Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

As coisas de que eu gosto! e as outras...

Bem Vind' ao meu espaço! Sou uma colectora de momentos e saberes, gosto de os partilhar por imagens e ou palavras.

As coisas de que eu gosto! e as outras...

08.04.20

Ilha de São Jorge @ Lendas de Portugal - Urzelina

Miluem

Foto: http://floresdoareal.blogspot.com/2015/02/familia-ericaceae-generos-daboecia.html

 

 

Urzelina

 

Na crista da enorme cordilheira, que atravessa a ilha de S. Jorge de ponta a ponta, erguia-se, há muitos, muitos anos atrás, o majestoso castelo do príncipe Romualdo. A sua corte faustosa entregava-se a orgias, banquetes e outras diversões, que causavam espanto na população trabalhadora.


Uma madrugada, a trombeta real ecoou através das montanhas, anunciando a grande caçada que iria começar ao toque das Avé-Marias.


Em frente ao palácio foram estacionando as seges, os cavalos, muitos criados de libré, carregados com os apetrechos destinados à caça.


Os pobres e maltratados trabalhadores do campo já tinham começado mais um dia de trabalho duro, quando o segundo toque de trombeta soou e a comitiva do príncipe partiu a grande velocidade, rindo de alegria ao galgar os montes.


Os torcazes voavam espavoridos pela gritaria e Lina, a amada do príncipe, serpenteando com o cavalo por entre as urzes e rochedos em perseguição de alguns pombos que lhe fugiam, acabou por se afastar da comitiva.


Quando deram pela sua falta, esqueceram a caça e procuraram Lina por todo o lado, mas não a encontraram. Voltaram ao palácio, a alegria deu lugar ao desânimo e tristeza.


O príncipe mandou encerrar todas as portas a festas e diversões e, durante as noites e dias seguintes, a sua voz soluçante gritava:

 

       “Lina! Lina!” enquanto corria como louco, esfarrapado e desgrenhado por precipícios e ravinas à procura da amada.


Uma noite, quando voltava ao castelo, Romualdo estacou com um quadro terrível. No fundo de uma ravina, um cavalo morto esmagava com todo o seu peso a querida Lina.

 

O príncipe, correndo, desceu o precipício, beijou o cadáver já a apodrecer e entre lágrimas cortou uma trança dos seus lindos cabelos louros. Apanhou um ramo de urze e aí enrolou a trança.


Voltou ao castelo, desalentado, como morto. Nunca mais quis saber de festejos e os cortesãos começaram a chamar àquela planta Urze de Lina.

 

Passado pouco tempo, o príncipe morreu de desgosto e, com o correr dos anos e o esquecimento da hipócrita corte que o adulava, a sepultura ficou completamente coberta de Urze de Lina.


Em homenagem à dor do príncipe que Deus duramente tinha castigado, chamou-se Urze de Lina e mais tarde por aglutinação Urzelina à povoação à beira-mar, onde faziam eco as atrocidades praticadas no castelo e onde vivia o povo que sofria a tirania dos cortesãos.


A corte aduladora e hipócrita, sem respeito pela morte do príncipe, redobrou as festas e a tirania ao povo, mas foi castigado. Deus, que vela pelos pobres, fez rebentar um vulcão nos alicerces do palácio, a lava soterrou toda a corte maldosa e destruiu tudo à volta, correndo até ao mar.

 

Source: FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.189-190
Place of collection: Urzelina (São Mateus), VELAS, ILHA DE SÃO JORGE (AÇORES)
Narrative / When: 20 Century, 90s / Belief: Unsure / Uncommitted

Fonte: CEAO - Centro de Estudos Ataíde Oliveira