

 

Os filhos ficaram sem a protecção dos pais, crescendo de um lado para o outro, em casas de familiares e amigos. Já adultos, e não respeitando as regras da comunidade, perderam por completo o respeito da aldeia.

 

Dois lobos no caminho. Dois lobos que interromperam o percurso de uma vida. Foram a pedra de toque para a morte dos progenitores e para a desgraça dos filhos?

 

A tradição oral diz que sim.

 

Não sei se a história se passou exactamente desta forma.

 

Diz-se que quem conta um conto lhe acrescenta um ponto, são as regras da vida, das histórias da vida.

 

Podem os lobos servir de desculpa para o destino das pessoas, para a doença e para a pobreza?

 

A verdade, é que também os medronheiros das terras da Charneca, as estevas de papoila branca, os pinheiros, a água que corre no ribeiro de Ficalho, todos contam a história, recordam os factos e lembram a sua aflição.

 

O meu avô João diz que foi verdade, está seguro da sua autenticidade, ouviu a história ao seu avô Manuel Correia, que nasceu ali por 1860.

 

Mas os factos eram mais recuados.

 

Muito mais recuados.

 

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São do tempo em que a entrada de Salavessa era na rua do Santo, junto à capela da aldeia.

 

São do tempo em que lobos e homens partilhavam o mesmo território, se debatiam pelos mesmos caminhos, pelas mesmas veredas e, olhos nos olhos, se enfrentavam.

 

Não sei quando aconteceu, não sei em que tempo aconteceu, fiquemo-nos por foi há muitos anos.

 


In “Jornal de Nisa” – Luís Mário Bento

 

Fonte: http://www.jfmontalvao.pt

Fotos de Salavessa: https://www.facebook.com/Salavessa-666799466670518/