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As coisas de que eu gosto! e as outras...

Bem-vind' ao meu espaço! Sou uma colectora de momentos e saberes.

As coisas de que eu gosto! e as outras...

24.10.21

Praia do Almoxarife, Faial, Açores @ Lendas de Portugal - Santo Cristo dominou o fogo

Miluem

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Santo Cristo dominou o fogo

 

Era no princípio do século dezoito, mais precisamente no dia um de Fevereiro de mil setecentos e dezoito.

Os habitantes da Praia do Almoxarife andavam ocupados nos seus trabalhos.

As mulheres estavam no arranjo da casa e da comida e os homens andavam no campo, a trabalhar a terra da qual tiravam o seu sustento.

 

 Alguém, por acaso, olhou para o lado do Pico, em frente, do outro lado do canal e viu uma coisa horrível e inesperada:

o lume rolava sobre o mar, em bocas de fogo abertas, em direcção à Praia do Almoxarife.

Tinha rebentado um vulcão no Pico, em Santa Luzia ou nas Bandeiras, e a lava fervente era tanta que se tinha espalhado pelo canal e ameaçava vir destruir as casas, as terras e outros haveres das pessoas daquela banda do Faial.

 

 O povo da Praia do Almoxarife, muito crente em Santo Cristo, que sempre o tinha protegido nas suas aflições, foi com muita fé buscar o crucifixo e levou-o para a beira-mar, junto à praia.

Os homens que seguravam o crucifixo, desenharam com o Senhor uma cruz na areia e seguraram-no na vertical, de frente para as ondas de lume que avançavam sobre a água, aproximando-se a toda a força.

 

 Então o Cristo curvou-se como se estivesse a fazer uma vénia ou a mandar o lume afastar-se para trás.

Perante os olhares pasmados das pessoas, o fogo obedeceu, começou a recuar e a sumir-se pelo mar abaixo.

 

 A alegria foi geral porque estavam livres de perigo e a fé no seu Santo Cristo aumentou cada vez mais.

A Câmara da Horta prometeu fazer a festa todos os anos, no dia um de Fevereiro, e não o esqueceu, tendo vindo durante muitos anos as altas personalidades, descalças, para prestar homenagem ao Santo Cristo da Praia.

 

 

Source: FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.255

Place of collection: Praia Do Almoxarife, HORTA, ILHA DO FAIAL (AÇORES)

Narrative – When: 1718 – Belief: Unsure / Uncommitted

 

Fonte: CeAO Centro de Estudos Ataíde Oliveira

lendarium.org

Foto: jfpalmoxarife.com

23.10.21

Mora @ Histórias e Contos - Corre, corre cabacinha

Miluem

Corre, corre cabacinha 

Era uma vez uma velhinha. Bem, coitadita, na' tinha mais ninguém, vivia sozinha no meio de uma floresta.

Mas, noutros tempos, tinha tido uma filha. A filha entretanto cresceu, fez-se mulher, fez-se uma senhora, foi pra Lisboa. Lá, arranjou um rapaz pa' namorar e tratou do casamento.

E a velhinha sempre lá a viver na floresta. Um belo dia, chegou-lhe a filha à porta (um grande automóvel, tudo muito preparado) pa' convidar a mãe pò casamento. E disse-lhe a mãe:

– Ó filha! Como é que tu queres que eu vá pò casamento, se eu vivo aqui no meio de uma floresta destas?! Atão, os lobos comem-me no caminho!

Filha – Na' comem! Ó mãe na' tenhas medo, que os lobos na' te comem! Vá!

Bem, assim foi. A velhota lá foi. Chegou assim a um cerrozinho, apareceu um lobo com os dentes arreganhados!

Lobo – Ai, velha! Que eu agora como-te!

A velha, esperta, (as velhas são todas espertas) disse pra ele:

– Olha! Olha lobo, vamos fazer aqui um contrato. Na' me comas! Que eu agora vou ao casamento da minha filha, como lá muita carne e muito bolo e venho de lá mais gorda! Atão, depois tu comes-me.

Lobo – 'Tá bem! – O lobo muito guloso. – 'Tá certo.

Lá foi a velhinha. Ora, um grande casamento: comeu, bebeu, comeu, bebeu... Passou três dias naquela vida... A velha já não parecia a mesma! Nisto aproximou-se a hora de ela se ir embora e começou a chorar! Disse-lhe a filha:

– Ó mãe, tu 'tás a chorar de quê?

Velhinha – Ora filha... Atão eu combinei com o lobo, quando vinha pra cá, que vinha ao teu casamento e agora à volta, pra lá, é que ele me comia que eu 'tava mais gorda! E agora ele 'tá lá.

Filha – Olha, na' tenha medo! Na' há problema. Tome lá esta cabaça(4). Quando for lá quase a chegar, meta-se dentro da cabaça. Você sabe o que é que há-de fazer!

Tal e qual! Quando ia lá a chegar ao cerrozinho lá estava o lobo. A velhota pensou "bem, é aqui que o lobo deve de estar". Lá se enrolou toda dentro da cabacinha, quietinha dentro da cabacinha, e lá foi a cabacinha a rebolar. Parou-a o lobo! Disse o lobo:

– Ó cabacinha! Tu não viste p'aí uma velhinha?!

Cabaça – Eu na' vi cá nem velhinha, nem velhão! Rebola cabacinha, rebola cabação! Leva- -me à minha casinha, leva-me ao meu casão! E tu lobo ficaste aí feito gulosão, que na' meteste o dentão!»

E pronto. Assim o enganou!

 

nome: Maria Augusta, ano nascimento: 1932

freguesia: Mora, concelho: Mora                               

distrito: Évora, data de recolha: 2007

https://www.memoriamedia.net/index.php/maria-augusta

 

22.10.21

S. Tiago dos Velhos, Arruda dos Vinhos @ Lendas de Portugal - Lenda de São Tiago dos Velhos

Miluem

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Lenda de São Tiago dos Velhos

 

Em tempos de que não há memória, não havia missa na aldeia de Santiago. Em julho, por altura das festas de São Tiago, os velhos do lugar, saíam de casa de madrugada e iam a pé à Sé Catedral de Lisboa, a fim de cumprirem a sua devoção e representarem a sua aldeia nas festividades.

 

Conta-se que a Imagem do Santo não saía na procissão, sem que chegassem os velhos, trazendo consigo o pendão da aldeia. Quando eram avistados à entrada da catedral, os habitantes de Lisboa exclamavam:

“Lá vêm os irmãos velhos de Santiago”.

A partir de então, a povoação ficou conhecida por São Tiago dos Velhos, tendo sido ordenada a construção de uma igreja em louvor ao santo.

 

Fonte: http://www.cm-arruda.pt/lendas-locais

Foto: https://www.visitarportugal.pt/lisboa/arruda-vinhos/santiago-velhos/igreja-matriz

 

 

21.10.21

Gaia @ Lendas de Portugal - A Lenda de Gaia

Miluem

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Morte de Gaia

Manuel Maria Bordalo Pinheiro (1815 - 1880); José Maria Baptista Coelho (1812 - 1891)

 

 

A Lenda de Gaia

 

Gaia, rainha das Astúrias (ou de Leão), mulher de D. Ramiro, aí pelo ano de 842 – 850. Bela, de aparência frágil mas sedutora, Gaia era uma escrava dos caprichos do seu rei, que apenas via nela um objecto de prazer e diversão, não tendo nenhuma espécie de respeito pelos seus sentimentos e desejos.
Gaia sonha com um grande e verdadeiro amor.

Longe, na margem esquerda do Douro, num alcácer (castelo) perto da foz do rio (Lugar do Castelo), habita o rei mouro Abencalão Alboazar, devoto de Allah, exímio no manejo da cimitarra (espada). Aprecia a beleza, vive esteticamente o ambiente.
D. Ramiro e Abencalão tinham negócios em comum. É sabida a excelência dos cavalos de raça árabe. D. Ramiro recebe então o mouro em Mier, para tratar de assuntos equestres.

 

 

Gaia foge do Castelo

Alboazar faz-se acompanhar da sua bela irmã, Zahara, e já no palácio repara em Gaia. Fica impressionado com a sua beleza, e, num impulso incontido, o rei Alboazar colhe a rosa mais bela e fresca do jardim e oferece-a a Gaia. Ela pressente que é aquela a rosa dos seus sonhos.
D. Ramiro por sua vez, não resiste aos encantos de Zahara e faz-lhe propostas amorosas, que ela rejeita. Rapta-a então, e toma-a à força. Gaia toma conhecimento do acontecido e num impulso decide-se a seguir o mouro, refugiando-se no seu Castelo.

D. Ramiro, de orgulho ferido, não aceitando que a sua mulher tenha fugido voluntariamente, decide-se a organizar uma expedição para trazer a rainha de volta.

Em três galés devidamente equipadas e tripuladas, o Rei das Astúrias dirige-se à foz do Douro e aporta na Afurada.

D. Ramiro aproxima-se sozinho do Castelo, disfarçado de romeiro (peregrino). Debaixo do burel (hábito) esconde a espada e o corno, que no momento oportuno servirá para chamar os seus aliados, comandados por seu filho D. Ordonho, e tomarem de assalto o Castelo.


Perto do Castelo há uma fonte, onde uma bela odalisca vem encher a sua ânfora. D. Ramiro pergunta-lhe quem ela é e quem são os moradores de tal Castelo.
Com os seus lábios de cereja madura, diz-lhe que se chama Ortiga e serve a nova senhora, a cristã Gaia, bem amada do seu senhor, o vigoroso e prudente Alboazar.

Vai levar a água, mas apressa-se a buscar mais, pois lhe agradou a conversa e ali vai ficando junto da fonte.
D. Ramiro porém, tem pressa e, docemente, fá-la recolher ao castelo com a infusa cheia. Bem no fundo da bilha vai meio camafeu que discretamente o rei lá introduziu. Sabe que a Rainha tem a outra metade, pois que com ela o repartira outrora.
A donzela, contrariada, que lhe agrada o romeiro, vai-se para junto da ama. Esta, ao verter a água no lavatório vê, com surpresa, cair o que ela logo reconheceu.

– Ortiga! Quem estava na fonte?
– Ninguém, Senhora.
– Mentes. Não negues, que alguém estava na fonte. Diz-me quem era e saberei recompensar-te.
– Bem, Senhora. Encontrei um pobre doente que me pediu água e eu dei-lha.
– Ortiga! Vai já procurá-lo e trá-lo à minha presença.
– Eu vou, Senhora.

 

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Postal de 1902

https://www.portosecretspots.com/amp/a-lenda-de-miragaia

 

 

D. Ramiro reencontra Gaia

 

E foi. Contou ao fingido peregrino o desejo que a Rainha tinha de vê-lo. Claro que o Rei acompanhou a esbelta moça. Gaia reconheceu-o imediatamente.

– Rei Ramiro, quem te trouxe aqui?
– O teu amor, Gaia.
– Pois vais morrer!

O Rei fica, por momentos, estupefacto, mas logo se recompõe.

– Pequena maravilha é, para ti, a minha morte, Gaia!

A rainha manda-o recolher a uma sólida seja na (prisão). Ordena à serva que lhe negue qualquer alimento ou bebida.
Ortiga, porém, às escondidas, faz-lhe chegar o que pode.
Entretanto, chega Abencalão que andara fora.
Moído de saudades, mal toca nos alimentos e logo procura a sua amada, na intimidade dos aposentos.
Gaia acaba por denunciar a presença do rei Ramiro, e manda-o chamar à presença do Mouro. Abencalão, ao saber do intuito do rei de levar a sua mulher de volta, vê que só lhe resta uma solução, matar Ramiro. Disse então :

– Obviamente, vieste morrer. Antes, porém, sinto curiosidade em saber que tipo de morte tu me darias, se me apanhasses em Mier. Qual seria ?

Rei Ramiro, que estava cheio de fome, aproveitando o condicionalismo da situação, respondeu-lhe:

– Dar-te-ia um bom capão assado, uma regueifa e um pichel de vinho fresco, obrigando-te a comer e a beber tudo. Em seguida, abriria todas as portas do castelo, chamava toda a minha gente para que presenciasse a tua morte. Depois fazer-te-ia subir ao cimo da muralha e tocar um corno, como este que aqui tenho, até rebentares.
– Pois há-de ser essa a tua morte!

 

O Castelo é atacado

Bem alimentado, cheio de força, atroa os ares com o cornudo instrumento, do alto do Castelo.
D. Ordonho e os seus guerreiros, preparados para reagirem a tal sinal, avançam e, sem dificuldades, transpõem as portas das muralhas e invadem rapidamente a fortaleza.
O estupefacto Mouro morre degolado por espada anónima.
O castelo é arrasado e os destroços são queimados.
O Rei dá protecção à simpática Ortiga. Gaia e as suas damas, recolhem aos barcos.
A bordo de um deles, a Rainha observa, triste e chorosa, as chamas consumindo o que resta do castelo.
O Rei estranha o seu choro e pergunta-lhe:

– Porque miras? Porque choras?
– Miro as ruínas daquele castelo, onde fui tão feliz. Choro a perda daquele bom mouro que mataste.

A indignação do rei é grande e não é menor a do seu filho D. Ordonho. Animado de insensata fúria, instiga o progenitor:

– Pai, não levemos connosco o demo…

O ultrajado marido, furibundo, saca da bainha o pesado montante e brada:

– Mira, Gaia, mira, que miras pela última vez!

A espada, num golpe tremendo, cai separando a cabeça, que tomba nas águas profundas. Com um pé, D. Ramiro empurra o corpo da Gaia borda fora… (Segundo a lenda, é por isso que aquele local ainda agora se chama Miragaia.)

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O rei cristão acabou por baptizar Ortiga e veio a casar com ela, pondo-lhe o nome de Aldara, nascendo desse enlace um filho, Alboazar.

Eis em resumo os traços fundamentais da lenda que ainda hoje perdura e anda mesmo no brasão de armas da terra.

 

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Fonte BiblioVALLE, Carlos Revista de Etnografia, Tradições Populares de Vila Nova de Gaia Porto, Junta Distrital do Porto, 1965 , p.132-135

 

 

Fonte: https://radioportuense.com/2019/01/27/a-lenda-de-gaia/

Fotos:

https://www.visitarportugal.pt/porto/porto/miragaia/vistas

https://imenso-pedro2.blogspot.com/2010/08/gaia-e-o-rei-ramiro.html